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Era eu caloira de Ciência Política (CP) no ISCSP. Estava com bastantes projectos em mãos e escaldada de um Secundário atribulado com mil e uma actividades. Queria, acima de tudo, ser ponderada nas minhas escolhas e, por isso, disse não à participação na Associação de Estudantes - escolha que viria a manter nos anos vindouros - e a minha intervenção no Associativismo Universitário, naquele primeiro ano, circunscreveu-se à participação nas Assembleias Gerais de CP. Primeiro, para poder conhecer os meandros de um mundo que ainda era novo. Depois, e mais importante, para poder acompanhar o processo de Bolonha que, logo naquele primeiro ano, causou incertezas sobre como seria o nosso currículo de estudos porque a remessa de 2005 foi o ano de "transição". E, como se sabe, em Portugal é tradição que tudo quanto seja transição nos sistemas educativos signifique treta.

 

@s alun@s foram chamad@s à participação na construção do futuro plano de estudos. Os Núcleos dos diferentes cursos organizaram-se e procederam à decisão da sua posição oficial sobre o caminho a escolher para a sua respectiva licenciatura. Em mãos estava, primordialmente, a opção que se iria tomar quanto ao "ano de transição" - foi sempre óbvio que a remessa 2005 era uma pedra no sapato na aplicação de Bolonha no ISCSP. 3+2 ou 4+1 eram as fórmulas simplificadas apresentadas na AG para a nossa decisão e, sem surpresas, CP preferiu que o ano de transição se inserisse na opção 4+1 (tradução: manutenção do currículo antigo e "oferta" do primeiro ano de mestrado).

 

Mas porque aquilo era só a nossa opinião e a procissão ainda ia no adro, voluntariei-me para trabalhar na proposta de um plano de estudos para Bolonha. Queria saber com o que contar, para além da razão altruísta da colaboração em si mesma (coisa que, por vezes, me dá grandes dissabores).

 

O método de trabalho decidido pelos membros do Núcleo de CP (NCP) pareceu eficaz: era apresentada uma proposta da Direcção e @s sóci@s eram chamad@s a dar a sua opinião. E foi assim que recebi no meu e-mail a primeira proposta da Direcção do NCP, diversas tabelas numa página word com o planeamento para o 1º ciclo de estudos (3 anos) e 2º ciclo (2 anos), correspondentes à Licenciatura e ao Mestrado.

 

Na altura, a minha reacção para o ecrã foi de choque mas hoje, só de pensar no meu incómodo perante aquela proposta, rio-me com prazer. Lembro-me perfeitamente, engoli em seco, franzi as sobrancelhas e perguntei aos meus botões: "que é que é suposto dizer a isto?"

 

O currículo proposto tinha disciplinas do género, espalhadas pelos 3 anos do 1º ciclo e 2 anos do 2º ciclo:

- "Matemática Política",

- "Biologia Política",

- "Literatura Política",

- "Psicologia Política",

- "Ambiente e Política",

- "Arte e Política",

 

e aí por diante!

 

Lembro-me de que até fiz uma rápida pesquisa no google de planos de curso nacionais e internacionais para ver se em algum havia uma aberração destas mas, como não encontrei nenhum plano de curso que pegasse em todas as disciplinas que havia no Secundário e lhes colocasse o Política à frente, senti-me mais confiante para escrever, cheia de tacto e diplomacia (o mesmo é dizer, com muitos eufemismos!), que não me parecia um programa lá muito bom! Para além desta tentativa de transversalidade onomástica das acepções da palavra "política", para aquele plano nem sequer tinha sido pensado o que dar em cada uma daquelas disciplinas fabulosas, pelo que tínhamos uma disciplina de Filosofia Política em que iria ser leccionado o mesmo que em Literatura Política e que em Teoria Política. Para terminar, havia um argumento  de defesa fantástico da retirada da cadeira de Finanças Públicas do currículo antigo, dito por pessoas que ainda nem haviam tido essa cadeira (leccionada no último ano do curso): era desnecessária! Saber interpretar um Orçamento de Estado? Epá, não é para nós, mas ter um semestre para falar da conotação política dos quadros de Picasso, bem porreiro!

 

Por ter dito que me parecia um currículo feito em cima do joelho, em que se limitou a aplicar os 4 agrupamentos do secundário à palavra política, que não havia nenhum trabalho de pesquisa anterior, fui aconselhada a ser mais "dócil" e "humilde" porque ainda estava só no 1º ano.

 

Este foi o meu primeiro contacto com a idiotice que prolifera na Universidade.

 

Uma "idiotice" que hoje deve estar empregada tal como tanta idiotice que todos os anos sai para o mercado de trabalho.

 

Sempre houve idiotas ao longo do tempo. Mas agora são certificad@s, com um diploma de uma qualquer Universidade que, cada vez menos, cumpre o seu papel.

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publicado às 01:10


12 comentários

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De Melekh Salem a 24.03.2009 às 10:04

Ámen !
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De manuel gouveia a 24.03.2009 às 10:36

Confesso que não percebi até que ponto essa idiotice é responsabilidade directa dos professores universit@rios...
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De manuel gouveia a 24.03.2009 às 13:03

Portanto, é mesmo culpa dos alunos.
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De Silvia Vermelho a 24.03.2009 às 15:32

@s alun@s são um produto. Um produto de um sistema educativo que nivela por baixo. O ensino superior é a última etapa desse caminho pelo que, obviamente, tem a menor dose de culpa. Mas não deixa de a ter, quando em prol da formação de "técnic@s" abandona uma perspectiva holística da avaliação e se cinge à mera avaliação de meia dúzia de conhecimentos sem ter em conta o processo que até lá conduziu e, por exemplo, a capacidade de expressão ou o raciocínio crítico e analítico d@ alun@. Daqui resultam consequências catastróficas: @ alun@, ao ser avaliad@ positivamente, e até com boa nota, julga-se em plenas condições de ingressar o mercado de trabalho e, ao lá chegar, é confrontad@ com um mundo em que lhe pedem que redija uma carta ou planeie um determinado projecto, e depois? Mas, bola de neve, por falta de alternativa essa/e ex-alun@ já nem será "descartad@" - porque é tudo "farinha do mesmo saco"! O que resulta imediatamente numa perda de eficácia e eficiência da entidade empregadora. E aí por diante.
@s professores/as universitári@s não fazem a Universidade, pelo que a culpa não é deles/as enquanto classe profissional, obviamente. Haverá certamente alguns e algumas "aspirantes" que se limitam a reproduzir a mediocridade que @s caracterizou enquanto estudantes. Mesmo no ISCSP @s há, onde, felizmente, predomina a excelência. Mas também essas/es foram um produto.
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De manuel gouveia a 24.03.2009 às 19:31

Ok, mas os professores, mesmo nas fases mais iniciais, foram formados em universidades, na nossa política (e nos níveis de decisão) estão em maioria os licenciados (com mais ou menos fax), ou seja, não seremos o fruto do nosso ensino universitário?
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De Silvia Vermelho a 24.03.2009 às 20:18

Fruto do ensino universitário anos 80 e posterior, com a banalização das universidades privadas e a produção em massa de diplomad@s? Com certeza! Mas, como refere o Nuno num comentário abaixo, tudo começa na primária mas depois... é uma avalanche.
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De Nuno Castelo-Branco a 24.03.2009 às 16:38

O problema começa, como muito bem sabes, bastante atrás. Exactamente na primária. A saída para isto? Não sei, mas tenho as minhas suspeitas. Aliás, quanto à "bolonhesa", parece que este tipo de repasto não está a proporcionar digestões tranquilas.
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De Pedro a 24.03.2009 às 23:54

