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A Bola Cristal

por Nuno Castelo-Branco, em 21.01.09

 

 

 

Vivemos numa era em que a aparência das coisas se tornou de tal forma despótica no controle das mentes, que a essência das mesmas se desvanece no invisível éter que afinal mantém a própria Vida.

 

Não assisti à cerimónia de posse de Obama, sabendo que se trata de uma cíclica repetição daquela outra, a de 1976 que consagrou o nada enigmático sorriso de Jimmy Carter. Não querendo cometer a desnecessária injustiça de ligar estes dois momentos no tempo e das duas personalidades em causa, creio firmemente na mais absoluta permeabilidade planetária a tudo o que a conquistada hegemonia da cultura americana dita. O corriqueiro acto reveste-se já das solenes e mistificadoras certezas de uma Ascensão aos Céus. O resumo dos telejornais invocam reminiscências da esperança, dae da caridade de antigamente, hoje readaptadas às necessidades impostas pela tendência daquilo que no vocabulário é aceitável. Com o correspondente espectáculo do show-bizz, entramos ao que parece, na fase do propalado healing de um passado muito recente. Vivemos e queremos viver da aparência, dada a manifesta impossibilidade de prevenir ou ditar os acontecimentos. Como Salazar dizia, ..."o que parece, é!..."

 

Desarmante é a candidez da generalizada aceitação da boa nova que até nós chega. Tendo nascido e vivido bastantes anos em África, conheço o significado da palavra paternalismo, bastante bem explicada pelos meus pais que várias vezes a mencionavam, desdenhando de uma ou outra atitude testemunhada. É que este dito paternalismo, parece paradoxalmente servir como justificação envergonhada do próprio racismo, bem enraizado nas mentes e na realidade das nossas modernas sociedades. Assim, Obama surge como um tranquilizador "estás a ver?"  que finalmente põe a contento o desejo de visibilidade exterior, o urgente adormecimento de já seculares clivagens internas, assim como o necessário indicador de "normalização étnica" segundo a também bastante legítima cartilha da maioria. Nada disto é relevante, sabendo-se do destino que a simples passagem do tempo reserva a salvadores, homens providenciais e gurus da "mudança". 

 

O que se torna verdadeiramente insólito é o matraquear mediático de conhecidas figuras comentadeiras dos eventos políticos em questão. As suas doutas sentenças e certezas, são sequiosamente escutadas por uma "massa" opinativa de uns quantos milhares de interessados, levando-os à contabilização de desejos que na prática e em substância, não se afastam muito das listas de presentes glosadas pelas crianças em véspera do Natal. 

 

Sem querer vestir a estrelada roupagem de vidente, não será muito difícil prever o que estes próximos anos reservam à condução da política norte-americana.

 

- O empenhamento militar em zonas sensíveis do globo, continuará a pesar fortemente na hora das grandes decisões. Um verdadeiro Império não pode sobreviver sem uma apertada rede de fornecedores de matérias primas essenciais à perenidade da hegemonia.

 

- Não ocorrerá qualquer tipo de liquidação - como hoje espantosamente ouvi na SIC - do chamado lobby judaico norte-americano. A questão israelita transcende em muito a manipulação em Wall Street, o index cinematográfico de Hollywood ou a sua directa influência no campo da informação. Existem razões geopolíticas que interligadas à questão económica naquela área do globo, tornam muito improvável qualquer modificação do status quo.

 

- A América decerto não corresponderá com o isolacionismo, aos desejos que uma certa franja bem pensante europeia julga essencial ao appeasementque tão funestos resultados a História comprova. Tal alheamento perante um mundo onde a sua preponderância continuará firme durante este século, significaria colocar em risco a própria estabilidade interna nos EUA, onde o free-trade é a pedra angular da própria existência da sociedade tal como ela é idealmente concebida, condicionando todas as outras vertentes, sejam elas culturais ou políticas no seu sentido mais restrito. A dinâmica interna simplesmente não o permite.

 

- Exactamente ao invés daquilo que subrepticiamente e em reserva mental por alguns é esperado, creio verdadeiramente que os ditadores do momento passarão por um período muito difícil, sejam aqueles quem forem ou usem os métodos de afirmação pessoal que usarem. A América tem essa estranha capacidade de fazer crer em consecutivos recomeços, onde uma época de generalizada prosperidade, paz e igualdade depende apenas da simples vontade ou do discurso de um homem bom. Para sempre pulverizada a primazia cultural europeia no mundo, os americanos sabem como ninguém, todos unir num infantil e  colectivo We are the World, apelando ao que de mais básico existe dentro de todos os habitantes da Terra, desde aqueles que a um iglo chamam lar, até aos outros que escutam lendas de feiticeiros  numa sanzala do Okavango. É essa a grandeza dos EUA e disso decerto tomarão nota os Castro, Assad, Chávez, Ahmadinedjad. Por muito inacreditável que pareça a qualquer espírito racional, os EUA, como potência tutelar, adquiriram mediaticamente a conhecida autoridade moral que a sua própria Constituição - magistralmente  redigida pelos "Pais Fundadores" - justifica perante os demais. Exactamente a mesma autoridade moral que permitiu o esbulho do México, a Guerra da Secessão, o ataque relâmpago a Espanha, as manobras para forçar a entrada na I e II Guerras Mundiais, as intervenções na América latina, a imposição da liquidação da presença ultramarina da França, Inglaterra e Portugal, a ocupação do Sudeste Asiático, a queda do Xá - e tudo o que isto significou para o Ocidente - e o actual e previsivelmente longo conflito no Médio Oriente.

 

É esta a minha certeza e nem sequer se torna necessário o recurso à Bola de Cristal das videntes que ciclicamente acompanham os inquilinos da Casa Branca.

 

 

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publicado às 16:23







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