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Retórica democrática de algibeira

por Samuel de Paiva Pires, em 01.03.09

 

(fotografia por Pedro Azevedo picada daqui)

 

Esta fotografia que no ABC do PPM tinha como título "Não é Alegre", tem uma outra característica a meu ver bem mais interessante: a citação de Jorge Sampaio. Diz o ex-Presidente da República que "A Democracia e o PS são indissociáveis. Até os nossos adversários o sabem mesmo quando pretendem esquecê-lo".

 

Isto é de uma perigosidade atroz. Claro que todos temos conhecimento do importantíssimo papel desempenhado pelo Partido Socialista na transição democrática em Portugal. Mas tomemos em particular atenção os últimos 14, quase 15 anos de governação em Portugal. Como aponta Nuno Gouveia, Desde 1995 o PS apenas não esteve no poder durante três anos. Mas ainda querem que os portugueses acreditem que o PS é a força da mudança.

 

Ora se assim poderemos retirar uma conclusão lógica considerando o passado recente: O PS é indissociável da má qualidade e degenerescência cada vez mais visível da democracia portuguesa. Ainda assim, parece haver um enorme autismo (nunca me canso de repetir isto, desculpem lá bater no ceguinho) entre os dirigentes socialistas. Tenho no entanto dúvidas se esse autismo será verdadeiramente patológico ou intencional, mas o que é certo é que José Sócrates tem vindo a clamar pelo alegado resgate da democracia portuguesa, enquanto é genericamente sabido que a retórica de legitimação do PS passa muito pelo velhinho argumento da luta anti-fascista e pelo papel na transição democrática.

 

Dizia eu que isto é de uma perigosidade atroz porque a democracia não pode ser de ninguém e tem de ser de todos. Não pode ser apenas de um partido, e talvez seja por isso que os adversários do PS tentam esquecer esse argumento que é, diga-se de passagem, cada vez mais revelador de um certo mau gosto da retórica socialista.

 

Este argumento tem permitido gigantescas operações de engenharia social, já para não falar de fenómenos como o aumento da corrupção e o descrédito acentuado no sistema de justiça que não têm solução à vista. Tudo porque o PS é o "dono" da democracia em Portugal, e por isso tudo pode fazer porque é sempre em nome da democracia, mesmo que na prática a sua governação seja responsável precisamente pela degenerescência dessa e representativa de uma certa intromisão na esfera privada dos cidadãos e repressão de pensamentos divergentes nas esferas pública, política e partidária, elementos que correspondem à liberdade de expressão, característica central de qualquer democracia que se possa orgulhar de ser portadora do epíteto de liberal.

 

Estamos cada vez mais reféns dos que se dizem "democratas" quando na prática o são muito menos do que muitos daqueles que acusam de ser "fássistas", "comunas" (sim porque a maior parte dos que se dizem comunistas nem sequer leram qualquer dos seus alegados "ídolos" e só têm uma visão distorcida da história, não sabendo por isso que a prática real do comunismo é incompatível com o conceito de democracia), "neo-liberais" ou outros quejandos epítetos. Isto é demasiado perigoso, é o que tem permitido que a democracia electiva, iliberal e/ou de cariz autoritário tenha vindo a conquistar diversos países, veja-se o caso da democracia populista venezuelana.

 

E sendo assim, concluo apenas com uma frase do Henrique Burnay:

 

Falar em nome da defesa da Democracia porque dá jeito é o que põe em causa a Democracia. Mas, claro, nada disto é para levar a sério.

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publicado às 17:25


6 comentários

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De Daniel João Santos a 01.03.2009 às 19:26

Para alem de detentores da democracia, afirma que não recebem lições de democracia de ninguém.

Preocupante esta cegueira socialista.
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De Samuel de Paiva Pires a 01.03.2009 às 21:58

Pois, nem sequer me lembrei dessas famosas tiradas socialistas. Preocupante, no mínimo!
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De Anónimo a 01.03.2009 às 22:04

Caro Samuel,

Quando olhamos à nossa volta e nos perguntamo sobre o que vemos não podemos deixar de verificar a decadência instalada em Portugal! Essa decadência origina-se num sistema democrático débil, baseado em interesses sectários e onde os partidos já pouco dizem no sentido em que não representam hoje o País real. O PS tenta confundir-se com uma imagem da democracia que não é sua.

Arriscaria ainda mais dizer que, pudendo ter sido importante na transição democrática, não foi sequer o mais importante dos partidos. O então PPD, por exemplo, foi-o em maior extensão: teve de provar a democracia, governando sempre nas épocas de grande adversidade. Com um fundador a morrer em circunstâncias ainda hoje obscuras, teve de governar num país socialista de Constituição e limitado pelo PREC, onde forças anti-democráticas como o PCP detinham grande força. Ou o CDS, que foi dado como descendente do regime cessante, perseguido e assaltado como se de vulgar bando criminoso se tratasse.

Outro aspecto interessante é a propaganda: os partidos democráticos de verdade não têm tais máquinas propagandísticas, nem se declaram donos da verdade absoluta. Não agem de forma goebeliana contra os demais e não crêem em formas de democracia dirigista.
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De Samuel de Paiva Pires a 01.03.2009 às 22:12

Caro Anónimo,

Não diria melhor! Sou, obviamente, obrigado a concordar com o seu diagnóstico! O seu último parágrafo então é cereja no topo do bolo! Se não se importar gostaria de colocar o seu comentário sob a forma de post!

Saudações
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De André Ferreira a 01.03.2009 às 22:19

Caro Samuel,

Claro que poderá postar o comentário! Peço desculpa pela não identificação anterior, por lapso não feita.
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De Samuel de Paiva Pires a 01.03.2009 às 22:23

Caro André,

Grato pelo seu comentário e permissão!

Um abraço

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