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A regionalização espanholada, ou os novos duques de Alba

por Nuno Castelo-Branco, em 09.02.09

 

Há uns dias, assisti a uma entrevista realizada pela SIC, na qual o senhor Vara, presidente da Junta Autónoma da Extremadura dissertou longamente acerca das delícias do entendimento e compreensão ibéricos. 

 

A questão da regionalização fará o costumeiro e cíclico regresso aos noticiários, sempre que se avizinham eleições nacionais, servindo como móbil de propaganda e chamariz ao voto nos seus hipotéticos promotores. A última consulta referendária, indiciou uma forte desconfiança popular relativa a um tema cuja urgência,  não se coloca de forma concreta na vida de populações interessadas antes de tudo, na solvência dos problemas  do restrito núcleo familiar. A suspeita desta realização se tratar apenas de um mero artifício para a criação de mais clientelismos e interdependências nos jogos do poder, ditou a vitória do Não. E assim deverá continuar a ser, apesar dos protestos sempre exaltantes de um apregoado progresso dos tempos.

 

O presidente da Junta da Extremadura chegou a Portugal com uma nova melodia do habitual canto da sereia. Desta forma, perorou longamente acerca da inevitável aproximação inter-regional e dos interesses transfronteiriços, subrepticiamente deixando a mensagem do pouco interesse futuro que o poder central significará para as populações mais afastadas geograficamente. Já em tempos idos, o senhor Fraga Iribarne usou argumentos idênticos, para explanar  acerca da similitude existente entre o norte de Portugal e a Galiza que na sua lógica, pouco terão em comum com zonas como Lisboa, as Beiras ou o Algarve. O extremenho vai mais longe e exactamente ao invés daquilo que verificamos no presente, fala de uma Europa de regiões, desligada das antigas capitais nacionais. Não nos importa adivinhar as consequências de tal prestidigitação política além Pirenéus, mas sim aquilo que é verdadeiramente pretendido e está em latente reserva mental nos responsáveis do lado de lá da fronteira.  Querem resolver o seu probblema de meio milénio à nossa custa, apresentando-nos como o exemplo da inevitabilidade do bloco ibérico. Se existem nove países que falem o português nas Nações Unidas, isso pouco importa. Se perdermos representação diplomática em todas as capitais do mundo, tal será um factor perfeitamente dispensável. Se o português será abastardado por um novo programa de ensino concebido por gente que não nos entende, o facto consiste num mero detalhe sem importância. Se a nossa história - e isto já se verifica nos manuais espanhóis acerca dos Descobrimentos - for relegada à indigência, tudo normal. Pouco interessa a existência de escritórios centrais de representação de empresas internacionais em Portugal, uma vez que para isso serve a alegada racionalização de meios no centro peninsular, quer dizer, Madrid.

 

A liquidação de Portugal como Estado unitário, a execução do projecto de conúbio entre Alentejo (por exemplo) e a sedenta Extremadura ex-castelhana, não pode ser considerado como um isolado caso de megalomania local, uma vez que este tipo de argumentação tem sido alternadamente utilizado por todos os responsáveis das regiões espanholas que concomitam conosco. Contam com a progressiva desertificação do interior português - o desordenamento territorial contra o qual, homens como Ribeiro Telles vem alertando há décadas - e com o poder de atracção de polos como Badajoz, sem rival no lado português. O caso da zona do Alqueva é típico e não nos espantará se num futuro não muito distante, o caudal das águas passar a servir de argumento persuasor para constantes cedências naquilo que verdadeiramente importa. Como se não bastasse já o tremendo e ruinoso peso da presença da economia espanhola em Portugal, deixando-nos à mercê das crises internas, do seu sempre elevado índice de desemprego e das péssimas políticas de desenvolvimento prosseguidas nos últimos anos que em abono da verdade, têm sido seguidas e obedientemente copiadas pelos sucessivos governos de Lisboa, desde os tempos de González até Aznar e ao já comprovado balão de vento Zapatero.

 

Dizia o governante espanhol, que mais importante que nos entendermos - claro, eles não fazem qualquer esforço para aprender a nossa língua, contando sempre com a nossa abertura e boa vontade interesseira - será compreendermo-nos. O que quer o senhor dos confins do antigo Al-Andalus dizer com isso? Durante toda a entrevista polvilhada de lugares comuns amansadores dos ânimos que previsivelmente são voláteis em Portugal, jamais conseguimos vislumbrar quais as verdadeiras vantagens desse estilhaçar da unidade nacional portuguesa e pelo contrário, compreende-se a verdadeira intenção da construção  de polos de atracção centrípeta que desconjuntem o já frágil equilíbrio e coesão aquém-fronteiras. Tivemos Fraga e a Galiza e hoje, é pela voz do senhor  Vara  da Extremadura, que chega até nós essa regionalização à força, encapotada sob a atraente roupagem de racionalização de recursos e funcionalidade de áreas mais vastas sob o prisma regional. 

 

São estes agentes da generosidade local, quem de forma mais perfeita procura influenciar os incautos ouvintes portugueses, na prossecução de um plano velho de séculos que neste tempo de discórdias e de migalhas de um passado recente de relativa abundância, jamais deixou de estar presente na mente de certos mentores mais ou menos intelectualizados da centralizadora Madrid. Aqui temos a versão moderna de D. Álvaro de Toledo, aquele Duque de Alba que conquistou Lisboa e foi vice-rei de Portugal. Decerto com o anacrónico bater de palmas do senhor Saramago.

