Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Tenho a forte convicção - ou, pelo menos, esperança - que daqui a uns anos o discurso político em Portugal será bafejado por um conjunto de indivíduos que em termos de teoria política estão bem mais preparados para fazer corresponder as políticas públicas à teoria e à realidade do que a comummente chamada "Geração de Abril" e os seus sucedâneos - falta apenas saber se até lá entramos na bancarrota ou não. Portugal precisa de uma grande mudança (para que fique tudo como está, diria Lampedusa) em toda a escala, no que diz respeito à arquitectura constitucional e administrativa, e alternativas não faltam, falta apenas vontade política - a qual também não poderá nunca vir daqueles que se sentam à mesa do orçamento do dinheiro dos contribuintes.

 

E uma dessas necessárias mudanças é a refundação da direita portuguesa, sob a égide de um partido verdadeiramente de direita liberal e conservadora. A palavra chave é o "verdadeiramente": um partido que não tenha medo de assumir que é de direita, liberal e conservador, e que não continue a dizer-se social-democrata e a ser subserviente à esquerda e às suas políticas que nos vão levando para o abismo.  Um partido que tenha quadros de valor  e não idiotas úteis e especialistas em golpadas; que saibam do que falam e se desprendam do velhinho discurso da social-democracia, que, na verdade, pertence de todo o direito ao PS.  Talvez não fosse mal pensado, como sugere José Manuel Moreira, voltar a utilizar a sigla PPD, para mais tarde deixar cair o PSD. Pelo meio, talvez refundir o PPD e o CDS/PP num só partido com uma clara definição e distinção ideológica dos restantes - esta seria uma hipótese para talvez tentar recuperar alguma da credibilidade que há muito o sistema partidário perdeu. É também necessário acabar com os complexos do povo de que tudo o que é de direita é mau e tudo o que é de esquerda é bom, algo bem mais complicado de alcançar, mas que sem uma refundação do discurso político-partidário torna-se, certamente, tarefa impossível.

 

Até lá, apetece transcrever na íntegra muito daquilo que vou lendo, especialmente das crónicas de José Manuel Moreira, agora que finalizei a leitura da obra Leais, Liberais & Imparciais, e que me debruço sobre a caipirinha aroniana do Henrique Raposo.

 

Sobre a necessidade de termos jovens quadros que saibam o que fazem, transcrevo aqui uma parte do artigo de José Manuel Moreira intitulado "Os Pequenos e a Praia Grande", acerca de um convite que aceitou para ser orador numas jornadas da JSD há uns anos:

 

 

"Foi uma experiência única, para não mais esquecer. Ninguém tirava um apontamento, o pessoal parecia estar ali a fazer um frete, e mais preparado para a praia e a noite do que para o duro trabalho de reflexão política.

Desconfiei até que, para a sala estar sempre mais ou menos composta, havia uma espécie de rotação de jovens, talvez para permitir, por turnos, a cada um fazer outras coisas mais interessantes do que aturar os oradores convidados.

Como seria possível esta gente estar preparada para enfrentar os problemas do País com este desinteresse pela discussão dos princípios e fundamentos da política e das políticas? A resposta veio logo a seguir, com a incoerência, a inconsistência e, por fim, a trapalhada de que os governos do PSD deram mostras. A vitória de Sócrates surgiu assim naturalmente; a surpresa veio só de o seu programa ser tão social-democrata.

Só que os "sociais-democratas" do PSD ainda não descobriram, talvez porque lhes falta preparação política, que o espaço da social-democracia já está ocupado, e bem, e que o futuro depende agora de serem capazes de forjar um novo espaço onde possam explorar alternativas ao modelo de Estado de Bem-estar.

Um prestigiado académico de esquerda, Patrick Dunleavy, costuma dizer que o principal desafio aos fundamentos do modelo socialista e social-democrata de sociedade, está na argumentação filosófica e teórica desenvolvida pela escola austríaca de economia e pela teoria da escolha pública.

Será por isso difícil fazer verdadeira oposição a Sócrates se se vive na ignorância sobre as bases dessa argumentação. Mas, infelizmente, é dessa ignorância que tanto as bases vencedoras como as elites perdedoras do PSD, dão sobejas provas, ainda que mostrem saber como compensar a carência de ideias com excesso de intriga, jogadas de bastidores, golpes baixos e ultrapassagens rápidas."

