Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Bigodes, barbas, barbichas e cabelos púbicos do progresso

por Nuno Castelo-Branco, em 01.05.09

 

 Estourou na net uma polémica que me faz eriçar os pelos  directamente conectados com a minha veia mais reles. Trata-se exactamente disto que se escreve por aqui, versando o assunto dos sempre famigerados bigodes retorcidos de alguns monárquicos.

 

Esta caricatura tem servido para ao longo dos tempos ridicularizar gente ridícula e outros que não o sendo, são atirados para o mesmo monturo do preconceito. Cada um usa o bigode que bem entende e quanto aos demais, ou lhes agrada aquilo que vêem, ou repugnando-lhes a estética, deveriam limitar-se a aceitá-la como coisa do normal mas alegado mau gosto do fulano em questão. 

 

Infelizmente aproveita-se um simples bigode, para achincalhar todo um legado histórico que está bem vivo entre nós, apesar das claras diferenças existentes entre os muitos tipos de monárquicos portugueses: é que há-os com barbichas ao estilo do Afonso Costa, outros com barbaças à Fidel Castro, uns outros com bigodes "à Rei " - seguindo D. Duarte - e finalmente, aquelas criaturas que como eu, não ostentam qualquer vestígio de decorativa pelagem facial. Não o faço por várias razões, sendo a primeira delas, a difícil questão do suporte ósseo que conforma o meu fácies. O bigode e a barba ficam bem a quem possua uma cara de ângulos fortes do tipo modelar ao serviço de um Arno Brecker, por exemplo. Desde criança vi desaparecerem as bochechas e agora, chupado das carochas, caminho para a miserável fase final, com uma progressiva perda da sempre escassa carne que outrora levemente cobria os malares. E ainda por cima e para cúmulo do desastre, os pelos que imitavam o ouro, estão com a desagradável tendência para a quebra da moeda dos tempos medievais, volvendo-se hoje demasiadamente prateados e atestando a minha desvalorização.  Paciência. 

 

Creio que é da mais elementar justiça tirarmos uma pequena desforra do chorrilho de graçolas com que nos mimoseiam os cada vez menos assumidos republicanos. Ora vamos a eles.

 

Começando pelos da direita, temos aqueles que ocasionalmente usam uma barbinha de três dias, num feio chique negligé a pretender ao sexy estilo do Equador da série. A coisa parece ir bem, até olharmos para o resto. Que tragédia! Lá está a camisa azul riscada a cinza ou a azul, o típico blazer com ostentosos botões dourados, o cintinho verde-rubro da Gucci e os pavorosos mocassins com duas berlotas, ou pinhas franjudas a dar-a dar. Esta gente que invariavelmente é PSD/CDS, adoptou para sempre o estilo Alternativa 76 dos tempos do Freitas e da sua difícil ..."a resposta é muito simples" que o partido inscreveu em cartazes de campanha, como se imorredoura citação fosse. Em suma, a barba para acender fósforos (lembram-se do Marcelo Rebelo de Sousa quando se fazia de moderno?) é precária, não pega e ao contrário daquilo que o usuário pensa, dá-lhe um aspecto simplesmente badalhoco. Nem todos podemos brincar ao Brad Pitt e esta verdade é tão certa como a intemporal sobrevivência da colecção do Rosa & Teixeira, sempre a mesma desde 1972. 

 

E então os outros? Temos a gordinha esquerda burguesa BMW que gosta imenso do faz de conta. Invariavelmente cinzentona - exclua-se o 1º ministro Fashion Clinic -, tem uma espantosa tendência para adiposar de forma rápida e perene. Todos diferentes e todos iguais, andam pelo PS e outras novas fronteiras adjacentes, coisa que pouco ou nada diz, mas que certifica a telescópica visão de um lugar à mesa da gamela do Estado. Barbas e bigodes à discrição, mas predominando sem qualquer tipo de dúvida, a herança do sr. Afonso Costa. É o género copiado pelo Alberto Costa, Capoulas dos Santos, Vieira da Silva, Alberto Martins e ainda pelo Aveirossauros Candal. Em suma, a esquerda burguesa e moderna tem pouca imaginação e é insusceptível de catalogação icónica. Único registo digno de nota: paulatinamente vai abandonando a meia branca de turco.

 

Vamos agora aos tipos porreiraços - os tais "homens bons, sãos, amigos do seu amigo, de mente fresca e aberta" -, oficialmente não alinhados mas que estão em todas que o Jerónimo convoca. São aqueles gajos barbudos a imitar o Fidel Castro e cuja hirsutez hoje e mais que nunca, a história justifica. É que a gorda e indecente boca esponjosa do cubano,consiste numa nítida imitação de uma crica de cabra (1), cercada por abundante matagal facial. Eis então, um perfeito cartaz turístico de uma ilha cuja principal atracção radica no ondulante bambolear das rechonchudas ancas das dançantes crioulas do Tropicana e claro está, sempre  disponíveis para aqueles que no pós-rumba pública, podem suculentamente beijar no quarto do hotel, a perfeita réplica da cara do grande líder, a nu entre as coxas da internacionalista anfitriã. O espetado charuto de Fidel, é assim uma mera sugestão retributiva do punhado de euro-dólares a deixar na mesinha de cabeceira, como manifesta prova de solidariedade para com a calcinada república tropical.

