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Apesar de tudo e contra muitos!

por Nuno Castelo-Branco, em 22.07.09

 

Resistir parece ser o segredo da longevidade portuguesa. Mal governados - por vezes, até, governados por irresponsáveis criminosos - os portugueses souberam transformar as mais clamorosas derrotas em vitórias testemunhais. Como aqui disse há tempos, somos um pouco como os judeus: quanto mais nos reduzem, nos esquecem e desprezam, há uma não sei que força misteriosa que nos impele a continuar, a ficar e deixar marca. Pessoas há que no transcurso das suas vidas mudaram três vezes de terra, só para se manterem em terra portuguesa. Aqui lembro, uma vez mais, os goeses. Abandonaram Goa em 1961, saltaram o Índico e estabeleceram-se em Moçambique. Em 1975, novamente fizeram as malas e aportaram a Lisboa. Caramba, que outro povo é capaz de se sacrificar a tal ponto ?

 

 

Olhando pela janela do avião que pela primeira vez o trazia a Lourenço Marques, Julius Nyerere disse a Samora Machel:

 

- Sabes, Samora, estes portugueses são diferentes dos outros brancos, eles gostam desta terra!


- ?


- Olha para esta cidade tão bonita e arranjada, que beleza! Eles vieram para cá porque queriam ficar para sempre, para eles, esta é a sua terra...

 

 

 

 

Na sua monumental obra " O Império Marítimo Português" , Charles Boxer  interrogava-se acerca da porfia portuguesa em resistir a qualquer cedência de terreno, obrigando os depredadores a enormes esforços bélicos ou políticos.  Que gente é esta?

 

Durante séculos, as potências europeias transaccionaram territórios além-mar, por umas braças de terra à beira Reno ou Elba, encarando  a sua presença extra-europeia como um recurso económico ou de afirmação de poder perante os vizinhos. Ilhas eram trocadas por fronteiras naturais marcadas por um rio, uma cordilheira  ou pelo imaginado limite de uma Terra cuja verdadeira dimensão apenas era adivinhada. As colónias, compravam-se, vendiam-se ou eram objecto de vantajosa troca. Aquilo que os espanhóis, franceses, ingleses e holandeses fizeram, foi sempre pelos portugueses encarado como algo de anormal, cuja moralidade duvidosa, parecia querer afirmar um outro caminho na aventura extra-europeia.

 

Curiosamente, os portugueses não têm por hábito transformar a progressiva apropriação de terreno, em gestas de horizontes infindos, onde o  Drang nach Osten alemão, ou a conquista do nada romântico Far-West americano, vincaram para sempre os povos que lhes deram origem. No Brasil, o pequeno quase-promontório que significava a outorga a Portugal do nordeste sul-americano, foi-se paulatinamente alargando até ao coração de uma misteriosa e ameaçadora Amazónia: Ergueram-se pequenas igrejas, construíram-se fortes ..."em Nome d'El-Rei nosso Senhor"... e com a alvenaria vieram as gentes, alguns homens e por vezes umas poucas mulheres do reino. Povoar consistia na tarefa primeira, manifestando a soberania, num  processo que séculos mais tarde seria obrigatório numa África alvo de todas as cobiças. Se não existiam brancas em número suficiente, as índias, as chinas  ou as negras preenchiam os leitos do conquistador, multiplicando prodigiosamente uma população que o exíguo torrão pátrio dificilmente suportaria.  Duas gerações, eis o tempo necessário para povoar os navios das rotas asiáticas com tripulações  onde a mestiçagem criou capitães, escrivães, comerciantes, marinheiros e soldados.  O português pela primeira vez via os esplendores de uma Índia que à época era a grande expressão geográfica daquela multiplicidade de reinos e crenças que conformavam sociedades produtoras de todos os requintes desejados por uma Europa cansada do burel, da áspera lã cardada e de toscas armaduras. Impressionavam-lhe as palmeiras, a abundância das dádivas da natureza, as cores e pasmava-se com o descomprometimento daqueles povos com as peias da vergonha física, do sentido do prazer. Vestes de tons alegres, cómodas e apelativas à proibida sensualidade, eram parte de um todo onde a abastança, o clima ameno e as idílicas paisagens, deram ao português a certeza de ali - fosse na Ásia, Brasil ou África - refazer um outro Portugal. Ergueu as fortalezas que o protegeram e garantiram a vantagem de negócios onde a força ousada impunha a lei. O paladar português adaptou-se a novos condimentos, habituando-nos a produtos ainda hoje ignorados pela maior parte daqueles outros europeus que connosco convivem nesta pequena península da Ásia. Gostámos da experiência e decidimos ir ficando. Não se tratou de uma louca corrida para um enriquecimento súbito em quatro ou cinco décadas do previsível ocaso europeu. Consistiu num processo de séculos que ainda não terminou, pois as comunidades luso-descendentes continuam a reivindicar  como seu, aquele legado ancestral de uma já longínqua época de expansão, em que uns homens brancos, barbudos e de grandes narizes, lhes deram os nomes, a crença e o sentido de organização social e familiar que para sempre mantiveram, fosse na Índia, Ceilão, Malásia, Sião ou no sul da China. Um colossal Novo Portugal cresceu no hemisfério ocidental e hoje, tal como os seus antepassados, faz dos seus filhos a semente de mais uma repetição daquela diáspora que lhe deu origem. 

