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Ainda o debate de ontem do Prós e Contras

por Samuel de Paiva Pires, em 17.02.09

Caiu por terra o meu argumento de que o Eduardo Nogueira Pinto seria demasiado educado apenas por ser filho do Professor Jaime Nogueira Pinto, numa espécie de arcaísmo da minha parte que consideraria existir um qualquer nexo causal no facto de se ser filho de grandes professores da nossa praça pública e ser cordial (e era nesse sentido que eu falei de má educação, no sentido da falta de respeito pelos outros e falta de cordialidade no trato), arcaísmo esse talvez originado pela irritação que me assolou ontem à noite, até porque imensos casos conheço de pessoas que não saem aos seus, ou que degeneram, sendo filhos não necessariamente de professores de reconhecido mérito. É que só à posteriori, devidamente alertado pelo João Pedro, vim a saber que a constitucionalista Isabel Moreira é filha do Professor Adriano Moreira, de quem tive a oportunidade de ainda recentemente ver entregar o prémio com o seu nome ao melhor aluno de RI do ISCSP no ano lectivo transacto, um amigo meu e que até já colaborou no ES, Professor a cujos ensinamentos constantemente recorro para os meus estudos e trabalhos e cujo legado teórico constitui um importantíssimo historial do ISCSP e do país.

 

Há quanto a este debate algumas coisas que me fazem confusão. A primeira são pessoas que se acham moralmente superiores e que advogam os valores da tolerância, sendo das pessoas mais intolerantes que se vêem por aí, de quem a arrogância é a característica mais visível.

 

A segunda é precisamente o facto da forma ser muitas vezes bem mais importante que a substância, logo, da próxima vez que discutirem este tipo de temas, escolham pessoas que os representem e deixem lá de promover certos bloquinhos, pessoas que escrevem mal do programa mas que depois vão lá na semana seguinte ou pessoas que se pautam pelas características que referi acima, pois isso só ajuda a descer o nível e qualidade do debate. Mas já o Pedro Arroja tinha referido esse mal de que padece o debate público em Portugal, tendo ele próprio declinado o convite para participar no programa.

 

A terceira, serei só eu que reparei que a RTP escolheu colocar as pessoas de esquerda de um lado, e a direita mais ligada à Igreja de outro? Não é por nada, mas eu sendo para mim próprio espiritual e considerando-me crente mas não necessariamente um católico praticante, sendo um liberal-conservador de direita, onde é que me posso enquadrar em tais espartilhos redutores se a mim me é completamente indiferente que os homossexuais casem ou não?  Chamem-lhe casamento civil ou seja lá o que for (Vrnhac como diziam os Gato Fedorento, por exemplo), agora, a Igreja não devia sequer ser chamada para este debate, e é muito simples, na acepção liberal a Igreja é um grupo social como outro qualquer, logo tem o direito a ser completamente autónoma, de se manifestar, de ter as suas regras e a sua doutrina. Se a sua doutrina diz que o casamento é uma instituição a ser praticada apenas entre um homem e uma mulher, é a sua posição, quer se goste ou não, ponto final. Aliás, todos conhecemos casos em que os Padres se recusam a casar um homem e uma mulher quando pelo menos uma das partes não fez a 1.ª comunhão. Quero ver depois é quantos Padres vão casar homossexuais.

 

Colocar este debate como sendo um debate entre certa esquerda e certa direita é um erro logo à partida, esta questão não pode padecer de uma ideologização, ou pelo menos não devia. É que sendo assim, qual é a lógica do debate? Apenas uma: afrontar mais uma vez a Igreja em nome da crendice no laicismo que é tão ou mais fanático e religioso que qualquer outro fanatismo religioso (ler John Gray, A Morte da Utopia), aquela mesma instituição com que muita gente tem tentado acabar ou reduzir, gente essa que na sua maioria despreza a Igreja mas que agora vem reclamar um direito perante essa!!!!!!! Mas isto faz algum sentido? Aparentemente nas cabecinhas de muita gente faz, a mim cheira-me apenas a embirração e mesquinhez. Mas assim sendo, então este post de João Luís Pinto é de uma ironia mordaz e deliciosa:


Em vésperas de centenário da implantação da república, república essa responsável pelo estabelecimento do casamento civil e que retirou esse casamento da esfera exclusiva religiosa para a esfera do estado (conquista que muito propagandiou), fico contente em saber que muitos dos seus responsáveis terão hoje dado grandes voltas no túmulo.

 

Vale ainda a pena ler alguns posts:

 

Algumas notas esparsas sobre o Prós e Contras de ontem, Francisco Mendes da Silva.

 

Estando eu do lado do sim, Afonso Azevedo Neves.

 

Será que fui o único? Nuno Gouveia.

 

Os pontos altos da noite, João Luís Pinto.

 

Enquanto ainda nos conseguimos ouvir, João Luís Pinto.

 

Ora pró, ora contra, João Carvalho.


A guerra ao amor, O Corcunda.

 

A sessão de esclarecimento da D. Fátima, João Gonçalves.

 

 

Quanto ao que realmente interessa ao país, continuamos com a cabeça nas nuvens. Agora vem aí o debate sobre a eutanásia, é já na próxima quinta-feira no programa "Aqui e Agora" da SIC. Pronto, andem lá com isso, mas decidam-se, ou acentuamos a dissonância cognitiva e o autismo e nos dedicamos a discutir as "questões fracturantes" , termo horrível mas que até espelha aquilo que essas discussões provocam, isto é, uma completa desunião da nação, mas por favor, façam programas decentes e que elevem a qualidade do debate (é que entretanto o Prós e Contras parece ter evoluído de um programa de informação para um programa de entretenimento, nada que Bourdieu não tenha previsto há uns anos no que ao jornalismo em geral diz respeito), ou alguém com bom senso se decida a tomar as rédeas do que é realmente prioritário para o país, que passa desde logo por uma maior união da nação, antes que a tempestade lhes caia em cima sem que dela se tenham sequer apercebido.  Entretanto, será que vale a pena pedir desculpa pela interrupção e será ainda pedir muito que o país real continue dentro de momentos?

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publicado às 16:54


5 comentários

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De Lady-Bird a 17.02.2009 às 18:41

Olá Samuel! é só para dizer que a Isabel Moreira salta à vista lá na Faculdade... pela tatuagem que traz pela perna fora...lol e ontem a plateia do lado do "sim" tinha pelo menos três meninos lá da FDL que pertencem à JS...
Está-me a cheirar que Isabel é uma espécie de Marta Rebelo... outra grande pérola lá da Faculdade que foi expulsa e este ano voltou para fazer mais do mesmo...assim se vê a força do PS...

Beijinho

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De Joel Galvão a 17.02.2009 às 19:30

Leio todos os dias sem comentar. Já vai sendo tempo de dar o meu contributo para um blogue que é, para mim, uma referência.

Não percebo o comentário sobre os meninos da FDL que pertencem à JS. Trata-se de uma situação perfeitamente natural, se tiver em conta que a JS foi das primeiras instituições políticas a defender, em praça pública, o casamento homossexual. Daí se explica que, para além de meninos da FDL, estavam lá meninos e meninas do ISCSP, da FCSH, do ISCTE, da Lusófona, entre outros estabelecimentos de ensino superior. Eu próprio não estava, porque o Mestrado não me tem permitido ter vida para além do Trabalho.

Samuel: Mas quem é que te disse que os homossexuais pretendem casar numa igreja? Que eu saiba, a sua luta prende-se apenas com a liberdade de duas pessoas, que nutrem sentimentos uma pela outra, em oficializar a sua união, com todos os direitos inerentes ao contrato civil que apelidamos de casamento. Se estamos a falar de liberdade, duvido que sejas verdadeiramente indiferente.

Concordo, no geral, em relação à inutilidade do debate. Aliás, sendo eu um acérrimo defensor da laicidade do Estado, resolvia a questão com um mero decreto-lei, aprovado por maioria simples na Assembleia da República. Mas isto sou eu que não gosto de complicar.

Quanto à eutanásia, ninguém obriga a nada. Tal como na Despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, estamos a falar da liberdade em cada um decidir o seu rumo.

Não obstante, esta liberdade de cada um decidir o seu rumo, implica a sua quota (no meu entender grande) de responsabilidade pelos actos que pratica. Daí decorre que sobre esta tema haja algum sentido em existir debate.
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De Samuel de Paiva Pires a 17.02.2009 às 23:29

Sê bem aparecido amigo Joel, "mi casa es su casa" :)

Em primeiro lugar agradecer-te a simpática deferência.

Em relação ao debate, ninguém me disse que os homossexuais querem casar necessariamente pela Igreja, mas foi apenas isso que transpareceu do debate de ontem, até de um representante de um grupo de católicos homossexuais. E isto para mim é pegar pela questão precisamente pelo ponto de vista errado. Quanto ao resto, conhecendo-me como conheces sabes que estou perfeitamente de acordo contigo, e também eu já teria resolvido a questão sem grande celeuma, mas não te esqueças que foi o próprio José Sócrates e a disciplina partidária do PS que o impediram há 2 meses atrás.

Concordo perfeitamente que se faça o debate, só não concordo com a forma que leva mais à desinformação e a debater o acessório e superficial, mas isso é característica nata do debate público no nosso país.

Agora, só acho que há coisas bem mais importantes a tratar, mas, mais uma vez, os portugueses adoram o acessório...

Um grande abraço
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De Lady-Bird a 18.02.2009 às 15:36

Caro Joel, vai-me perdoar, mas deixe-lhe que lhe diga, que se for preciso metade dos tais meninos que segue os "chefes políticos" em comícios e programas de tv como cachorros atrás do dono não têm opinião formada sobre o assunto... acontece em todas as Juventudes e acho degradante...bebem as palavras dos outros e não têm opinião própria, é só isso...

Enfim...o mundo está perdido!

Beijinho
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De Samuel de Paiva Pires a 17.02.2009 às 23:22

LOL já tou a ver o estilo amiga Lady Bird :)
Olhe que falando em JS eles andam aqui, como por exemplo o meu amigo Joel!

Beijinho

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