Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A congestão republicana

por Nuno Castelo-Branco, em 10.12.08

*

 A Ilustração Portuguesa foi uma publicação que preencheu a mais conturbada época da história de Portugal. Neste nosso tempo de vaidades de cordel e exibição de griffes de duvidosa categoria, nada temos que se lhe compare, até porque a Ilustração dedicava especial atenção aos assuntos nacionais, fossem eles a vida da corte, os progressos materiais na indústria, comércio e agricultura, as artes e evidentemente, a moda e a "vida social e elegante". 

 

Curiosa é também a imensa capacidade camaleónica de adaptação às bruscas mudanças de regime, ou aos senhores do momento da publicação: se hoje enaltecem-se as figuras e virtudes de D Carlos, D. Manuel II ou a azáfama benemérita da rainha D. Amélia, no número seguinte exalta-se a golpada republicana, o ajuste de contas com o regime deposto e tecem--se inesperadas justificações à caça dos padres, ao seu despojamento ou à violência exercida sobre a generalidade das ordens religiosas. Anos mais tarde, Sidónio surge como um meteoro e é alçado à categoria de Redentor da Pátria, para pouco após cair fulminado por balas cunhadas na mesma forja do ódio sectário do prp, ser exautorado como "ditador", indiciando o regresso da prepotência e medo incutido pela chamada "república velha". A subserviência e lambugem aos "senhores doutores", aos "homens impolutos e bons", apenas tem como reflexo a total ausência de rigor na análise dos eventos políticos aquèm e além fronteiras.

 

Ao longo dos números, vamos deparando com algumas reportagens que a distância temporal tornou caricatas. Esta que aqui se reproduz, é susceptível de algumas gargalhadas e consiste numa paródia da situação ridícula a que o país se resignara, com nomeações de obscuros e efémeros  governos, sob o mando de criaturas bizarras que os ditirambos dispensados pela Ilustração às "excelências", não conseguiam esconder: Portugal vivia autenticamente, uma sangrenta e tragicómica aventura de Tintim.  Deleitem-se com as fotos, com o texto e porque não?, com o próprio cabeçalho da reportagem. Únicos...

 

* "Causou a mais profunda das impressões a morte do presidente do ministério, coronel António Maria Batista. Patriota devotado, republicano sem mácula, combatente da África e da Flandres, militar corajoso e distinto, a sua perda enlutou a sociedade de que ele era brilhantíssimo ornamento. À hora a que escrevemos estas linhas magoadas, está saindo o seu enterro, imponente e extraordinária manifestação de pesar".

 

O textozinho é simplesmente delicioso, desde as considerações ao Alexandre Magno de quem jamais alguém ouviu falar, até ao sarcasmo  conferido-lhe a categoria de "ornamento brilhantíssimo da sociedade".  Que maravilha!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:00


1 comentário

Sem imagem de perfil

De Miguel Castelo-Branco a 10.12.2008 às 15:20

Sim, destas peças estão os cemitérios cheios.

Comentar post







Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas