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A desertificação e o fim de Portugal

por Nuno Castelo-Branco, em 12.06.09

 

 

Quem hoje se dirija ao Algarve, atravessará uma vasta extensão de terra de ninguém, como se tivéssemos regressado ao período da Reconquista, onde a necessidade de um afastamento físico das comunidades em luta, implicava a existência de espaços provisoriamente  ermos, aguardando o vencedor da contenda.

 

O Alentejo parece ser o terreno baldio que medeia a grande cidade, Lisboa, daquele emaranhado heteróclito de betão, piscinas e campos de golfe em que o antigo reino dos Algarves se tornou. Uma fita de alcatrão, a autoestrada, uns postos de abastecimento com o correspondente serviço de restauração e brindes - a fazer lembrar os vazios do centro americano, tão presente nas telas de Hopper - , eis a história a contar ao fim de duas horas e meia de caminho. Uma paisagem magnífica, bem cuidada, de velazquianos tons de pastel, castanhos e por vezes, surpreendentes verdes que parecem desmentir a desertificação que ameaça engolir a "nossa Bélgica".  Em termos europeus, o Alentejo tem exactamente as dimensões de um Estado e a Bélgica corresponde grosso modo  a este parâmetro territorial. Imaginemos o chamado coração da Europa, com uma população tão pouco numerosa como aquela que teima em permanecer na sua terra ancestral. As cidades alentejanas são pequenos centos urbanos, quase oásis no meio de um deserto há muito anunciado, devido exactamente à falta de ocupação pelos labores que dinamizam comunidades, aproveitam a terra e atraem visitantes. 

 

Portugal está a sofrer um desastre fatal, já há muito anunciado por homens como Gonçalo Ribeiro Telles. Já nos anos sessenta, advertia quanto ao modelo de desenvolvimento desejável para um país com as especificidades do nosso, onde uma revolução industrial parecia querer despontar num tardio mas prometedor arranque anunciado até pela insuspeita Time. O reordenamento territorial com a consequente organização do poder local; a atenção à defesa do património monumental  de que as cidades, vilas e aldeias no seu todo são parte integrante; a política da água; a delimitação dos solos urbanos aptos para uma criteriosa construção de qualidade integradora das hostes migratórias em demanda da cidade; a insistência na preservação da agricultura, o aparentemente arcaico mas essencial "sector primário" que garante a sobrevivência do pão português e daqueles produtos que em todo o mundo identificam a excelência daquilo que Portugal sabe fazer; finalmente, a completa modificação da desajustada construção do próprio Estado, hoje gigantesco, vítima da depredação corruptora dos interesses instalados que imitando o pior do legado liberal, não soube contudo fazer enraizar, aqueles princípios básicos que conformam uma sociedade de progresso, inalienável do respeito por um passado que definiu fronteiras, criou um povo, uma língua e um destino. 

 

A actual situação de concentração da população portuguesa junto da faixa costeira, implicará a criação de uma megalópole que em menos de meio século unirá Lisboa ao Porto, com tudo aquilo que tal significa em termos de deterioração da qualidade de vida, saturação dos terrenos com poluentes, brutal consumo dos recursos hídricos e consequentemente, aumento generalizado de preços, destruição do património histórico - que já ocorre de forma acelerada -, dramática quebra da segurança das populações, etc. 

 

Embora existam alguns fracos indícios de aproveitamento de uma situação que o Estado não quer ou não sabe oferecer aos portugueses, a criação de uma nova terra de ninguém entre a costa e a fronteira com a Espanha parece uma inevitabilidade, imitando nisto a própria organização interna do país vizinho e contrariando a tradicional ocupação da terra que garantiu a independência nacional e a subsistência de uma importante parte da população. No período do Fontismo, rolaram sobre os modernos caminhos de ferro, aqueles produtos agrícolas que das zonas de produção chegaram às cidades consumidoras e aos portos de exportação. Portugal parecia ter encontrado o seu caminho na adequação das suas capacidades às necessidades de um novo mercado que já era mundial.

 

Hoje, a situação é diferente e se excluirmos uns poucos prevaricadores, o  abandono do campo generalizou-se. Desperdiçam-se, por incapacidade, incúria ou estranha intencionalidade, os fundos europeus - como os agricultores têm denunciado -, enquanto empresários estrangeiros se instalam nas zonas férteis, aproveitando os próprios investimentos públicos - o Alqueva, por exemplo - para prosperar. Flores "holandesas", azeitonas "espanholas", frutos vermelhos em estufas "europeias", eis o actual panorama. A suicida política de "golfização acelerada" que consome colossais recursos hídricos e se apropria da terra para uma ínfima minoria de privilegiados, eis a democracia que temos, ou seja, os portugueses em vias de se transformarem nos novos ilotas.

 

O modelo - aliás inexistente, pois a situação é de caos - consiste num claro fracasso. Faltam escolas técnicas, incentivos à fixação das populações e sobretudo, o anúncio de uma nova política do tempo do futuro que dê aos portugueses a esperança nesse porvir de progresso prometido e que nunca chegou.

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publicado às 11:15


5 comentários

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De João Quaresma a 12.06.2009 às 17:24

Uma enorme província, com um potencial agrícola por aproveitar (apesar dos arautos da má qualidade dos solos que não conseguem explicar por que é que temos produtos marroquinos a entrarem nos nossos supermercados), e sem o qual a economia desta região fica reduzida a pouco mais que nada. Beja arruinou-se com a saída dos alemães da Base Aérea.

E é claro que o PCP tem grandes responsabilidades na desgraça alentejana.
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De Nuno Castelo-Branco a 12.06.2009 às 21:05

João, está a chegar o momento de se fazer algo.
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De João Pedro a 13.06.2009 às 15:53

Grandes verdades, Nuno. Este post devia estar nas secretárias de todos os governantes, directores gerais, autarcas e responsáveis regionais do nosso país, para aprenderem ou recordarem qualquer coisa de útil.

Alguém dizia, e é verdade, que a maior cidade alentejana da actualidade é Almada.
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De Nuno Castelo-Branco a 13.06.2009 às 16:13

Para isso basta irem ao youtube e escutarem as entrevistas do Telles,algumas delas já velhas de trinta anos!
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De Anónimo a 15.06.2009 às 00:08

Não me parece possível que num país destes ainda não tenham reparado em si

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