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A propósito de Monarquia...

por Paulo Soska Oliveira, em 31.01.09

... afinal, nem tudo são rosas.

A parte realmente triste é verificar que Guerra Junqueiro se encontra vivo, agora mais que nunca nos últimos 100 anos.

 

Ora vejamos:

 

Somos um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonha, feixes de miséria, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia de um coice, pois que já nem com as orelhas é capaz de sacudir as moscas. [...]“;

temos
“Um clero português, desmoralizado e materialista, liberal e ateu, cujo Vaticano é o ministério do reino, e cujos bispos e abades não são mais que a tradução em eclesiástico do fura-vidas que governa o distrito ou do fura-vidas que administra o concelho [...]“;

“Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo [...]“;

“Um exército que importa em 6.000 contos, não valendo 60 réis [...]“;

“Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo [...]“;

“A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer dela um saca-rolhas”;

“Dois partidos monárquicos, sem ideias, sem planos, sem convicções [...]“;

“Um partido republicano, quase circunscrito a Lisboa, avolumando ou diminuindo segundo os erros da monarquia, hoje aparentemente forte e numeroso, amanhã exaurido e letárgico [...]“;

“Instrução miserável, marinha mercante nula, indústria infantil, agricultura rudimentar”,

“Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do parasitismo de si próprio”;

“Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante, o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários”;

“Uma literatura iconoclasta, – meia dúzia de homens que, no verso e no romance, no panfleto e na história, haviam desmoronado a cambaleante cenografia azul e branca da burguesia de 52 [...]“;

“E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares [...] teremos em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa no tempo da morte de D. Luís, cujo reinado de paz podre vem dia a dia supurando em gangrenamentos terciários.”

GUERRA JUNQUEIRO 1886
 

 

Nada tenho contra a Monarquia, nem contra a República - apenas e só contra o pântano a que este (bem... esse aí) chegou.

[e ainda bem que não somos todos monárquicos aqui no blog]

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publicado às 14:19


7 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 31.01.2009 às 14:56

Como se o conhecido "vigarista" Guerra Junqueiro, fosse uma fonte fidedigna. É preciso atender à péssima mentalidade negacionista da época, à vertiginosa propaganda de quem não conseguia ver afinal, a verdadeira mudança que se operara em Portugal. Mera propaganda que pelos vistos, ainda vinga.
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De Paulo Soska Oliveira a 31.01.2009 às 15:39

Caro Nuno,

O meu objectivo foi somente o de traçar paralelismos entre o passado e o presente.
O escrito por GJ em 1886 e a situação presente é de tal forma similar que até assusta.
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De Cristina Ribeiro a 31.01.2009 às 15:46

Por isso é que precisamos " voar ", Paulo.Mudar de vida...
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De Nuno Castelo-Branco a 31.01.2009 às 21:39

Muito a propósito e sem qualquer tipo de acrimónia, o caso polaco até é um bom exemplo. Na prática, foi uma república onde o cargo era vitalício, com um Chefe do estado "rei". Sabemos como o processo vivia, sempre à mercê dos interesses dos mais poderoso. nada de muito diferente de outras repúblicas, estas ditas "formais". O problema consistia num sem fim de rivalidades e arrisco-me a dizer que J. Sobieski poderia ter sido uma excepção, se a "constituição" do país tivesse enveredado pelo caminho da hereditariedade. Até o infante D. Manuel estev para ser rei da Polónia e se não o foi, isso deveu-se em primeiro lugar, ao desinteresse do Estado português em envolver-se com os problemas continentais. Assim, a coroa foi sendo assumida pelos saxões ou por este ou aquele favorito da Rússia (Poniatowski), França (leczinsky), evidentemente sempre sob o atento controle de Viena e Berlim (os reis saxões). Viu-se como acabou. O facto de ter paulatinamente perdido terra s habitadas por não polacos - a maioria -, até pode ser encarado com normalidade. O problema chegou quando a própria Polónia desapareceu. A Polónia dos polacos, claro.
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De Joana a 31.01.2009 às 15:10

Até o Raul Brandão, nas suas "Memórias", rezava assim: «NÃO foram os seus defeitos que o mataram, foram as suas qualidades. Só o assassinaram quando ele tomou a sério o seu papel de reinar.»
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De Cristina Ribeiro a 31.01.2009 às 23:18

E não esquecer que o autor de « Finis Patriae » foi um dos grandes desiludidos da República!
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De Sónia Justo a 03.02.2009 às 00:20

S calhar vou aí à Polónia ainda este mês!

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