 

Os supra-sumo. São aqueles que não sendo oficialmente do PC - os independentes de esquerda - fazem-lhe os jeitos, aparecendo em organizações unitárias, mirambolando coligações fictícias cujo único fim é esconder a foice e o martelo, essa espécie de trança de alhos que espanta o vampiresco eleitorado menos precavido.

Alguns podem dar hoje pelo nome de "verdes", mas anteontem, nos dias  da revolução, tinham outros nicks. Quando convinha eram MES, para logo depois serem FSP's ou ainda, num escalão mais alto e quase aristocrático, MDP-CDE's. Estes últimos faziam o pleno do arquétipo. Auto-crismaram-se como os intelectuais e logicamente de esquerda, pois a direita só atrai gente estúpida e ignorante. Assim, os militantes das mesas de conferências sobre o pensamento de Catarina Eufémia, eram em regra gente magrela - mas com uma pancinha - e a puxar para uma avançada meia idade. Jeans, camisola mousse de gola alta com o claro predomínio dos tons verde-seco ou bordeaux. Casaco por vezes de corte Príncipe de Gales, invariavelmente  castanho e frequentemente decorado a pied de poule ou leve axadrezado num marrom mais forte. Óculos fortes, de argamassa preta e lentes grossas (ver fotos). No entanto, o que saltava mais à vista eram os dois detalhes essenciais. O primeiro, a mariconera - ou mariquette para os antigos auto-exilées em França -, que consistia numa espécie de pochette para homens. Com zip na parte superior e um fecho de metal dourado na frente, carregava-se na mão esquerda, enquanto outros utentes preferiam segurá-la pelo sovaco. Os que tinham inclinações cosmopolitas, preferiam aquelas outras que através de duas presilhas, podiam proporcionar um andar mais cómodo e de mãos livres, fazendo pender a tal mariconera através de uma alça aferrada ao esquálido mas enchumaçado ombro. A outra particularidade de relevo, consistia no penteado. Denunciando a impiedosa alopécia, o ornamento capilar era penteado rente à frente, para depois avolumar-se na parte posterior, hirto, sem soltura, num emaranhado a fazer lembrar um infeliz transplante da zona púbica. Sempre sal e pimenta, não era liso nem encaracolado, antes pelo contrário. Como toque de refinamento final, a imagem de marca da caspa que copiosamente polvilhava os ombros e dava o esmerado toque de autenticidade, numa época em que existiam duas ou três marcas de shampoo no supermercado, apenas reservadas à ralé reaccionária. Eram os áureos tempos do Elséve balsam, do Sunsilk e nada mais. Querem alguns exemplares de casta? Visionem o Saramago no seu tempo de saneador da imprensa, o Tengarrinha dos fretes ao Cunhal, a criatura Abelaira, o Vitorino de Almeida, o Carlos do Carmo do antigamente em que dizia mal da mãe "fâssista" (2) e o Lopes Graça do prémio Lenine. Ainda andam por aí e se quiserem vê-los, basta visitarem à Ler Devagar, ou aos sábados de manhã, a pastelaria Cister, na Escola Politécnica. Quantos fedúncios destes vi lá por casa! Nos tempos em que as coisas da descolonização exemplar eram pagelas sagradas de grande conquista popular-patriótica, gostavam de diante de nós perorar sobre os malefícios do colonial-"fássismo" (2), demonstrando profundo conhecimento de uma África que apenas descortinavam pelo anúncio da pasta dentífrica Couto, cujo sabor timidamente papilavam de longe a longe. Nem imaginam o quanto nós gozávamos na cozinha, imitando-lhes as falas, as deixas, os prolongados âââââ's... aprendidos em Paris, as unhas compridas e envernizadas e as pulseiras de ouro com placa onde invariavelmente lá estava gravado o Zé Manel (e a data de nascimento). A minha mãe a eles se referia como os tocolochas (3) que para vossa informação, pouco ou nenhum respeito mostravam por quem habitava aquela casa e lhes servia o café com bolinhos. Que gente!, sempre de Diário de Lisboa, o Diário e o Avante enrolados debaixo do braço... E pensar que o nosso pai lá tinha de os suportar num tempo em que ser-se ou não um retornado decente era uma condição para se poder dar aulas na faculdade e alimentar uma data de exigentes bocas adolescentes. O António José Saraiva é que os topava bem e para nosso gáudio, confirmava plenamente aquilo que então pensávamos ser preconceito nosso. 