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publicado às 11:07


13 comentários

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De CMF a 09.02.2009 às 15:09

"claro, eles não fazem qualquer esforço para aprender a nossa língua, contando sempre com a nossa abertura e boa vontade interesseira"
Entender língua alheia não é sempre uma questão de vontade. Há que ser capaz. Tem a ver com dicção e ouvido. O Nuno pode até conseguir entender muito bem o castelhano polido de Zaragoza ou Valladolid, mas desafio-o a ouvir a mais banal conversa com sotaque andaluz e a contar-me metade da história. E a verdade é que em Lisboa, só para dar um exemplo, estamos longe de falar um português exemplar. Quando se "comem" letras e até vogais, é difícil fazermo-nos entender, mesmo aos que têm uma língua próxima. E eu que o diga, que no início passei aqui um mau bocado para saber o que se passava à minha volta. Senti-me como um espanhol no meio de diálogos em português amputado. Se a isto somarmos uma menor predisposição física para apreender certos sons, por parte dos falantes de castelhano, então é muito forçado dizer que e tudo uma "questão de vontade".
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De Nuno Castelo-Branco a 09.02.2009 às 18:55

CMF, não leve tudo tão à letra. Sei que compreende melhor que ninguém o que estou para aqui a dizer. Acredite que sou AMIGO da Espanha e naquela gente, encontro imensas qualidades, algumas das quais nos fazem falta. No entanto, não estraguemos tudo com loucuras...
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De CMF a 09.02.2009 às 19:24

Ok, ok! É que cristalizou este lugar comum de se dizer "não fazem esforço", quando há, principalmente, um problema de "som" e amplitude de ouvido. Na leitura, por exemplo, a questão já não se põe. Tenho por aqui amigos que, por exemplo, lêem o meu blogue, compreendendo 90% do texto e do seu sentido.
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De Nuno Castelo-Branco a 09.02.2009 às 19:27

Claro que sim, CMF e ainda por cima, tenho a forte suspeita de que o castelhano é mais parecido com o português que com o catalão. O que lhe parece?
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De CMF a 09.02.2009 às 19:32

É complicado. Creio que sim, que o castelhano é mais semelhante ao português. Mas por outro lado, quando ouço catalão, há certas partes do discurso em que me parece estar a ouvir um português arcaico. Para ler, já é mais complicado (mas não tanto, porque os portugueses, muitos, têm formação em francês, o que também ajuda). Há uma uma série de elos entre as diversas línguas ibéricas (excepto com o basco, claro).
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De Nuno Castelo-Branco a 09.02.2009 às 19:41

ehehehehe, adorava que um catalão lesse o que o CMF escreveu, acerca do "português arcaico". Desatei logo a rir e a imaginar a careca vermelhusca de raiva do señor Rovira!
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De CMF a 09.02.2009 às 19:47

Ui, não lhes diga nada, porque eles nos últimos anos andam ainda mais inflamados. Mas é engraçado: muito amor ao catalão, tudo o que é público tem que estar em catalão (claro que umas coisinhas em inglês não faz mal nenhum, especialmente em Barcelona, tudo em nome do cosmopolitismo), mas depois cruzarmo-nos com alguém em Barcelona, por exemplo, que fale catalão, é mais difícil do que encontrar uma agulha num palheiro. Sempre ouvi mais galego na Galiza do que catalão na Catalunha (também é verdade que na Galiza andei afastado das grandes cidades, e na Catalunha conheço muito bem Barcelona e muito mal o resto).
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De Nuno Castelo-Branco a 09.02.2009 às 22:10

Pois é e tudo muda quando se trata de falar em DINHEIRO. Os catalães deviam perceber (os da ERC, claro...) que não podem prescindir do mercado interno espanhol. Lembra-se do que se passou quando do boicote ao Cava, há um ano? As vendas desceram radicalmente. É que os castelhanos sabem como fazer as coisas e bem podíamos aprender com eles!
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De CMF a 12.02.2009 às 09:06

E acho que o problema da (falta de) água, no ano passado, também fez muita gente pensar melhor. Depois de anos a "refilar", dizendo que não queriam partilhar a água da Catalunha, foram precisar dela, e muito. E como em Saragoza também estavam com problemas, fecharam a torneira do Ebro. Uma chatice...
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De camaradita a 09.02.2009 às 16:22

O meu aplauso ao seu post. Sempre, os que se habituaram a mamar no nosso Estado/Nação, se disponibilizam para retalhar Portugal, quais Cristóvãos de Moura. O povo português dar-lhes-á pronta resposta. Os nossos regionalistas estão a pisar o risco vermelho e não tarda teremos de os tratar de traidores e pessoas não gratas na nossa "casa", independente há quase 900 anos.

Cumprimentos
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De Nuno Castelo-Branco a 09.02.2009 às 18:59

Camaradita:

Quanto á questão dos traidores, estamos falados e nem sequer se restringe a maluquices saramágicas e afins. A coisa começou há muito, muito tempo e mesmo na questão CEE, existem pontos a discutir. por exemplo, a forma ad hoc como aderimos a uma entidade económica, não acautelando minimamente o interesse nacional. Por aí, temos pano para mangas. ao pé disso, a "questão espanhola" e um mero detalhe, até porque temos muitíssimo mais proximidades com eles, que com a gente do norte da Europa. Aliados e cooperantes, sim. Anexados provincianos de ocasião, não.
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De Nuno Castelo-Branco a 09.02.2009 às 19:30

... proximidades..., enfim, queria dizer afinidades.

Dizia também ... a "questão espanhola" é um mero detalhe (e não ... a "questão espanhola" e um mero detalhe...)

Nunca olho duas vezes para os textos e passo por cada vergonha!
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De Cristina Ribeiro a 10.02.2009 às 18:37

Só agora pude ler este texto. Magnífico, Nuno. Como nos habituou.

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