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Guantanamices

por Nuno Castelo-Branco, em 11.12.08

 

Surge hoje a notícia do interesse ou disponibilidade do governo português, em assistir os EUA na evacuação e encerramento da prisão de Guantánamo. Este tem sido um tema recorrente na imprensa europeia que perfeitamente alinhada com a brisa costumeira, encontra sempre motivos para agradar a quem mais teme. O terrorismo apadrinhado pela Al-Qaeda, não consegue, nem tem qualquer interesse em distinguir europeus de americanos, australianos ou neo-zelandeses. Para essa gente, somos todos o mesmo inimigo a abater e o terrorismo, apesar de global, tem as suas limitações logísticas - em homens e equipamentos - , pelo que atende a um certo sentido de prioridades.

 

Os países que encerram dentro das suas fronteiras importantes comunidades muçulmanas que para aí foram arrastadas pelo sonho do dinheiro, segurança social e respeito pelos direitos humanos, encontram-se hoje de joelhos diante da permanente chantagem da radicalização de uma franja substancial daqueles que acolheram já há décadas. A ânsia pelo aproveitamento da mão de obra barata que propicia o lucro garantido e de escala, faz-nos sofrer as consequências.  Não sabemos nem poderemos jamais ter a absoluta certeza, acerca da verdadeira culpabilidade - ou dos crimes cometidos - dos detidos na base cubana. Sendo os EUA uma sociedade onde a liberdade de expressão é incomparavelmente superior à existente na esmagadora maioria dos países  existentes, é verdadeiramente absurdo poder-se sequer pensar existir uma intencional política do exercício da tortura e da simples arbitrariedade para com pessoas, pelo simples prazer sádico de uma meia dúzia de loucos. E não é a violenta e falaciosa propaganda de uma coligação de estalinistas-trotsquistas e simples desordeiros de delito comum que nos fará mudar de ideias.

 

A auto-censura imposta na Europa quando das caricaturas de certo alegado profeta, indicia o medo instaurado por boa parte da imprensa, acabando por inflamar ainda mais os ímpetos daqueles que tendo fugido à miséria e à opressão, pretendem agora destruir as sociedades onde se radicaram. Compreende-se o reflexo ou apressada resposta a uma imaginada ameaça, mas isto não invalida a total ineficácia desta encenação de boa vontade que aos olhos de muitos, surge como simples capitulação. É evidente que somos todos contra a pena de morte, a tortura, as prisões preventivas sem prazo e outras anormalidades do foro jurídico que são incompatíveis com sociedades livres. No entanto, devíamos ser mais exigentes na análise dos problemas colocados pelos media, sempre ansiosos por temas que choquem uma opinião pública bastante sensível às questões relacionadas com os direitos humanos. Direitos estes, aliás, que pouco importam ou interessam a quem do outro lado, se organiza exactamente de forma vertical, espezinhando-os como princípios de deboche, decadência e fraqueza explícita. É este o nosso dilema.

 

Compreendemos o desejo do nosso governo em querer assistir e ajudar os aliados americanos, mas esperemos que desta vez, isso se quede pela retórica ou mera declaração de boa vontade. Existem problemas bem mais prementes que o Ministério dos Negócios Estrangeiros terá de enfrentar. A exploração de portugueses na Islândia, Holanda, Espanha e Irlanda - em alguns casos sob um regime de semi-escravatura -, assim como uma reformulação dos próprios serviços que devem sintonizar-se mais para a necessária procura de novos parceiros comerciais que aliviem o absurdo peso exclusivista de uma Europa - ou ínfima parte dela - nas nossa economia. A acertada política de aproximação à América do Sul e à CPLP - com o radical acelerar da cooperação na lusofonia -, deverá ser consistir na prioridade máxima da nossa política externa, deixando os episódios de mero fait-divers mediático - Guantánamo -, para os tablóides e correspondentes grupúsculos políticos extremistas e residuais.  Trazer potenciais terroristas para dentro das nossas fronteiras, fragiliza a posição portuguesa, pois abre novos e controversos capítulos desta história: se os mantivermos detidos, sofreremos as consequências, sendo a partir de então, alvos primordiais para ataques destruidores. Se os libertarmos, daremos ao mundo uma irrefutável e vergonhosa prova de pusilanimidade, demonstrando cabalmente a situação vulnerável do Ocidente. Não é esse o caminho. 

 

Muslim children are being beaten and abused regularly by teachers at some British madrassas - Islamic evening classes - an investigation by The Times has found.

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publicado às 10:55


4 comentários

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De Margarida Pereira a 11.12.2008 às 17:20

(se escrevesse o que acho, lá me ia 'gozar', por isso... manifestei-me de outra forma)
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De Nuno Castelo-Branco a 11.12.2008 às 18:43

Hã? Não percebi, Maggie.
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De Margarida Pereira a 12.12.2008 às 12:26

Se o excelso Artista visitasse a minha humilde paragem, já teria percebido...
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De JMB a 12.12.2008 às 00:23

Estive agora mesmo a comentar o facto com o R.B. ao telefone. Ainda bem que já escreveu sobre o assunto. Infame.

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