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Nabos e tempestades

por Samuel de Paiva Pires, em 11.02.09

Pedro Arroja no Portugal Contemporâneo:

 

Os dados do emprego são conhecidos com tanta rapidez nos EUA porque eles representam uma estimativa do número de desempregados no mês anterior. Conhecer o número exacto de desempregados - contar cabeças - demora meses. Porém, os métodos de inferência estatística e as técnicas de amostragem estão de tal modo desenvolvidas, que a estimativa nunca difere significativamente daquele que virá a revelar-se o número exacto.

Então, e o INE não tem economistas e estaticistas para fazer estimativas? Claro que tem. Só que as estimativas, se existirem, ficam lá dentro e não saem cá para fora. Para os portugueses, com a sua obsessão pelo pormenor e pelo detalhe, os números que vierem a ser publicados têm de ser os números exactos e definitivos, obrigando a contar cabeças (*) e à demora inevitável deste processo. A consequência é que, enquanto nos EUA, a prontidão das estatísticas faz delas instrumentos privilegiados para a tomada de decisões, em Portugal elas não servem para nada - são peças de história económica.

Trata-se, obviamente, de mais uma manifestação da nossa cultura relativamente à cultura anglo-saxónica em tudo aquilo que diz respeito à esfera pública. A preocupação da cultura portuguesa com o detalhe, o pormenor, a perfeição, a exactidão irrelevante, tornando os portugueses excelentes, às vezes exímios, em tudo quanto o que se refere à esfera privada da sua vida, torna-os, aos mesmo tempo, literalmente, uma cambada de nabos em tudo o que concerne a esfera pública.

Este traço cultural dos portugueses tem pesadas consequências sociais. É como se os portugueses tivessem todos agachados no meio de um campo, em volta de um formiga, a discutirem uns com os outros, a côr dos olhos da formiga, o tamanho das suas patas, a sua forma de caminhar, ao mesmo tempo que, enquanto o fazem, mas sem nunca darem por isso, uma camada de nuvens negras se vai colocando sobre eles. Até ao momento em que a tempestade lhes cai em cima com toda a força, sem que eles tivessem dado por ela.

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publicado às 17:40


2 comentários

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De Diogo a 11.02.2009 às 18:47

É isso mesmo. É o povo (nós) que mais sofre neste Portugal socialista. Estranho...ou talvez não!
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De Diogo a 11.02.2009 às 18:50

Afinal o nabo sou eu. O comentário acima era sobre o post...abaixo.

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