O problema existe e é (na minha opinião) derivado de vários factores. Entre os quais numero 3:

Facilitismo!
Quando digo que gostava de ter cadeiras (sou aluno universitário de 2º ano) mais difíceis e com momentos de avaliação mais exigentes quase sou crucificado. Mas é a verdade. Os alunos preferem tirar notas altas em cadeiras mal leccionadas e pouco avaliadas do que a exigência. Eu sou adepto do contrário. Não só me sinto mais motivado com a exigência como sei que (mesmo tendo uma nota baixa) sairei mais bem preparado e com um melhor domínio das matérias.
Este problema é transversal a todos os anos de escolaridade e (infelizmente) ainda sentido na Universidade.

Programas ultrapassados!
Este é um problema que eu sinto na pele muitas vezes. Estando num curso de Ciências Farmacêuticas completamente virado para a ciência é flagrante os erros ensinados no 3º ciclo e no secundário. É inaceitável.

Falta de qualidade dos professores!
É inacreditável que um professor não domine a matéria e não esteja em cima dos mais recentes desenvolvimentos na sua área. Este é um ponto que eu senti durante o secundário e que felizmente não vejo na universidade. Na universidade os professores (dado a sua vertente de investigação) são muitíssimo bem formados mas, com um claro défice em teorias e métodos pedagógicos. O que é (talvez) igualmente grave.

Claro que se a estes factos aliarmos um claro laxismo (a até desinteresse) de que muitos alunos sofrem (no ensino superior então é por demais evidente) não podemos ter profissionais bem formados...

Soluções?!
(vou apenas referir-me ao ensino universitário)
- Unidades curriculares actuais, ministradas por docentes com clara competência.
- Responsabilização do aluno, não ter medo de avaliar e de colocar altas fasquias.
- Não ter medo de chumbar alunos que não correspondam a um patamar de exigência.
- Recompensa de alunos com altos níveis de excelência nomeadamente na sua integração em equipas de investigação.

Quanto a Bolonha... enfim foi uma excelente oportunidade mas acho que foi perdida na maioria dos casos. Não foram testados novos métodos de ensino, não se mudou o paradigma... Enfim, quase nada...
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De Silvia Vermelho a 25.03.2009 às 14:17

Ola Pedro,

no geral, concordo contigo, claro. Quanto ao "patamar de exigencia" de que falas, a questao que se me colocou ao longo da escrita deste texto foi: deve a avaliacao versar apenas criterios objectivos de obtencao de conhecimentos tecnicos ou deve estender-se a criterios mais dificeis de avaliar como o desenvolvimento da capacidade analitica, raciocinio, expressao etc? Eu sou a favor do segundo, porque so isso diferencia @s estudantes e lhes pode conferir "niveis de excelencia", como propoes.
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De Pedro a 25.03.2009 às 16:08

Boa tarde,

Concordo contigo, claro. Contudo, dependerá muito da natureza dos cursos. Num curso cientifico (como o meu) a grande percentagem da avaliação é (e bem) objectiva, caracterizando-se por cumprimento ou não de determinados objectivos e conhecimentos adquiridos (técnicos, como lhes chamas). Mas concordo, no geral, com a segunda posição. O desenvolvimento crítico, lógico, argumentativo e expressivo é fundamental em qualquer área e deve ser avaliado.
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De Silvia Vermelho a 25.03.2009 às 16:38

Pois, até porque voces muitas vezes expressam-se unicamente pela linguagem matematica, mas no nosso caso em que, como dizia um professor meu, as "ferramentas de trabalho das Ciencias Sociais sao as palavras", a exigencia de uma boa capacidade expressao impoe-se.

Tambem ja andei pelas ciencias duras, nos tempos do Secundario. No inicio da faculdade custou a habituaçao a um estudo mais de memorizaçao que de exercitaçao, mais de leitura que de pratica. Mas valeu a pena, a mudança : )

Bom trabalho pelas CF!

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