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:31


6 comentários

Sem imagem de perfil

De O Corcunda a 30.04.2009 às 01:22

Penso seguro afirmar que Henrique Raposo é um dos maiores anormais que esta geração tem dado ao mundo. Condensa todas as características de um perfeito jotinha, mas com a mania que lê. Dele retenho umas Notas Soltas Sobre o Aborto, que é um hino à estupidez e à ignorância sobre os próprios fundamentos do seu pensamento.
É uma pena que a auto-proclamada direita se tenha esquecido do que o MEC uma vez escreveu sobre Popper. Que um dos maiores sintomas da ignorância e parolice dos portugueses era acharem que esse senhor havia sido um grande filósofo político.
Só que em Portugal o debate é nulo e nunca ninguém se lembrou de confrontar a direitinha com os seus ídolos...

Esse partido de liberais conservadores teria precisamente o quê de conservador? O conservar do liberalismo?

Depois de publicar essa obra de enorme valor científico "Salazar o Maçon" a Bertrand virou-se para outro autor ao nível de Costa Pimenta.
Imagem de perfil

De Samuel de Paiva Pires a 30.04.2009 às 01:49

Amigo Corcunda, quanto ao Henrique Raposo, permite-me discordar na medida em que avaliando o que por cá temos na nossa praça pública, parece-me ser um excelente ensaísta/cronista com uma capacidade de comunicação acima da média e que tem colocado a nu muitas das debilidades do actual regime.

Quanto a esse partido liberal-conservador, a alguém caberá fazer o trabalho no campo da doutrina, esperando que não se cometam os erros do passado no que diz respeito aos partidos da actualidade... Por mim que só sei que nada sei, prefiro continuar a ler para perceber mais claramente estas matérias, até para não cair no erro dos nossos jotinhas e afins que discursam com base em argumentos vazios e falácias...
Sem imagem de perfil

De L´Étranger a 30.04.2009 às 11:01

Samuel apraz-me saber que as nossa conversas de bar de faculdade são desenvolvidas neste forúm de exposição de ideias, e ainda bem que tal ocorre!

Ora, sem tentar parecer o advogado do diabo, coisa que nunca vou ser, e tendo em conta a responsabilidade política que assumi, parece-me apropriado tecer duas ou três considerações sobre o conteúdo da transcrição que fizeste e não sobre o seu autor (engraçado como nada muda em Portugal, alguém que exponha as suas ideias é logo considerado retardado e sofre dois autos de fé mas nunca se pensa se o que ela diz não será válido).

Como já tive oportunidade de te dizer anteriormente há uma clara falta de quadros de valor nas jotas e nos partidos e porquê? Porque quem tem real valor, é rapidamente seduzido pela iniciativa privada estrangeira. Contam-se pelos dedos da minha mão direita os altruístas que ficam e dão parte de si à política, e mesmo assim os que ficam são rapidamente acomodados à engranagem da máquina.

No entanto não posso deixar de concordar veementemente contigo quando observas:

"Tenho a forte convicção - ou, pelo menos, esperança - que daqui a uns anos o discurso político em Portugal será bafejado por um conjunto de indivíduos que em termos de teoria política estão bem mais preparados para fazer corresponder as políticas públicas à teoria e à realidade do que a comummente chamada "Geração de Abril" e os seus sucedâneos "

...pois isto é verdade, eu pelo menos sinto-me (modéstia à parte) um desses. Se calhar é por ser novo, já dizia alguém que "aos vinte és imortal". Por isso é que quando desenvolvo trabalho político na minha secção tenho sempre atenção aos mais novos e à formação que lhes tento dar. Mas, e mais importante do que isso, tento manter sempre a presença de espírito de que é a política que precisa de mim e não o contrário. A política sem ética é uma vergonha, citando Francisco Sá Carneiro, e é isso que falta em Portugal, a ética que se perdeu, não à custa das jotinhas e da "geração rasca" (frase de ignorante), mas sim graças ao chamado "Espírito de Abril". Espírito ou fantasma, chamemos-lhe o que quisermos, foi essa lembrança de um conceito abstracto e difuso que permitiu à classe politica portuguesa fazer aquilo que melhor faz o gene luso: a acomodação. "Vamos deixar isto como está que as coisas compõe-se per si". Tal não vai acontecer.
O mesmo se passa nas jotas actuais, enquanto a PS estiver no governo e a Juventude Socialista estiver a orbitar á sua volta, vamos assistir à formação de valores na oposição, mas mal a cor política do governo democrático mude vamos assistir à mesma situação! É cíclico, mas não eterno!

