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Democracia e Ditadura

por Samuel de Paiva Pires, em 18.11.08

 

(imagem tirada daqui)

 

Há um grande problema na sociedade portuguesa contemporânea, perpassada por um suposto regime democrático de pequenas quintinhas de interesses instalados, em conjunto com uma massificação da informação destinada a analfabetizar e enformar mais do que informar, um sistema educacional em degenerescência acentuada e, por último, mas mais importante que tudo o resto, sociedade essa onde pululam os arautos defensores da democracia legitimados e propagandeados como anti-fascistas, muitos dos quais, se pudessem, até preferiam governar em autocracia. Se tivermos ainda em conta a matriz católica e mediterrânea/latina por oposição ao verdadeiro liberalismo político e responsabilizador do indíviduo de que os países nórdicos e prostestantes são exemplo, temos os ingredientes necessários para um grande problema: o politicamente correcto a raiar o moralismo sem moral e prejudicial ao interesse nacional apodera-se das mesquinhas e provincianas mentes portuguesas levando a um gravoso estado de falta de coesão nacional em torno de um objectivo de verdadeiro desenvolvimento da nação e do país, aquele tipo de faceta que caracteriza nações como a alemã, a japonesa ou a americana, de acordo com a tal psicologia dos povos ou nações, matéria arriscada mas comprovada pelos exemplos históricos de renascimento das cinzas de tais nações.

 

Este falso moralismo torna-se ainda mais evidente ao nível dos que estão comprometidos com os interesses e o sistema vigente, os que se dedicam a tratar essencialmente daquilo que parecemos adorar,  isto é, tudo aquilo que se nos apresenta como acessório ou secundário. Nesta conjuntura é também de assinalar o autismo político da maioria das personagens envolvidas no aparelho governamental e estatal, e a claustrofobia democrática. Aliás, não sei até que ponto a expressão claustrofobia democrática é acertada, parece-me bem mais acertado algo como claustrofobia da liberdade e pensamento político, mas como não é um chavão ou soundbyte a comunicação social não adere tão bem.

 

Há ainda outro factor que me parece de lamentar, a falta de sentido de humor e de capacidade de aceitação de outras opiniões e discussão digna desse nome, que leva muitas vezes a que virgens ofendidas se manifestem contra quem se atreve a colocar em causa os seus interesses ou se apresente com ideias contrárias ao tal politicamente correcto, o que, no caso português, indica um grau de pouca cultura de liberdade política em toda a sociedade.

 

Se por um lado é criticável o que Manuela Ferreira Leite afirmou, por outro, é uma chatice quando se é politicamente incorrecto. Caso ainda não se tenham apercebido, este país está a entrar numa espiral de decadência social e política. Uma democracia saudável não seria atravessada por tudo o que acima estatuí. Nesse caso, uma ditadura à romana, a tal ditadura de 6 meses com vista a reestabelecer a normalidade estrutural e minorar as problemáticas mais prementes e causadoras de agitação e constestação social, poderia eventualmente ser uma hipótese a equacionar. Mas como os senhores do estadão protegem muito bem os seus interesses, devendo ter ficado com os olhos em bico, lá vêm mil e uma virgens ofendidas, como as que estavam há pouco na SIC Notícias, armar-se em bastiões defensores de primeira linha da democracia e da liberdade, quando na sua maioria são os mesmos que conformam o que o Professor Maltez classifica de micro-autoritarismos sub-estatatais.

 

Isto como se a democracia fosse esse regime político perfeito e não pudesse ser colocado em causa. Aliás, é um mal de que me parece padecer a academia norte-americana e anglo-saxónica, essa apologia descarada à democracia no campo de estudos da Política Comparada, utilizada ainda como forma de fundamentação de políticas externas de cariz essencialmente ideológico destinadas a exportar a democracia e implantá-la artificalmente em países cujas sociedades e modelos antropológicos não se coadunam com os princípios da democracia liberal (por oposição à meramente eleitoral).

 

Adiante, entre os tais argutos moralistas e exemplos de falta de sentido de estado encontram-se certas personagens que me causam um profundo asco quando infelizmente me aparecem no televisor, essa incoerência ambulante que é o senhor Bernardino Soares, e uma autêntica nulidade, o senhor Alberto Martins.

 

O primeiro diz que as afirmações de MFL foram infelizes e despropositadas, o que me parece até bastante acertado, até porque não estou aqui a defender MFL mas simplesmente a tentar analisar determinadas acepções e incoerências. No entanto, refere ainda que o PSD pode dizer que é ironia, mas há ironias que não se podem fazer e esta é uma delas. Mais uma vez, se se tratasse de uma ironia, revela-se a tal falta de sentido de humor. Mesmo assim, não o sendo, então mas afinal há ou não verdadeiramente liberdade de expressão? O tempo do lápis azul já passou ou não? Liberdade de expressão implica que cada qual pode dizer o que bem lhe aprouver, embora, claro, sendo susceptível de sofrer acções judiciais por difamação ou afins acções, ou, pelo menos, estando sujeito à crítica alheia, mas que não deveria nunca destinar-se a calar a liberdade de expressão de outrém, o que Bernardino Soares parece tentar. Mas também não é nada de surpreendente vindo de quem acha que a Coreia do Norte é uma democracia. Aliás, no campo das incoerências, o comunismo só tem reflexo prático em regimes autoritários, tendencialmente ou verdadeiramente totalitaristas, portanto, não é praticável em democracia. Mas esta gente também não sabe os fundamentos histórico-políticos do que alegadamente defende, e se sabe então são uns hipócritas, mas como o povo português também não prima pelo conhecimento, ficamos todos contentes com estas alarvidades.

 

O segundo refere que "A democracia não pode ter intervalos de seis meses. O contrário da democracia é a ditadura - e só quem não sabe o que foi a ditadura pode admitir intervalos lúcidos para a democracia". Isto revela, em primeiro lugar, a tal mania de clamar pela luta anti-fascista, que a par com a integração nas comunidades europeias se apresenta como forma de legitimação do regime e dos medíocres que desse se servem. Este problema que o Professor Maltez classifica como os complexos da esquerda e os fantasmas de direita, só poderá ser resolvido com o tempo, quando daqui a 30, 40 ou 50 anos a maioria destas personagens já tiver desaparecido e já se tiver obtido o distanciamento histórico suficiente para criar um regime com o propósito de servir o país, e não com o propósito de servir uns quantos que acham que a nação lhes deve tudo por terem alegadamente lutado contra o fascismo. E revela ainda, em segundo lugar, a falta de conhecimento de teoria política do sr. Alberto Martins. Segundo Aristóteles, o contrário da democracia não é a ditadura, o contrário da democracia, isto é, a sua forma degenerada, é a demagogia. Não há por aí alguma alma caridosa que ofereça ao líder da bancada socialista um manual de ciência política?

 

Por último, parece-me ainda de salientar as considerações de Luís Marques Guedes de que "Manuela Ferreira Leite estava a fazer uma crítica à forma autoritária, errada, de governar do engenheiro Sócrates e deste Governo e ao fazer essa crítica ilustrou-a com aquilo que ela acha que não se deve fazer", que as declarações foram "Com certeza uma crítica forte à forma de governar autoritária deste Governo, ironicamente chamou a atenção que isso porventura seria próprio num regime não democrático, mas que em democracia não é forma de se trabalhar, de se governar", e ainda "a reacção da sala é uma reacção irónica, de sorrisos, quando Manuela faz essa crítica velada à forma de governar errática, autoritária, deste Governo".

 

Começando pela última, significa que ainda há pessoas que parecem ter algum sentido de humor. Mas como a entoação de MFL não me pareceu ser sequer irónica, não sei até que ponto era de facto uma nota humorística. Como tal, se foi uma crítica à forma de governação de José Sócrates, resta-me concluir este já longo post notando evidentemente que maiorias absolutas no regime parlamentar português propiciam governações de cariz tendencialmente autoritário, e fechando ainda com uma pergunta que já me vem a assolar desde o 1.º ano da faculdade: Será que vivemos mesmo em democracia em Portugal?

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publicado às 21:48


1 comentário

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De Nuno Castelo-Branco a 19.11.2008 às 00:00

Devo ser muito estúpido, pois percebi à primeira, a ironia da MFL. Estão a querer arranjar "um facto" político. Enfim, conversa do chácha...

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