 

Os últimos. A esquerda libertária do "tudo numa boa, pá, amanhã vais ao Pap'Açorda"? Já foram UDP's, PRP's, puseram as bombas dos FP's-25, foram MES, LCI's, FSP's, POUS, UEDS's e agora surgem recauchutados em BE. A democraticidade deles é para o enxerto Estaline-Trotski, como o Fini em Itália está para o Duce Mussolini. Pouco fica para dizer, a não ser que cumprem escrupulosamente os ditames do gene oriundo da Lapa e da zona situada entre a Praça de Londres e Alvalade. Em suma, vestem-se e parecem-se com os CDS's ao fim de semana. O pull pelas costas, o sapato modernaço dos anos 70 em camurça, uma camisinha Ralph Lauren, jeans Tommy Hillfiger - por vezes ousam o verde ou o bordeaux -, os Ray Ban de aros dourados e bem disfarçados por detrás do Jornal de Letras, lá estão o Expresso e a Visão. Para ler na Mexicana. Como tema de café, os 100 milhões para gastar em eleições/2009.

 

Feliz 1º de Maio! 

 

(1) Sabem bem do que se trata

 

(2) Dizia-se de muitas maneiras: fássista, fâssista, feixista, fâchista (Odete Santos, Cunhal, etc), fascita, fáxista, etc, etc, etc.

 

(3) Tocolocha, ou seja, macaco no nosso dialecto landim (Moçambique)

 

*Nas imagens, da esquerda para a direita (salvo seja): o prémio Lenine Lopes Graça,  o Vitorino de Almeida, o Abelaira e o espanhoguês Saramago

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:05


10 comentários

Sem imagem de perfil

De Ana Reis a 01.05.2009 às 12:11

Estou fazendo uma campanha de doações para meu projeto de minibiblioteca comunitária e outras atividades para crianças e adolesçentes na minha comunidade carente aqui no Rio de janeiro,preciso da ajuda de todas as pessoas de bom coração,pode doar de 5,00 a 20,00. Doações no Banco do Brasil agencia 3082-1 conta 9.799-3 Que DEUS abençõe todos nos. Meu e-mail asilvareis10@gmail.com
Sem imagem de perfil

De Afonso Miguel a 01.05.2009 às 15:36

ahahahah pois claro que me ri! e a bem rir! quantos e quantos conheço dessa nova última geração bloquista. quase todos os que andaram comigo na faculdade eram mais ou menos assim. os professores então, correspondiam a tanto do que aqui disseste que nem sei classifica-los bem. tudo homens que gostam do bem estar e de, ao mesmo tempo, ser de "bem", ou benzoca. enfim, uma tristeza pegada... muito aprumados mas depois abriam a boca para dar uma aula e saía um comício republicano-socialista. o que eu aturei... e quantas vezes me atentaram os meus parceiros de carteira para ir ao Avante! embebedar-me. "epá vem lá, aquilo é fixe e seres de direita não quer dizer nada, pode ir toda a gente". ao que eu respondia invariavelmente que podia ir toda a gente, sim, e que por isso mesmo até as FARC lá punham os pés... indignavam-se logo: "fassista". isto para não falar que estavam a ser formados para a profissão que mais alberga este gentalha, o jornalismo. redacções e redacções cheias de mentes ocas, muito sabedoras de tudo mas altamente incapazes de reflectir sobre tudo o que sabem.

um abraço
Sem imagem de perfil

De M. Mendonça a 01.05.2009 às 21:39

Brilhante caracterização de várias grupos sociais de acordo com a sua opção partidária - de certeza que quem ler o texto identifica exemplos para cada um dos tipos descritos.

Nota-se claramente que quem escreve tem uma preocupação com questões de Estética.

É muito poética e fotográfica a parte do texto que vai de "Desde Criança...." até "...Paciência". Faz lembrar o estilo descritivo de Eça de Queiroz. Não me parece que quem escreve com tamanha frescura, esteja já a caminho de uma miserável fase final! :)

Pergunto: e para quando a publicação de um livrinho?
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 01.05.2009 às 21:51

Olá M. Mendonça. Um livrinho?! Olhe que eu não sou a Júlia Pinheiro.... Um livro é uma coisa séria. Para escrever realmente bem, já tenho o meu irmão - que já publicou um - e o meu pai que já publicou alguns e prepara o seu primeiro romance. Eu fico-me pelas truculenciazinhas e disso não passo. :)
Sem imagem de perfil

De M. Mendonça a 01.05.2009 às 23:43

Olá Nuno Castelo - Branco. Obrigada pela resposta ao comentário :)

Acha que um dia poderá vir a fazer aqui menção aos livros já publicados pelo seu pai, e ao livro do seu irmão, se surgir um momento oportuno?








Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 02.05.2009 às 04:17

Darei a lista. Vou procurar e coloco-a em post, ok?
Sem imagem de perfil

De M. Mendonça a 03.05.2009 às 00:32

Ok. Muito Obrigada :)
Imagem de perfil

De Daniel João Santos a 01.05.2009 às 22:02

Que grande bigode que passou ao pessoal.
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 02.05.2009 às 04:13

E isto não é nada. Nem imaginam o que penso e por vezes digo de mim. Bem pior :)
Sem imagem de perfil

De P. Osório a 02.05.2009 às 22:27

Haha. Muito bom, Nuno. Parabéns. Fez-me lembrar aquele texto brilhante sobre como o PS poderia ver-se livre de Alegre durante o período eleitoral...

Comentar post







Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas