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A eurovisão turca do dr. Cavaco Silva

por Nuno Castelo-Branco, em 21.05.09

   

 

 

O senhor dr. A. Cavaco Silva visitou a Turquia recentemente e de forma quase entusiástica apadrinhou o ingresso daquele Estado asiático na União Europeia. Para os pequenos países como Portugal parece ser desmedidamente correcto prodigalizar boas vontades, mesmo quando neste caso é um dos principais beneficiários dos chamados "fundos estruturais" aos quais a Turquia concorrerá fortemente.

 

Na sua sábia avaliação da estratégia a seguir, o presidente parece ter esquecido alguns pormenores que convém fazer lembrar ao seu apressado staff em Belém.

 

1. A Turquia não é um país europeu e pelo contrário, durante séculos representou um verdadeiro perigo para aquilo que entendemos como "Europa", onde as visíveis diferenças religiosas e conflituosas relações inter-estatais na luta pela hegemonia, jamais fizeram esmorecer ou pelo menos secundarizar, a fortíssima matriz comum herdada da Antiguidade e assegurada por um cristianismo que nas suas múltiplas igrejas, sempre foi comum. Desde os tempos do império otomano e apesar da submissão das populações eslavas, romenas ou gregas, a potência turca sempre fez valer a primazia do credo muçulmano que influenciou fortemente a organização social, ditou a guerra sagrada contra o infiel - nós - e condicionou pesadamente os territórios cristãos sob tutela. O facto do país possuir desde 1453 a cidade de Constantinopla (Istambul) e a sua área adjacente, não impede que o verdadeiro peso cultural sobre o todo nacional, derive dos usos e costumes próprios de uma população cuja mentalidade encontra grandes afinidades com as suas vizinhas do Médio Oriente e da Ásia Central ex-russa ou soviética. As razões históricas contra a adesão, são fortes, para não dizer esmagadoras. Uma simples conversa com intelectuais turcos não ocidentalizados, poderá servir de eloquente testemunho do conceito que fazem da nossa organização social e das suas lógicas expressões mais visíveis, como a arte, igualdade de género, liberdade de expressão em todas as suas vertentes, etc.

 

2. A questão demográfica. A Turquia encontra-se hoje presente nas influentes comunidades espalhadas pela Europa central e ocidental, onde a Alemanha acolhe perto de oito milhões de cidadãos turcos legalizados ou não. Com uma pujante taxa de natalidade que também beneficia dos condicionalismos impostos pela mentalidade do proselitismo corânico, existe igualmente a irresistível atracção oferecida por sociedades onde o Estado Social beneficia de sobremaneira a integração de famílias numerosas, através de uma já incomportável política de subsídios. Para uma clara visão do problema, atente-se ao insucesso da integração dos "turcos alemães" e aos consequentes problemas sociais que isto significa. A baixíssima taxa de natalidade - já considerada irreversível - na generalidade dos países da antiga CEE - os Quinze - e a entrada de uma Turquia com mais de 71 milhões de habitantes, irá desequilibrar fatalmente a relação de forças dentro da própria Europa. Prevê-se desde logo a solidariedade entre os Estados muçulmanos que num futuro mais ou menos próximo aderirão à U.E. A Bósnia, a Albânia, o Kosovo (?) e a Turquia, decerto apoiados pela opinião pública islâmica - turca, balcânica, paquistanesa ou magrebina - muito presente em Espanha, Reino Unido, França, Bélgica, Holanda, Suíça , Áustria, Alemanha e países escandinavos, paulatinamente fará subir o tom das exigências, condicionando aquilo que entendemos ser a liberdade de expressão, seja ela laica ou religiosa. Corremos o sério risco de sermos confrontados pela criação de um novo conceito de Estado  que transpondo fronteiras, unifique essas massas num apelo solidário que não sendo programático, torna-se por isso mesmo, muito ameaçador para a segurança interna da U.E. A submissão dos ordenamentos jurídicos às exigências de introdução de articulados legais que especifiquem os particularismos da "sociedade muçulmana", destruirão sem remédio, o já antigo primado universal da Lei comum.

 

3. A questão do Estado turco. Argumenta-se falaciosamente com o factor da imposição forçada de uma laicidade modernizadora imposta pelas forças armadas, desde o advento do kemalismo nos idos anos 20. Não podendo deixar de ser olhado com simpatia por uma Europa há muito desligada da ancestral identificação entre o(s) Estado(s) e a(s) Igreja(s), há que sublinhar o decisivo papel interventor que desde a república de Attaturk, fez sempre da Turquia o exemplo mais parecido com aqueles que imaginamos próprios de qualquer oligarquia centro-americana. Essa laicidade é imposta à revelia daquilo que consideramos ser uma democracia e quanto a este ponto, encontramo-nos talvez, na situação de mais difícil resolução. A alegação de Eredogan quanto à similitude do seu AKP com os correspondentes partidos "democrata-cristãos europeus", torna-se frágil, quando comparamos o peso que a Igreja exerce nas sociedades ocidentais, com o cariz muito conservador e irredutivelmente sagrado propalado pelos imãs de todas as mesquitas. A religião condiciona toda a sociedade e faz hoje mais que nunca, parte de um  movimento de afirmação aparentemente cultural, mas que na política de intervenção activa encontrou o perfeito móbil para condicionar o chamado "mundo dos ricos", fazendo erguer vozes desde Istambul até Casablanca e Jacarta. Não é possível prever qual a evolução interna da sociedade turca, podendo até dar-se um súbito colapso da até agora todo-poderosa influência militar e da minoria economicamente privilegiada dos dourados salões de Istambul. Se o exemplo iraniano causa apreensão, uma Turquia paulatinamente caminhando para um respeito mais integral da tradição, poderá ser um factor de tremenda perturbação, para não dizer desastre, em toda a Europa.

Neste caso, as recorrentes políticas apaziguadoras e de uma certa linha política que vê na contínua cedência a confirmação dos grandes enunciados propalados desde Setecentos, poderá significar pelo contrário, o fatal condicionamento e progressivo desaparecimento dos característicos ordenamentos constitucionais das sociedades ocidentais. Exorbitantes exigências na modificação de todos os textos fundamentais, cerceamento de manifestações de índole religiosa não islâmicas - quem não se lembra da petição na Alemanha, ao fim dos toques de sinos e de procissões públicas, encaradas como "ofensas"? -, censura à livre expressão e inevitavelmente, uma substancial alteração na organização dos espaços urbanos, onde a guetização de recorte medieval - com normas próprias - tornar-se-á normal.

Um outro factor a considerar, é sem dúvida, a extensa e permeável fronteira turca numa zona geográfica onde a movimentação de populações numerosas tem sido uma constante. Uma súbita adesão à U.E., significaria um problema de dimensões ciclópicas, como a Europa já não assiste desde o desastroso fim da II Guerra Mundial e a forçada transferência de populações alemãs para ocidente.

 

4. O factor militar.

Na sua espúria impotência roçando a inépcia, a "Europa" tem evitado o comprometimento na sua própria defesa, hábito herdado desde o início da Guerra Fria e que proporcionou o vertiginoso progresso económico dos "milagres" dos anos 50 e 60. A União Soviética desapareceu e o factor de perturbação deslocou-se decisivamente para sudeste, numa área onde apenas o Estado judaico parece apresentar algumas analogias doutrinais na organização sócio-política e económica. 

A incúria com a política de defesa, onde o Reino Unido parece ser uma excepção insuficiente, impele a inteligentsia bruxelense para a tentação de atrair o poderoso exército turco ao redil de uma hipotética "Força de Defesa Europeia". Erro fatal, facilmente perceptível por um simples passar da vista sobre um mapa da região onde a Turquia firmou fronteiras. Com más relações com praticamente todos os vizinhos, a Turquia poderá implicar os europeus numa desastrosa série de conflitos regionais, onde o caso iraquiano apenas surge como um mero exemplo de recurso. Provavelmente, Washington olharia com um certo agrado essa inclusão turca numa Europa - fatalmente enfraquecida no seu ethos -, onde apenas o aliado britânico corresponde aos anseios das sucessivas administrações americanas, ao mesmo tempo que Ancara proporciona contingentes numerosos, bem armados e perfeitamente submetidos a uma rígida disciplina há muito perdida para cá do Danúbio.

 

5. Que Europa?

Como será possível então, protelar indefinidamente um pedido de adesão de Estados como a Ucrânia que aliás, possuem evidentes afinidades étnicas-culturais com alguns membros da União? Estando a Turquia integrada, como recusar então, um hipotético pedido de ingresso de Israel, país hoje povoado essencialmente com gentes provenientes maioritariamente de uma Europa na qual habitavam há pouco mais de duas gerações? E como reagiria a Rússia a este cenário ameaçador?

 

O babado visionar de umas danças do ventre no festival da Eurovisão ou uma visita às gloriosas ruínas de Pérgamo, Halicarnasso, Esmirna ou Tróia - e a apaixonada síncope, a ficar nos anais,  pela rápida visita à Capadócia -, não podem servir de pretexto para o reconhecimento de um "passado comum" que abusivamente também inclui Bizâncio-Constantinopla. É que a Turquia, senhor dr. Cavaco Silva, ergueu-se exactamente a partir do momento em que o cavalo de Mehmed II usou como estábulo a  basílica da Sagrada Sabedoria, anunciando ao mundo a liquidação do último vestígio do Império Romano do Oriente, hoje artificiosamente invocado num também apressado galope deste novo Cavalo de Tróia que surge no horizonte: a Turquia.

 

Aconselha-se aos utentes de Belém, o recurso a duas ou três obras de referência, capazes de elucidar os generosos benfeitores de outrem - com dinheiros e riscos alheios -, a avaliar o verdadeiro sentido das coisas.

 

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publicado às 23:29


9 comentários

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De Joana a 22.05.2009 às 11:53

«Ó mãe, cala-te com a Capadócia!!!»

Desculpe, Nuno, estar a reduzir o seu post a um comentário sobre a Capadócia, mas eu, como Portuguesa, sinto-me envergonhada de cada vez que a Sr.ª Dr.ª Maria fala aos microfones. Não há pachorra para gente deslumbrada, sem o mínimo de noção do que é ou não suposto dizer em público quando se ocupam determinados lugares!
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De Nuno Castelo-Branco a 22.05.2009 às 12:10

Coisas da república, Joana, coisas da república...
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De Margarida a 22.05.2009 às 16:46

Pois...
Além disto, nada podemos fazer.
Ou como diria alguém que eu cá sei...'bah'...
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De António de Almeida a 22.05.2009 às 16:54

Valha-nos que cresce na Turquia opinião contrária à adesão. Não quer obviamente dizer que U.E . e Turquia devam virar costas, mas uma parceria privilegiada de desenvolvimento e boa vizinhança, não implica adesão, de contrário não tarda teremos Europa até Bagdad.
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De Nuno Castelo-Branco a 22.05.2009 às 19:54

O António resumiu o que fui incapaz de dizer em poucas palavras. A Noruega, a Suíça e a Islândia não fazem parte da UE e não se prevê a adesão. Contudo, têm estreitas relações económicas e políticas. se o ingresso da Turquia se deverá antes do mais a complexos de "inferioridade", tanto pior para eles. Se pelo contrário significa a futura instrumentalização da sua comunidade nos diversos países de acolhimento, então temos um caso muito sério.
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De Anónimo a 22.05.2009 às 20:09

Perfeitamente de acordo consigo.

GP
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De Nuno Castelo-Branco a 22.05.2009 às 20:41

Caro GP, neste assunto NÃO PODEMOS transigir, chamem-nos o que quiserem chamar-nos.
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De João Pedro a 23.05.2009 às 16:50

Ataturk teve grande importância no seu tempo, mas é tempo do Kemalismo deixar de ser o "bezerro de ouro" turco. Os pós-islamistas de Erdogan têm mostrado muito menos autoritarismo e mais espírito reformista que os laicistas de Ankara.
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De Nuno Castelo-Branco a 23.05.2009 às 21:46

Veremos é se todo esse reformismo não se deve apenas à intenção de conquistar o terreno necessário para uma posterior fase de shariarização da sociedade. É que a Turquia não se resume a Constantinopla e arredores.

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