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O silêncio de Abril

por Silvia Vermelho, em 25.04.09

(retirado daqui)

 

Abril trouxe um silêncio diferente, mas nem por isso menos calado, é o silêncio das amarras individuais, de querer abrir a boca e senti-la fechar pela obediência que esta socialização dos cravos nos trouxe, a esta geração pós-74. A anterior, a que grita, grita a mesma coisa há 35 anos, sem saber o que grita e apenas uma vez por ano.

 

 É como diz a Joana (em referência a isto): É agora, que me espreita a hipocrisia, porque quem faz Abril duas-três vezes num ano não o faz 365-366 dias. Não protesta, não grita, não barafusta. Cala-se e tem medo e não é livre e não é nada. Porque precisa sempre de outros para o fazer ou porque nunca deixou de se submeter e parece-me não vai deixar tão cedo.

 

Comemorar Abril, como manda a tradição, não é só acorrentar a direita, é também prender a esquerda. É querer confinar toda a esquerda a uma revolução feita em 74, aclamá-la como sua responsabilidade, retirando-lhe culpas; aclamá-la como mérito seu, retirando-lhe tutela do que se lhe seguiu. Este golpe militar encarou a Liberdade como um animal de circo, a ser exibida sempre que necessário, mas presa a uma trela. A Liberdade veio de Abril com um dono, que não somos nós, e tudo o que o povo vê é a actuação da Liberdade, em cativeiro.

 

Quem dita as decisões certas? Aqueles que agarram na trela. Não pode existir confiança em decisões tomadas por quem prende a Liberdade, para quem a estabilidade no relacionamento institucional implica, na verdade, o desejo de um público calmo deste circo gigante, onde a atração principal se tornou a Liberdade na categoria de ilusionismo...

 

Já alguém se deu conta que sai à rua de cravo na mão a horas certas?

 

(De qualquer modo, desejos de um bom Sábado. Por aqui, por Itália, também se comemora: é a Festa della Liberazione.)

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publicado às 13:02


9 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 25.04.2009 às 14:03

Sou de Moçambique, onde por causa de certos acontecimentos, morreram 3 milhões de pessoas, vítimas da guerra, da fome e da inépcia de uma inexistente libertação. Sílvia, o meu silêncio é total.
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De Silvia Vermelho a 25.04.2009 às 16:46

As histórias - que são memórias dolorosas - que me são contadas sobre uma Lourenço Marques em tradição para Maputo são, de facto, impressionantes pelo seu carácter de "remoinho", centrífugo, célere, confuso. É um período histórico sobre o qual tenho bastante curiosidade em saber mais. Em tempo útil, procurarei satisfazê-la.
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De manuel gouveia a 25.04.2009 às 15:12

Se um povo não soube aproveitar a liberdade que lhe foi concedida, como se deve lamentar?

1- dizendo que quem fez a revolução pretendia apenas um aumento salarial
2- que afinal não temos liberdade
3- e depois que se tem medo.

A liberdade não nos dispensava de sermos corajosos, infelizmente não aprendemos isso!
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De Silvia Vermelho a 25.04.2009 às 16:53

O povão não diz isso. O povão não se apercebe do que diz, do que fala, do que se queixa, do que perde. Se fosse assim, já se tinha pegado fogo a São Bento.

A coragem e a liberdade para questionar e intervir não são coisas que nasçam com as pessoas, mas que se ensinam nos grupos. Abril não ensinou Portugal - nem o quis fazer. Esse é o Pecado.
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De manuel gouveia a 25.04.2009 às 18:11

Essa é a a conversa dos que em África ao fim de trinta anos ainda culpam o colonialismo pelas suas desgraças! No 25 de Abril abriu-se uma porta, todas as janelas, só tínhamos que voar!
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De Silvia Vermelho a 25.04.2009 às 19:06

Também é conversa de pessoas que, em Portugal, como é o meu caso, nasceram já Portugal estava na União Europeia e super-pseudo-democratizado.

Um povo, para voar, precisa de asas e só as constroem @s seus/suas governantes. É preciso uma liderança, como um bando que voa em V invertido, em que o vértice é rotativo.
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De manuel gouveia a 26.04.2009 às 01:13

Gostei da imagem do vértice rotativo.
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De Nuno Castelo-Branco a 25.04.2009 às 20:24

... e tudo continua dependente do quase inexistente banco da Escola a sério.
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De Joana a 26.04.2009 às 00:49

Obrigada, linda Silvia.


Nuno, é precisamente isso.

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