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(Head to Head, de Edvard Munch, imagem picada daqui)

 

Se há blog com nome original e criativo é sem dúvida o Eternas Saudades do Futuro. Lembrei-me disto a propósito de algo que me ocorreu ao tentar destrinçar e racionalizar determinado tipo de pensamentos. Não sou escritor nem poeta, a minha escrita é tudo menos atraente (de facto, detesto a minha escrita, por ora não sou capaz de fazer melhor mas julgo que talvez à medida que for envelhecendo a possa ir aperfeiçoando), não tendo, por isso, qualquer mínima capacidade imaginativa para exaltar em termos quase líricos aquilo que me atormenta em relação a um tudo que não deveria ser nada, ou um nada que não deveria ser tudo. Perdoem-me os leitores o que se segue, fruto da minha completa ignorância e estúpida tentativa de racionalizar algo muito provavelmente impossível de intelectualizar, sem recorrer sequer a qualquer manual de filosofia que em muito me poderia aqui ajudar. Vai em forma de plágio directo do estado de alma.

Num desses pensamentos efémeros que me atravessam a mente em golpes de leve pena em resposta à severidade do espadachim que apenas desferindo um certeiro golpe fere de morte o seu opositor, ocorreu-me a expressão de eternas saudades do passado que nunca foi presente nem vai ser futuro. Serei apenas eu a conseguir entender o significado de tal pensamento? Serei apenas eu nos confins da minha imaginação, nos locais mais recônditos da minha mente, nas cavernas mais obscuras do meu ser, a criar uma realidade alternativa em passo acelerado em direcção a um futuro que nunca vai ser presente, acabando por me desfasar em relação ao tempo real do aqui e agora, sendo constantemente apanhado completamente desprevenido por tamanha enormidade e desconformidade de realidades?

Se, como escreve José Manuel Moreira no artigo "Liberdade e Bem" do seu livro Leais, Imparciais e Liberais, existe, segundo Isaiah Berlin, um processo de sublimação das “baixas paixões” que deixa constatar uma dicotomia interior em cada indivíduo, entre, “por um lado, o seu carácter racional, a sua natureza mais alta, o seu superego, a sua consciência, o seu ser ideal, o seu ser autónomo; e por outro, os seus impulsos racionais, os seus desejos incontrolados, a sua natureza mais baixa e a busca do prazer imediato”, pode um ser humano alcançar um nível de consciência tal que lhe permita ser “dono das suas próprias paixões, e não ser escravo delas”? Não sendo possível, pode mentalmente criar um processo de desfasamento entre a realidade ideal e a realidade empírica? E, quando em presença da realidade empírica, projectando nesta ideias e valores provenientes da realidade ideal, não se verificará uma desadequação completa que o deixa aterrorizadamente chocado e sem saber como lidar com tal, mais ou menos como o que acontece com Neo ao ser desligado da Matrix?

Pode o ser humano suportar por muito tempo o choque entre duas realidades, a realidade empírica e a ideal (alternativa) da qual tem saudades, mesmo sabendo que nada disso realmente aconteceu? No fim, como dizia Morpheus no Matrix, "Have you ever had a dream, Neo, that you were so sure was real? (...) How would you know the difference between the dream world and the real world?". Se é possível ter eternas saudades do futuro, não será possível ter eternas saudades de algo que mais que profundamente desejávamos ter acontecido empiricamente mas que apenas se nos deu a conhecer virtualmente, algo que realmente nunca aconteceu? Será possível ter memórias de algo que nos parece ter sido completamente verdadeiro e real mas que não passou de uma mera projecção ideal? Será essa a melhor explicação possível para determinados processos que geram uma sensação tal que nos deixa interiormente desorientados e sem saber como lidar com tamanha grandeza na qual não conseguimos conter o nosso ser, parecendo a todo o momento que não cabemos em nós próprios por desfasamento entre realidades, por frustração para com a realidade empírica, por manifesta incapacidade de entendimento desta fruto da distorção provocada pela realidade alternativa que, em conjunto com inusitadas introspecções, projecta realmente algo que a todo o momento nos faz sentir tão bem e ao mesmo tempo tão mal, algo que queríamos passar da realidade paralela para a real, e que por infeliz incapacidade para tal nos deixa completamente inconformados, desfasados e destroçados?

Porventura haverá na psicologia explicação para isto, que eu devo estar a enlouquecer ou coisa do género. E, como gosto de pensar em abstracto, mesmo que a um nível baixo, não posso sequer socorrer-me do concreto para clarificar o chorrilho de pensamentos desconexos acima descritos. Gostava agora era de saber como é que se consegue acabar com tamanhos processos, apagar uma realidade ideal e alternativa e os valores que essa projecta na outra.

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publicado às 00:44


12 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 27.03.2009 às 00:48

Bem, bem, não sou nada dado a poesias e arranjos florais, mas pelo sim pelo não, acabaste de arranjar um óptimo tema para uma jantarada aqui em casa, pá.
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De Samuel de Paiva Pires a 28.03.2009 às 23:17

Temos que combinar :)
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De Diogo a 27.03.2009 às 09:51

Muito interessante reflexão numa primeira leitura. Mas vou ter que fazer uma segunda para apanhar tudo.
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De Samuel de Paiva Pires a 28.03.2009 às 23:18

Isto possivelmente até poderia ser mais fácil de explicar, mas também não sei muito bem como...
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De john a 27.03.2009 às 11:28

Eu afastaria a hipótese de insanidade. Mas caso ela se confirme, caro Samuel, então posso garantir-lhe que terá companhia no Júlio de Matos.

Uma leitura superficial: essas "eternas saudades do futuro" derivam da nossa capacidade de abstracção. A partir do momento em que fazemos uma escolha - ou que uma escolha se nos impõe - o que normalmente acontece é que se abre um caminho à nossa frente, enquanto todos os restantes, antes possíveis, se fecham. Ainda que sigamos o único que nos resta, a nossa capacidade de abstracção permite-nos imaginar o que teria acontecido se a escolha tivesse sido outra. Mas note - não como ela teria sido exactamente, mas como nós gostaríamos que ela tivesse sido, consciente ou inconscientemente. Daqui em diante, depende da mente de cada um: há pessoas que conseguem não pensa nisto. Eu, por exemplo, não possuo um controlo muito apurado sobre a minha mente/imaginação, pelo que não consigo evitar perder-me nestes tipos de pensamentos, naquilo que deveria ter feito ou não ter feito. Acontece frequentemente eu rever um qualquer acontecimento na minha mente, não como ele foi, mas como ele poderia ter sido tivesse eu agido de forma diferente.

Isto em temas de carácter amoroso é uma esquizofrenia absoluta, acredite!

Se nós podemos suportar o choque entre ambas as realidades? Estive para lhe responder com outra citação do Matrix (um dos meus filmes preferidos - os três, note-se, não apenas o primeiro), mas prefiro colocar a questão de outra forma: temos alternativa?

Abraço.
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De Samuel de Paiva Pires a 28.03.2009 às 23:27

Como o compreendo john, é uma espécie de Teoria do Caos, infelizmente muitas vezes quase incomportável, levando à tal esquizofrenia, e se eu acredito, nem imagina...

A trilogia do Matrix encontra-se no 1.º lugar das minhas preferências cinematográficas :) Infelizmente, essa questão é aterrorizadora e creio não ter resposta!

Um abraço
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De Miguel Neto a 27.03.2009 às 13:57

Acho que compreendo essa "sensação". Acho até que é uma sensação comum a toda a gente, embora seja diferente a forma como cada um a sente e lida com ela.

Tenho também tentado dar uma ordem a esse "caos interior" e encontrar uma explicação para esse sentimento de "eternas saudades do passado que nunca foi presente nem vai ser futuro". Resumidamente, sem pretensiosismos e como conclusão (sempre provisória) dessas minhas interrogações, permitam-me que partilhe convosco a minha Verdade.

Uma definição de Homem que mais gosto, aquela que acho que melhor sintetiza o que somos é a de Carl Sagan: "O Homem é o pó das estrelas que tomou consciência". Para mim isso significa (entre muitas outras coisas) que temos em nós, naquilo que é mais elementar, um conhecimento, uma ligação íntima ao Universo. Essa ligação "molecular" ao Universo é a responsável por essa "memória" intangível, de um tempo anterior e posterior ao nosso.

Por outro lado, essa sensação de "eterna saudade", essa inquietação, está na origem de todas as nossas Interrogações e na essência da nossa necessidade (diria que imperiosa) de Conhecer.

Essa vontade, essa "vertigem" pelo Conhecimento, acredito que tem que ver com O Derradeiro Desafio que se coloca ao Homem e à Humanidade:

É unanimemente reconhecido que o Universo teve um início e as teorias mais recentes apontam para que terá um fim. Eu acredito que "O Grande Desafio" que se coloca ao Homem e à Humanidade é sobreviver ao fim do Universo, unindo-se então a essa Entidade que está na origem, no fim e é a razão de todas as coisas.

Nesse caminho, cada um de nós é como um elo que liga quem nos precedeu a quem nos seguirá. Nessa corrente (de gerações, em que "cada um de nós é uma corda esticada por sobre o abismo" - Nietzsche), a tarefa mais importante de cada um é, acredito eu, garantir o aparecimento de um novo elo, melhor, mais forte que o que nós fomos.

Resumidamente este é o resultado a que me trouxeram essas minhas inquietações. Faz sentido? Para mim faz.
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De Samuel de Paiva Pires a 28.03.2009 às 23:44

Julgo perceber o que o Miguel escreve. Lá está, cada qual lida com esta sensação à sua maneira e só faz mesmo sentido para cada qual consoante a forma como o faz. Ou como não faz, sei lá...
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De Joana a 28.03.2009 às 10:55

Numa das suas muitas cartas, Agostinho da Silva dizia assim:

«21.4.92

Uma quadra popular para sua meditação:

"Enquanto a saudade existe
Pode haver felicidade,
Mas não há nada mais triste
Que a saudade da saudade."

Tudo bem enquanto há saudade de alguma coisa.»
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De Samuel de Paiva Pires a 28.03.2009 às 23:29

Poderá a saudade de alguma coisa que nunca aconteceu ser boa Joana? Não sei mesmo, às vezes julgo que não, depende de cada situação, creio eu.

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De Joana a 29.03.2009 às 12:08

Depende, Samuel. Se a saudade da IDEIA de algo ou de alguém nos reconfortar, então é boa, mesmo que esse algo ou alguém nunca tenha acontecido. Confuso?
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De Samuel de Paiva Pires a 29.03.2009 às 15:52

É boa, mas o meu ponto de vista é que é também má pela tal desconformidade e choque com a realidade empírica.

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