 

Oitenta e nove mil quilómetros quadrados, uma população que se equipara à de uma grande cidade europeia e a evidente  escassez de recursos económicos que teriam possibilitado o sempre esperado e frustrado arranque industrial. Uma única fronteira terrestre com um vizinho que jamais renunciou a completar aquilo que considera ser a sua primordial tarefa, à qual a geografia parece emprestar algum argumento. Eis o imutável cenário que se apresenta ao longo de séculos e que não se alterou, apesar do nascimento e desaparecimento de grandes e pequenas potências, de gigantescos impérios tão poderosos quão efémeros. Apesar das invasões, dos conluios diplomáticos ou de um desaparecimento sempre anunciado, Portugal ainda existe e  a sua gente é capaz - se a isso for chamada - de manifestar-se multitudinariamente contra qualquer sugestão diluidora ou prometedora de vãs promessas materiais. É essa a força deste país.

 

Durante séculos, habituámo-nos a uma dimensão territorial que comparada com a realidade imposta pela história, faz estremecer aquela certeza de perenidade que julgava para sempre garantida. No entanto, nada mudou, porque apenas conseguiu pela sua secular teimosia, poder de adaptação e afastamento de conflitos que dilaceraram uma Europa que desde o fim de Roma deixou verdadeiramente de o ser, alargar o âmbito de compreensão, partilha de identidade e um inexplicável sentimento de negação do estrangeiro que de facto, nenhum daqueles que fala o português reconhece ser. 

 

Portugal é contra todas as probabilidades, um inesperado sucesso quase milenar. Se tantos daqueles que o têm governado disso não tem consciência, a história é a testemunha primeira.

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publicado às 02:11


3 comentários

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De João de Brecht a 22.07.2009 às 04:10


"Portugal é contra todas as probabilidades, um inesperado sucesso quase milenar. Se tantos daqueles que o têm governado disso não tem consciência, a história é a testemunha primeira."

Escapou-nos a herança pelos dedos escorregadios de visco ganancioso

Excelente análise Nuno!
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De LUIS BARATA a 22.07.2009 às 15:25

Que posso dizer perante estas palavras? Bravo!
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De Miguel Neto a 23.07.2009 às 11:49

Depois de uns tempos ausente, voltei e "encontro" este seu texto (e com o do Miguel). Deviam ambos os textos fazer parte dos manuais de História do secundário, como introdução ou síntese do programa da disciplina, devendo ser desenvolvidos em cada um dos seus aspectos ao longo do(s) ano(s) lectivo(s).

Estes textos fazem mais pelo "clima de optimismo" e pela determinação em "trabalhar para sair da (nossa) crise" do que todos os discursos de todos os políticos desde que me lembro.

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