Estão à espera do quê? Milagres?

Por isso é que eu deposito fé na minha geração, aquela que não viveu Abril, aquela que sabe aprender com a história, com os erros do passado. Por isso é que eu deposito fé em mim e nos meus companheiros de comissão política da Jsd! Não somos diferentes das pessoas que andam na rua, possuimos o mesmo código genético! Não se deve julgar o todo, muito pelo contrário devem-se dar os parabéns aqueles que tentam trabalhar para o bem comum!

Não estou a dizer que são todos Santos, muito pelo contrário, faltam Santos, mas as coisas mudam...

Eu pelo menos tento

Bom dia, e um abraço samuel, à primeira de muitas!

L´Étranger
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 30.04.2009 às 12:12

A mim o que dá muita vontade de rir é a estranha dissociação que o L'Etranger faz entre as ideias e as pessoas. Um tipo que só diz disparates deve, para si, ser um génio. Ou seja, as coisas que as pessoas dizem são irrelevantes, porque a sua capacidade intelectiva é independente do raciocínio. Deve achar que é possível ser um grande humorista sem algum dia ter dito uma piada.
Um ideia bem tontinha, como é evidente e que é o "tuga" no seu melhor. Um sujeito diz alarvidades monumentais, mas todos dizem que é um génio, simplesmente porque não têm capacidade crítica.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 30.04.2009 às 21:17

Análise de conteúdo, chama-se análise de conteúdo quando se procura perceber a mensagem que pessoa X procura transmitir! É muito melhor do que criticar só por criticar, mas enfim tacanhices..... Não ligue L´Étranger
Imagem de perfil

De João Pedro a 30.04.2009 às 13:15

Não sou grande adepto de José Manuel Moreira e tenho sérias dúvidas de que a Escola austríaca seja essa "salvação" de que Portugal tanto necessita. A prova é a de que muitos dos que admiraram essas correntes, e que passaram pelo Grupo de Ofir, dinamizado por Lucas Pires, passaram pelo poder e não deixaram grande herança.

Sobre a necessidade de um novo partido sem ambiguidades, vem ao encontro de um texto que escrevi em tempos n ´A Ágora , em que defendia precisamente que o PSD tinha feito sentido numa dada altura, mas que era tempo de acabar, a exemplo do que aconteceu em Espanha com a UCD /CDS de Suarez . Não faz sentido que um partido se denomine social-democrata e tenha passado, no Parlamento europeu, pelo grupo dos Liberais e agora pelo PPE . A meu ver, o partido devia-se extinguir, permitindo a assunção dos grupos que o compõem: os sociais-democratas para o PS, os conservadores e sociais democratas fundindo-se com o CDS, e os liberais para nova formação, ou aproveitando o projecto da Nova Democracia. Ficaríamos assim com ás águas partidárias muito mais definidas e um cenário semelhante ao da Alemanha, por exemplo.

O problema é que o PSD, na amálgama ideológica que é, ainda pior que o Bloco, dificilmente se extinguirá nos tempos mais próximos porque concentra em si uma enormidade de interesses dos grupos mais diversos . Com a passagem do tempo, formaram-se clientelismos permanentes e solidariedades partidárias, mesmo com pessoas ideologicamente diferentes, E inimizades com gente de outros partidos mas que em termos de ideias até estarão mais próximas. O PSD é uma originalidade portuguesa ("o liberalismo que leva à solidariedade"), que se alimenta do poder e que entra em depressão e paranóia quando o não tem, e onde convivem socialistas, liberais, reaccionários e neo-fascistas . só o tempo e as suas convulsões farão com que esta amálgama se destrua. Pena que não aproveitem o actual desnorte para pensar no seu futuro enquanto partido.

Comentar post







Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Links

Em destaque

  •  
  • Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas