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Alguém.

por João de Brecht, em 09.12.08

 

 

 

Hoje lágrimas no rosto e percepção de que nada é eterno. O mundo que Alguém tinha idealizado caiu-lhe aos pés e é agora pisado pelas gentes mundanas que atravessam a mesma rua que ele. Tudo mudou. Conforma-se. Transfigura-se. Se ser poeta é ser triste, Alguém prefere largar de uma vez por todas a escrita e abraçar o mundo em que os sorrisos não são meras ocasiões de esticar os lábios.
 
Hoje trago-vos uma canção sem voz, sem rima e sem refrão.
 
Como que por intervenção divina, surgiu nos olhos de Alguém toda uma nova perspectiva sobre o conceito de perfeição; aos olhos desse mesmo Alguém apareceu uma imagem de beleza renascentista encarnada na pele de uma Mulher. Como em todas as histórias de amor fatela com que a literatura nos tem brindado desde os primórdios da escrita, tudo começou com a timidez e com o medo de dar o primeiro passo em terreno inóspito. Como em todas as histórias de amor fatela, o primeiro passo foi dado e o desenrolar de acontecimentos levou a que Alguém e a Mulher criassem uma plataforma de entendimento e passassem a tornar-se exclusivos um para o outro.
Foram pintadas telas, confessados segredos e sacudidos cigarros. A admiração era tão recíproca como quão grande parecia o muro transparente que os separava. Alguém sonhou alto, mas quanto mais sonhava mais se aproximava do fracasso. Foi desequilibrada a balança e a bússola deixou de apontar o norte, o que era real militou-se no platonismo e Alguém perdeu o Graal que segurava com a mão direita. Como um tordo em época de caça, Alguém caiu no chão frio e recusou-se a acreditar no fim de uma viagem sob o sol que tão bonito lhe parecia, batendo as asas de uma forma tão brusca que nada faz senão levantar poeira.
O futuro que Alguém criou estava condenado à partida, tomou como certo que tinha poder para guiar tudo pelo caminho certo. Mas a bom porto só se chega quando todos remam para o mesmo lado. Alguém aprendeu que partilhar um barco era muito mais que uma boa confraternização. Navegar à bolina deixou-o vulnerável ao vento e longe da costa.
Não há árvore que o vento não tenha sacudido. Há que seguir em frente, mas a coragem torna-se tão escassa que enfrentar a realidade não é incentivo para sair da cama.
Tudo se dissolveu num café queimado sem que Alguém tivesse percebido que canção deveria ter cantado.

 

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publicado às 03:39


4 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 09.12.2008 às 12:00

Muito enigmático, quase uma cifra, João!
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De J.Veloso a 10.12.2008 às 01:46

Enigma é definitivamente o teu cognome... magnificamente escrito, como sempre.
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De Samuel de Paiva Pires a 11.12.2008 às 00:30

João agora tens que ter cuidado no que te metes, já to disse, é assim que vamos aprendendo e ganhando maturidade, dando cabeçadas na parede!
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De Vera Matos a 17.12.2008 às 21:52

Tu não és deste mundo. Escreves de uma forma sublime, admirável! Como te disse há pouco, são 24 as horas do dia que estou disponível para ti, e se preciso farei horas extra.
Como disseste, e bem, não há árvore que nunca tenha sacudido com o vento... Mas não é isso que trava o seu crescimento, a sua imponência e beleza.

Keep you head up boy*
You've a fan here ;)*

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