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A manta de retalhos

por Silvia Vermelho, em 17.04.09

(foto por mim, Bruxelas 2007)

 

A conversa, que conduziu (inevitavelmente) à Europa, fez-me lembrar um trabalho que fiz há dois anos atrás, para a cadeira de Sociologia, e que, pomposamente (como todos os trabalhos académicos nos quais, quase a medo, lá opinávamos sobre alguma coisa) apelidei de "Reorganizar a Europa", e que partia da obra de Comte Reorganizar a sociedade.

A problematização tinha uma linha simples, apesar de linear não ter nada e centrava-se sobre a distinção entre a Europa de Comte, do século XIX, e a "nossa" Europa, do século XXI, tocando os temas do multiculturalismo, da secularização da sociedade e o positivismo de Comte. A premissa de desenvolvimento do texto era a aclamada necessidade de uma voz única para problema comuns e, com efeito, assim foi defendida. Recupero neste texto, algumas das questões levantadas.

 

A Europa sempre foi uma “manta de retalhos”. Esta expressão romântica, de uma genialidade admirável, reúne no seu seio inúmeras questões pertinentes acerca dos pontos que unem ou desunem a manta. Qual é o traço comum que os retalhos apresentam para se poderem afirmar como uma una manta? Quais são os pontos de separação dos retalhos? Como são superados? Cinquenta anos de construção Europeia e continuamos apenas a elogiar as cores da bandeira e o romantismo da sua concepção. Há duzentos anos atrás, na Europa de Comte, não havia bandeira nem hino nem um portal na Internet que conferisse a centenas de milhões de cidadãs/ãos uma mesma morada. Que pontos haveria, então, que justificasse a estreita relação que Comte cria que deveria existir entre os países?

 

Comte refere-se aos  "os laços espirituais que o velho sistema havia estabelecido entre as nações da Europa" e que, identificamos  facilmente, na sociedade Teológica e Militar Comtiana, se traduziam numa homogeneidade religiosa e no poder  político que  a Igreja Católica forçosamente tinha. O aparecimento e difusão das Ideias Protestantes no século XVI, inicia uma rotura profunda na artéria aorta da Europa: o Vaticano.

 

Centro religioso e subsequentemente político, como a época o justificava, o Vaticano ocupava, no sistema Teológico e Feudal, a direcção da manta de retalhos. Era o início e fim de todas as empresas Europeias, o centro da diplomacia interna e o centro espiritual da Europa. [...]  Hoje temos um centro de decisão laico, em Bruxelas, representativo e tão orgulhosamente quanto possível, democrático e liberal, tal como as últimas tendências da moda dos regimes políticos o dita. Mas que solidez tem a Europa para assegurar as suas empresas como forças centrífugas com centro em Bruxelas? Comte é incisivo e de uma lucidez extrema na transmissão da sua certeza quanto à força de um laço social que é “necessariamente proporcional à importância da finalidade efectiva”*. Ora, qual é a motivação que a Europa tem hoje para se unir? Que paixões desencadeia Bruxelas ou o Louis Weiss para mover o povo Europeu na mesma direcção?

Tendo nascido de motivações essencialmente económicas[..], o centro decisor na Bélgica (o “país-tampão Europeu”), não inspirou gerações e gerações de Europeus e Europeias para o estabelecimento de uma voz comum desse mesmo centro-decisor, i.e., vivendo em torno das questões económicas, motor e fio condutor de toda a história Europeia, esperou apaixonar as massas por uma bandeira e um hino imposto, apregoando uma história comum e raízes culturais comuns ao mesmo tempo que a tolerância religiosa e globalização são tidas como valores partilhados. Este entusiasmo pela tolerância cultural, religiosa e a beleza que as elites governantes pregam acerca da globalização, mais que não são que uma resposta forçada às vagas de imigração que têm servido a sustentabilidade demográfica do velho continente. Esperar que as massas, apaixonadas, oscilem entre a preservação de uma raiz histórica comum (judaico-cristã), e do laço espiritual que o Estado Pontifical costumava assegurar, e o entusiasmo multicultural porque a ideia de “manta de retalhos” é sentimentalista, é simultaneamente um adiamento e uma catálise da crise Europeia.

[...] O seu diagnóstico é feito isoladamente – a ascensão dos movimentos nacionalistas (na maioria dos casos associados à crença cega no argumento étnico), os múltiplas vozes que se erguem em matérias de diplomacia e negócios estrangeiros e a divergência de tratamento em matérias de imigração, cooperação, desenvolvimento e inclusão são alguns dos problemas que cada país persiste em tomar como seus e resolver como seus.

 

E dizia Comte: “A crise actual é evidentemente comum a todos os povos da Europa ocidental, se bem que nem todos a sofram com a mesma intensidade e o mesmo grau. Certo é, porém, que cada povo a discute, diagnostica e trata, como se ela fosse simplesmente nacional. Mas é evidente que para uma crise europeia só convém um tratamento europeu”*".

