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Suicídio a prazo

por Nuno Castelo-Branco, em 16.11.08

 

O Partido Socialista parece querer recusar a audição de Dias Loureiro na AR.  Como principal partido parlamentar e detentor de uma inegável legitimidade conquistada nas urnas, está no seu pleno direito, pois compete-lhe gizar a política que julga mais positiva para o país. Em teoria.

 

Os regimes democráticos legitimizam-se através do voto dos cidadãos e da geral aceitação de uma determinada situação pela opinião pública que por muito irrisória que seja - como a portuguesa -, deve servir de farol orientador para a boa praxis política. Desta forma, ninguém contesta o exercício do poder por parte do vencedor nas urnas e o contrário, seria a completa e inaceitável subversão das regras tacitamente aceites por todos desde o alvorecer do liberalismo. 

 

Sendo a democracia o primado da Lei sobre o livre arbítrio, convém então proceder a uma clara separação daquilo que deve ser a verdadeira política, relativamente aos jogos de bastidores que com ela se confundindo, acabam por subverter o próprio conceito. 

 

Ninguém contesta hoje o profundo enraizamento do clientelismo - seja ele económico, político ou de costumes - na nossa sociedade. O lóbi, esse feliz termo anglo-saxónico que genericamente designa o famigerado epíteto "corporação", existe nos mais diversos sectores da nossa sociedade. Os laços familiares, sejam eles de sangue ou de mero compadrio, consistiram  durante séculos, na base sobre a qual se criaram os grupos que num certo momento hegemonizaram o exercício do poder, logicamente defendendo nas suas trincheiras e torres de menagem, privilégios, coutos jurisdições e mercês. A instauração da Casa dos Vinte e Quatro pode ser considerada como um marco corporativo perfeitamente consciente e organizado em torno de um determinado círculo de influência que com o liberalismo, de uma forma aparentemente contraditória se estendeu ao resto da sociedade. Tornando-se mais permeável ao ingresso de neófitos, este poder tornou-se mais difuso e susceptível de ser participado por mais agentes que se nuns casos pretenderam inicialmente roturas propostas pelos manuais ideológicos e figurinos impostos extra-fronteiras, logo se conformaram à realidade local, mais comezinha e despida de roupagens idealistas. Sempre assim tem sido e assim continuará a ser.

 

Os regimes têm de garantir a sua sobrevivência no tempo, através de uma habilidosa gestão da informação transmitida à sociedade que os mantém. Sendo todos considerados como males menores de um certo período histórico, podem gozar de uma comedida contemporização por parte das massas, habitualmente amorfas e conformadas à sobrevivência de um quotidiano mais ou menos frugal. Tendo Portugal sofrido um irreparável hiato de setenta anos na sua normal vida parlamentar liberal (1910-76), os agentes políticos da terceira república devem ter como horizonte imutável, a garantia de uma certa estabilidade daquilo que a chamada opinião pública considera ser a baliza aceitável para todo o tipo de tropelias, desmandos, compadrios, roubalheiras ou declaradas incompetências.  Quando Salazar dizia que ... "em política o que parece, é"..., estava bem consciente do colossal poder do boato, intriga e inata maledicência próprios de todas as sociedades, desde o pequeno círculo aldeão, às grandes metrópoles onde a imprensa cria os factos, por mais inverosímeis que possam ser.

 

A III república tem cometido erros crassos, pois autoconfiante na muito pouco respeitável passividade do sujeito "povo" que não passa de um simples refém, decidiu unilateral e de forma  abusiva, proceder de uma forma absolutamente autónoma daquilo que é a mera decência, do "parece bem". Orçamentos de Estado fraudulentos, gigantesco despesismo dos detentores de cargos públicos, encapotamento de todo o género de ilegalidades ressalvadas para apenas uns quantos privilegiados. É esta a imagem universalmente enraizada pela esmagadora maioria dos sujeitos passivos, aqueles que votam, pagam os impostos coercivos - sejam eles directos ou indirectos - e que vão assistindo à criminosa e galopante delapidação do pouco crédito público de que o sistema ainda beneficia.

 

O jornal Público, anuncia hoje que ..."a carta que Dias Loureiro enviou à Assembleia da República a pedir uma audição parlamentar sobre as suas relações com o BPN não apresenta motivos suficientes para o seu agendamento, segundo a deputada socialista Teresa Venda"...

 

Se o regime ainda não assistiu a uma generalizada sublevação e ao despoletar de uma situação próxima da total anarquia, para tal parece caminhar a cada semana que passa, pois os factos vão-se acumulando e mesmo uma massa bestificada pela penúria - após o súbito impulso consumista de uma meia dúzia de anos -, começou a informar-se, por mais incipiente  que seja essa leitura e conjugação de acontecimentos. A população resiste, porque tem a clara percepção de que a alternativa é a de um regime cerceador das liberdades civis e da implantação de um sistema de assumida prepotência e discrição. É este desejo de continuar a viver numa sociedade conforme o Ocidente, que nos orienta inconscientemente no sentido de um aguardar da batida da última badalada da meia noite.  A impressão geral coincide num ponto essencial: "eles" não querem audições, porque "eles" sabem que o sistema está todo minado pelo tentacular polvo que estende os pólipos a todos os sectores decisivos para a condução dos negócios nacionais. E o problema, reside também naquilo a que se designa por "negócio", palavra com uma reputação hoje tão negregada, que se confunde com o outrora nobre termo de política. O PS cegou e é alegremente acompanhado pelos seus congéneres que desfrutam da partilha das migalhas remanescentes do outrora grande Bolo Rei. Não têm emenda e quando todos eles quiserem reconsiderar, será tarde demais. Tarde, porque na verdade, é impossível. A nomenklatura está toda comprometida, desde os róseos palácios à portaria da mais ínfima secretaria de Estado.

 

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publicado às 18:30


2 comentários

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De JMB a 16.11.2008 às 19:32

A carta já foi escrita para surtir o efeito, sendo o actor exímio nestas cenas.
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De António de Almeida a 16.11.2008 às 22:39

-Pelo que me foi dado a perceber Dias Loureiro pretende apenas esclarecer que nada tem que ver com o Banco Insular, não esclarecendo nada de relevante nem trazendo factos novos. A ser assim, até porque decorre um processo na PGR , é lá que deve falar, mas já sabemos que a procura pelo mediatismo ficaria mais saciada na AR, a confirmar-se a recusa do PS iremos ter a muito breve prazo Dias Loureiro na SIC e na TVI.

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