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O Soska fez com que me recordasse de um caricato episódio protagonizado por uma professora de Filosofia. Estávamos ainda a padecer da carraspana revolucionária que permitia todo o tipo de tontices, manipulações da verdade e até frustrados intentos de lavagem cerebral. 

 

Esta senhora era uma boa e conscienciosa professora, exigente e cumpridora de horários, mantendo uma férrea disciplina na turma. Contudo, padecia de comunite descerebralia aguda, uma indisposição que afectava ainda muita gente naqueles já longínquos tempos.

 

Um belo dia anunciou:

 

- "Daremos hoje início ao estudo de um dois maiores pensadores da história, o filósofo só-viético  (1) Immanuel Kant"...

 

Não querendo acreditar na imbecilidade que acabara de escutar, interrompi a "setora":

 

- "Kant? Soviético?" (desatando a rir).

 

- "Não seja ignorante e atrevido! Se fosse vivo, Kant seria hoje só-viético. Sabia que ele era natural e vivia na cidade só-viética de Kalininegrado?!"

 

- "Não! Nasceu e viveu na cidade prussiana de Koenigsberg, capital da Prússia Oriental! Era completamente alemão, "setora"!

 

- "Pois então fique sabendo que teria sido libertado pelo Exército Vermelho em 1945, momento em que a cidade voltou (!) a ter o seu verdadeiro nome!: Kalininegrado! (2)"

 

- "Não! Teria de certeza sido chacinado pelas hordas do Estaline que em menos de um mês, mataram mais de um milhão de civis alemães na Prússia e na Pomerânia!"

 

- "Não seja fascista! Aqui em Lisboa já não pode brincar aos donos de escravos (3) como fazia em Lourenço Marques! Cale-se já!"

 

-"Ah-ah-ah-ah-ah-ah! Vocês estão malucos!"

 

Resultado da aventurazinha: fui ao conselho directivo e repeti tintim por tintim o que havia dito na aula. Eles, que também eram "camaradas", limitaram-se a achar graça e a considerar o caso como um "excesso de zelo".  Coisas de amanhãs que nunca chegaram a cantar, felizmente.

 

(1) "Eles" diziam por gosto ou moda, Ónião Só-viética, chegando ao ponto de alguns comentadores desportivos, torcerem pelo seu "Sol da Terra", mesmo quando em campo estavam equipas portuguesas. 

 

(2) Kalinine (foto acima, ao lado de Kant) foi um apparatchik de baixíssimo calibre, de uma colossal cobardia perante Estaline e que sem pestanejar ou balbuciar o mínimo protesto, viu a mulher ser arrastada para o Gulag, mais uma das vítimas da paranóia do sátrapa vermelho. O hilariante detalhe deste episódio, consistiu em tentar fazer crer que Koenigsberg outrora se chamara ... Kalininegrado!

 

(3) Esta era uma das chantagens  ou atitude de coacção moral que frequentemente atiravam  à cara dos ultramarinos. Não esqueço, nem perdoo.

 

 

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publicado às 00:02


8 comentários

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De Lady-Bird a 30.12.2008 às 01:44

Assim é que é Nuno!
há que repor a verdade e metê-los na ordem...lol...

beijinho
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De Nuno Castelo-Branco a 30.12.2008 às 11:18

É mesmo para rir. E isto não é nada. Coisas destas aconteciam de minuto a minuto. Muito a sério, havia gente que em programas da RTP, dizia que ... "o infante D. Henrique e Vasco da Gama, esses típicos colonial-fascistas"...
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De editor69 a 30.12.2008 às 12:49

Acredito em tudo Nuno...
também os vi e ouvi...
eu morava no Barreiro...nos anos 80...
essa terra vermelha até ao tutano...
mas onde hoje se passeiam de mais caro Mercedes...
e vestem roupa de "griffe"...
eu sempre o disse e continuo a dizer...só se é comunista...
por pura ignorância e inveja...
Nuno...eu também não lhes perdoo...
gente pequena que em pequeno transformaram o meu país.
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De Nuno Castelo-Branco a 30.12.2008 às 13:06

vermelha até ao tutano... Vejamos quem era o eleitorado naquela altura. Gente que não sabia ler e que acreditava em todo o tipo de superstições. Neste aspecto, muito mal fez a 2ª república em não ter tornado extensivo o ensino obrigatório. Fez mesmo muito mal.
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De mike a 30.12.2008 às 14:25

E gostei de ler, Nuno! Vá se lá saber porquê... ;-)
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De JMB a 30.12.2008 às 20:42

Não sendo ninguém para o poder dizer, mas pela mais pura solidariedade com amigos, uns que já partiram, outros que ainda cá estão, também não esqueço nem perdoo. Acima de tudo, que os palhaços da política não reenventem a história. Costumo ir frequentemente a Gdansk e Sopot (lá ao lado, lindíssimo) de onde quase se vê Königsberg e se percebem os espíritos dos cavaleiros Teutónicos. E é claro que o agnóstico era alemão.
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De Nuno Castelo-Branco a 31.12.2008 às 00:51

Compreendo bem os acasos e os azares decorrentes da guerra e o põe e dispõe ditado pelos Grandes. Contudo - aqui está a parte melindrosa -, julgo que a expulsão em massa dos alemães do leste do Oder-Neisse, consistiu exactamente, na colocação em prática dos planos que tanto criticaram a Hitler. Ao contrário, evidentemente. Já conheci alguns desses expulsos e como nós TAMBÉM fomos expulsos - ao fim de 5 gerações de África -, sei o que sentem. E aquelas terras ficam mesmo perto, ao invés de Moçambique, Angola, etc.
Percebo também o dilema polaco. Foram obrigados a aceitar a envenenada "compensação" que os russos e americanos impuseram. Esperemos que não venha a custar um altíssimo preço. Nunca se sabe.
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De PALAVROSSAVRVS REX a 31.12.2008 às 14:57

Caríssimo Nuno, cristalino e lúcido, como sempre.

Aquele Abraço

joshua

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