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O Corno do almoço

por Nuno Castelo-Branco, em 22.02.09

 

O Domingo é geralmente reservado para o almoço em casa dos meus pais, ficando a tarde para um passeio nos mercados de velharias ou longas conversas na sala. Há sempre alguém que aparece para o lanche, cumprindo-se assim uma rotina que connosco veio de Moçambique.

 

Dias há em que a política é o sacramental motivo para furibundas discussões, confirmando fidelidades partidárias, dissecando-se as notícias do momento ou conjecturando acerca daquilo que um preocupante futuro nos reserva. No entanto, hoje foi uma daquelas tardes de recordações de momentos, onde o insólito e o pitoresco oferecido por um certo tipo de gente habituada a outros costumes, chocou uma vizinhança habituada a bons dias sem resposta audível, mas com curtos e enigmáticos assentimentos cranianos ou a meios sorrisos que denotavam um protocolar frete ou a aborrecida europeia e lusitana timidez.

 

O meu pai falou-me naquele grande corno de cudo, hoje pendurado na varanda da casa em Caxias. Espécime de espantosa beleza e robustez, o cudo era um dos alvos favoritos desta subespécie de caçadores-recolectores tardios que de espingarda em riste, procuravam regressar a casa com estórias de suspeitos heroísmos numa selva controlada a ponto de mira e cartuchos de caça grossa. Enfim, sei que aquele corno de cudo sempre esteve lá em casa e faz parte do património familiar. 

 

Relembrando o uso que o Miguel e eu lhe dávamos em África, fazíamos dele trombeta de guerra, nas nossas brincadeiras de cruzados à conquista de Lisboa ou de peões de Aljubarrota. Quantos arranhões, nódoas negras ou contusões, mercê de confrontos com amigos que ao fim de dez minutos se tornavam pela força da adrenalina, em ferozes e momentaneamente implacáveis adversários. O corno do cudo era uma preciosidade que soava para dar instruções ou como simples som de alerta.

 

Pois bem, o meu pai trouxe como curiosidade da nossa adolescência, um episódio que de tanto ser repetido se banalizou, levando a minha prodigiosa memória  - modéstia à parte -, a olvidá-lo.

 

De facto, andava ele a preparar com o seu amigo dr. João Soares - esse mesmo que todos conhecemos - a reedição das Memórias de Bulhão Pato e invariavelmente, marcavam as reuniões de trabalho em casa do dirigente socialista. Vivíamos a uns dois centos de metros, mas do lado exactamente oposto do parque, tendo a piscina municipal do jardim do Campo Grande, interpondo-se entre as residências. Chegando a hora do almoço, a minha mãe convocava o meu irmão e pedia-lhe para chamar o nosso pai. Lá ia o Miguel para a varanda do 4º andar e com o corno fazia atroar nos ares o velho chamamento africano, pelo que o pai lá regressava a casa para o repasto. Isto, para grande espanto dos vizinhos e gáudio dos nossos amigos. Outros tempos, nos anos oitenta, quando o telemóvel ainda fazia parte da ficção científica. Garanto-vos  que o som é impressionante, potente e estranho, mas bem digno da imagem que retemos dos filmes de Cecil B. DeMille. E creiam-me que era audível a muito considerável distância, pois cheguei a escutá-lo um dia, quando sentado na escadaria da faculdade de letras, expliquei a embasbacados colegas, a razão do meu repentino riso.

 

E hoje lá o experimentei outra vez, soprando o corno com força e voltando por breves momentos a um outro tempo e ao inconfundível som que afinal posso fazer soar sempre que me apetecer. 

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publicado às 20:14


9 comentários

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De Anónimo a 23.02.2009 às 10:45

Como também acompanho o Combustões praticamente desde o início, sente-se a ternura com que falam da vossa família e generosamente partilham connosco bocados da vossa vida. De facto tenho alguns amigos que nasceram em África e hoje vivem em Portugal, mas a sua postura é diferente: são abertos ao convívio e à partilha e menos preconceituosos. Nós fomos educados com mais cautelas, avisos e fomentando o individualismozinho do interesse familiar, de classe ou grupo, seja ele qual for. Portugal educou e educa mal os seus filhos...
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De Cristina Ribeiro a 23.02.2009 às 11:34

:) Que maravilha, Nuno!...
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De Nuno Castelo-Branco a 23.02.2009 às 13:22

E as partidas que nós os dois pregávamos? Algumas, é melhor nem as contar, ehehehehehehe. Éramos péssimos!
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De Anónimo a 23.02.2009 às 14:22

Talvez fosse interessante e para desauviar de tudo o resto ( desanuviar mas não desarmar ), promover um campeonato de maldades das nossas infâncias e juventude. Só poderíamos apresentar 1 maldade a concurso e por isso terámos que escolher a pior de entre as piores. Será que o Estado Sentido se abalança em infantilidades?
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De Nuno Castelo-Branco a 23.02.2009 às 14:55

é a m inha forma de estar na vida, ehehehehehe e pago por isso!
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De Anónimo a 23.02.2009 às 15:27

Ofereço-lhe este poema, não sei se oconhece.



Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende...
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser!

Miguel Torga

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De Nuno Castelo-Branco a 23.02.2009 às 15:53

Bem, sou então seguidor desse conselho e até o computador permite brincar. Gosto de jogos de estratégia, por exemplo. Também gostava muito de modelismo, mas infelizmente ocupa muito tempo e já não tenho espaço para tantos tanques! :)

Obrigado pela dedicatória.
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De Anónimo a 23.02.2009 às 16:42

Para terminar vou-lhe contar uma coisa que me aconteceu este ano quando passava férias na praia e fomos comer 1 frango delicioso (garanto-lhe que tenho pena dos frangos que matamos) no Ramirez, na Guia. Depois de jantar o meu neto Gabriel veio para perto de mim com os seus bonecos bélicos e respectivos meios de transporte. Pois não é que comecei a brincar com ele fazendo guerras e explosões e me diverti com isso... Só no final, ao olhar para as pessoas da mesa ao lado, me dei conta do serviço recreativo que prestei, à borla e sem dar por isso. Eu que há muito deixei de brincar, nesse dia, por qualquer razão brinquei com uma criança de 6 anos em pé de igualdade.
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De Nuno Castelo-Branco a 23.02.2009 às 18:08

Pois então, não se meta a comprar jogos de computador, porque senão é o fim, não larga a coisa.

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