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Estórias da História: o Roxo

por Nuno Castelo-Branco, em 16.01.09

 Os posts ontem publicados no Carvalhos do Paraíso e no Combustões, trouxeram-me à memória um encontro ocorrido há talvez quarenta anos. 

 

Fiz a escola primária em Lourenço Marques, na zona da Polana. O estabelecimento tinha o nome do dr. Luís Moreira de Almeida e situava-se na Rua de Nevala,  nas imediações da igreja de Santo António da Polana, cuja arquitectura arrojada não tem ainda paralelo no nosso país. 

 

Durante a Guerra de África, era normal a visita de militares a estabelecimentos de ensino, convivendo com as crianças e jovens, numa campanha que visava "conquistar os corações". As Forças Armadas Portuguesas tinham serviços de acção psico-social que bem conheciam o importante veículo de influência que a miudagem significava. Essas  pacíficas incursões, repercutiam-se em relatos entusiasmados em casa, ajudando a difundir a mensagem. Os jeeps, os uniformes, as "tropas especiais" e se tivéssemos tido sorte, os relatos de façanhas, eram servidos mais tarde à hora do  jantar aos pais sempre atentos ao quotidiano da mufanagem (2).

 

A nossa escola foi visitada uma manhã. À hora do lanche, pelas dez, estacionou um jeep do exército exactamente no meio do grande pátio e um grupo de militares esperara uns minutos pelo toque da sineta do recreio. Nas salas de aula, não havia aluno que não estivesse já impaciente para ir falar com aquele pequeno grupo, porque segundo a professora Ana Cândida (1) nos tinha dito, ..."o Roxo quer conhecer-vos!"

 

Eram tempos em que garotos de nove ou dez anos sabiam perfeitamente os nomes das principais figuras da história de Portugal, entre as quais se destacavam os mais notáveis reis, o Condestável, o Decepado, Vasco da Gama, Álvares Cabral, Afonso e Mouzinho de Albuquerque, D. João de Castro e certamente, os heróis do Ultramar como  Aniceto do Rosário, Honório Barreto ou D. Aleixo Corte-Real.

 

Para nós, os grandes do momento, aqueles de quem ouvíamos falar através do rádio, eram os soldados portugueses. Cruzavam-se connosco nas ruas, sempre rigorosamente uniformizados. Viamo-los nos cafés, cinemas e até na em grandes grupos, na praia do Dragão ou na Costa do Sol. Eram-nos familiares e nos dias de festa como o 10 de Junho, impreterivelmente íamos até à Avenida D. Luís I para assistir ao desfile. Um ou outro tatoo no Desportivo, maravilhava-nos com os exercícios de queda livre, danças de helicópteros, fogos de salva dos Krupp e dos 25 libras. Gostávamos particularmente, das forças especiais. Sobre as forças armadas, pairava o mito,  o gigantismo e a força de um nome: Daniel Roxo. Para todos, ele era como "aqueles do passado", um soldado capaz das mais espantosas proezas.

 

Lá estava ele, no nosso recreio. Simpático e risonho, o Fantasma da Floresta connosco comeu o lanche fornecido pela cantina da Caixa Escolar - uma sanduíche e uma garrafa de Chocol - e passou longos momentos a responder a perguntas da sua interessada assistência. Lembro-me que me sentia simultaneamente ansioso e embaraçado e quando chegou a minha vez, lá deverei ter colocado a pergunta obrigatória, mas que se me varreu da memória. No entanto, jamais esqueci o que "o Roxo" me disse:

 

- Quando fores crescido, já não vais para a guerra, porque nós vamos  ganhar!"

 

Vencer a guerra. Era para nós uma certeza ditada por um passado sem igual. O que seria hoje do Roxo se não tivesse desaparecido em circunstâncias misteriosas?

 

Após mais uns anos, desta vez como "soldado da fortuna", teria vindo para a Metrópole e vivido no anonimato de um pequeno negócio de balcão numa perdida aldeia do interior? 

 

O Estado português alguma vez reconheceria o seu valor, integrando-o numas forças armadas irreconhecíveis? Continuaria a formar novas gerações de "especiais"?

 

Não creio. Se o Roxo fosse vivo, decerto estaria agora em Moçambique, em paz com os seus antigos adversários e talvez, até mais considerado e respeitado por muitos que aqui, em Portugal, convenientemente o esqueceram. A ele e à sua família de mulher preta e filhos mulatos. Um resumo da história de Portugal.

 

Eu conheci o Roxo.

 

 

(1) Ana Cândida Borges Ferreira, uma professora primária de excepcional categoria. 

(2) Mufanas, garotos.

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publicado às 14:04







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