 

Esta crise não é a crise económica, ou não se traduz unicamente na crise económica. É uma crise, sim, profundamente valorativa, e que roça muitos dos pontos já referidos: como pode um centro decisor supra-estadual fortalecer-se se não goza ferramentas tradicionais com que o Estado o fazia? Como pode um centro decisor plural afirmarr-se perante @s suas/seus cidadãs/ãos, e perante os seus congéneres, sem poder recorrer ao sentimento nacional e à unidade religiosa?

 

O “modelo ocidental”, que Fukuyama reconheceu como “último” e que tão bem serve o Sistema Científico que Comte afirmava como sendo a última etapa da marcha da civilização, foi importado no século XIX pelo Japão, é impingido no século XXI ao Iraque e é rudimentarmente imitado nas ex-colónias Europeias em África. A perda para a China do estatuto de fornecedor de produtos, deu lugar a uma posição vanguardista na exportação de valores, ideias, regimes políticos e conhecimento. Tal não é obra do acaso ou apenas obra da perda de competitividade económica. Já Comte reconhecia no século XIX que o que ele apelida de sábios, portanto, pessoas detentoras do conhecimento aprofundado das mais diversas matérias – intelectuais ou produtoras/es de conhecimento, “formam uma coligação, compacta, coesa e activa, cujos membros se entendem e se correspondem, fácil e continuamente, de um extremo ao outro da Europa. Tal se deve a que só eles mantêm hoje ideias comuns, linguagem uniforme, obediência a um fim de actividade geral e permanente. Nenhuma outra classe possui tão importante qualificação, porque nenhuma outra preenche a integridade de todas as condições exigidas.*"

[...] Comte dá, no século XIX, o perfeito centro do qual o centrífugo Europeísmo deve operar: o conhecimento. Só em prol da ciência se abandonam paixões, porque pela sua natureza, nela não têm lugar. Só em prol da ciência se pode edificar um novo laço e travar o isolamento dos povos. A doutrina orgânica de Comte é a perfeita metáfora de uma hipotética agenda Europeia. [...] Concluiu-se portanto a necessidade de uma verdadeira doutrina orgânica que obedecendo ao factor de união que o conhecimento representa, com que se possa passar a gerir, com eficiência, Bruxelas. Canalizar fundos para a inovação e tecnologia, produzir e vender conhecimento, será a primordial ocupação da Europa para a sua própria sustentabilidade e desenvolvimento. Comte respondeu a esta questão actual no século XIX, com sagacidade e lucidez. Disse ele e aqui o cito novamente, “só a acção dos sábios nos reserva a esperança de que venha a ser produzida uma confederação europeia”*.

 

O que daqui se pode retirar, para futuro desenvolvimento mas também a título de adição ao meu último comentário (à data) ao post referido no início deste texto, é que é efectivamente necessário que a Ciência, especialmente a social, se torne normativa, e dê uma nova ordem a um mundo novo. Neste período histórico, que não considero como último, nem como parte de um continuum, mas que efectivamente tem as características do sistema "científico" Comtiano, a abstração dos nacionalismos, do Estado-nação e da soberania característica do mesmo, não serve a pluralidade de sistemas decisores que hoje temos, quer  a nível supra quer a nível infra-estadual.

 

*As referências bibliográficas (tal como os parágrafos, a propósito) foram suprimidas para facilitar a leitura. Aqui fica: Comte, Auguste, Reorganizar a Sociedade, Guimarães Editora, Lisboa, 1977

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publicado às 01:39


5 comentários

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De JMB a 17.04.2009 às 02:55

Suponho que do "Comtiano" devo deduzir Auguste Compte.
Brilhante.
Outra coisa não era esperada.
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De JMB a 17.04.2009 às 03:00

Não tome a mal a brincadeira.
O seu texto é excelente. Oportuno.
Eu é que sou um brincalhão.
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De Silvia Vermelho a 17.04.2009 às 11:59

Ora essa ;) Efectivamente Comtiano refere-se a Auguste Comte (que, creio, se escreve mesmo sem "p", embora essa tenha sempre sido uma dúvida frequente).

Oportuno, talvez, sim, de facto é curioso como um texto de dois anos não se torna extemporâneo... e mais ainda, um texto de 200 anos ;)

Obrigada pela participação. Seguem saudações de Trieste.
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De Nuno Castelo-Branco a 17.04.2009 às 14:03

E temos que atender ao pormenor nada desdenhável que a "Europa" dos tempos de Comte tinha. Nada que hoje possa ser comparado, porque na sua época, os europeus dominavam - de facto - o planeta. A situação é hoje bem diferente.
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De Nuno Castelo-Branco a 17.04.2009 às 14:04

..."pormenor da dimensão territorial que a Europa" dos tempos..
Queria dizer.

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