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O "detalhe técnico" do programa de governo

por Nuno Castelo-Branco, em 18.08.09

Arranjam sempre uma imagem que lhes oferece uma legitimidade que a Historia lhes nega.

 

 

 Portugal é um país onde as elites políticas desconhecem por completo, o seu real posicionamento institucional. Se o actual governo parece alimentar ilusões acerca da necessidade de um "presidente independente", a realidade ditada pela prática, diz que os locatários de Belém são sempre lestos no claro favorecimento do partido de onde teoricamente saíram para desempenhar a dita suprema magistratura.

 

Soares beneficiou o PS. Inventou presidências abertas, calcorreou o país com cara de poucos amigos para com o governo que por vezes o acompanhava, gritou o "direito à indignação", criticou ferozmente o "seu" primeiro-ministro ACS sempre que lhe aprouve. Todos sabiam que Mário Soares abominava o governo e desprezava o P.M., pelo menos a partir da sua reeleição para um segundo mandato. Quis dar posse a um governo PS e conseguiu.

 

De Sampaio, pouco haverá para dizer, a não ser ter cumprido à risca o seu papel de marechal Carmona de Guterres. Sabemos o que se passou com o governo de Barroso e como tudo fez para derrubar uma maioria parlamentar que alegava querer governar. Favoreceu nitidamente o PS, armadilhou hábil mas descaradamente o caminho de PSL e criou um perigoso precedente constitucional .

 

Cavaco Silva sempre foi o oculto presidente do saco de gatos que é o PSD. Mesmo nos tempos de Barroso - um antigo ministro do seu governo - sabia-se da sua aquiescência quanto a este primeiro-ministro, assim como mais tarde publicamente se soube da sua chancela "escassamente qualitativa" atribuída a PSL. Os silêncios de ACS foram sintomáticos de um frio e exclusivo pensar do seu interesse pessoal, de um fim de carreira em auto-considerada glória.

Decerto não lhe lhe terá agradado a triste visão do seu partido em permanente guerrilha onde Menezes, Santana, Marques Mendes, Passos Coelho, MFL e outros que o tempo fez esquecer, limitavam-lhe as hipóteses de um projecto que corresponde quase exactamente ao dos seus patrocinadores eleitorais.

 

Resolvido o problema interno com a eleição de MFL, Cavaco parecia poder iniciar o trabalho de sapa que lhe compete. Obedeceria assim,  à norma presidencial que faz arrastar os governos "hostis" para o caminho do penoso descrédito, ao mesmo tempo alçando os parceiros de agremiação à qualidade de única alternativa viável.

 

Não se entende agora a inquietação de Belém, quando descobre que os seus funcionários - que coincidem exactamente na simpatia partidária do PSD - andam a ser vigiados pelo temível adversário. Na verdade, o que se torna mais difícil de encarar, é o desvelar da clara existência de um elaborado sistema de escutas que decerto não é inédito. Mas alguém tem qualquer tipo de dúvidas acerca da preferência eleitoral de Cavaco Silva? Alguém questionou alguma vez o pendor de Soares e de Sampaio para o benefício do seu partido, o PS?

 

É esta a lógica da representação de Estado republicana. Quem agora parece não querer aceitar a inegável evidência, encontra-se no momento exacto para encontrar outras soluções. 

 

Soares desconfiou do governo e o governo desconfiou de Soares. Sampaio apoiou o seu governo, desconfiou do governo do "outro" e derrubou-o com uma penada. Cavaco desconfia do governo e o governo desconfia de Cavaco. Meias palavras, críticas indirectas, fiscalizações de constitucionalidade, protecção aos amigos e companheiros de viagem. A elaboração "daquilo que convém" num programa de governo, consiste apenas num detalhe técnico.

 

Tudo normal.

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publicado às 16:17


7 comentários

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De jornalodiabo a 18.08.2009 às 22:03

esta semana estão em destaque n'O Diabo.
Cumprimentos
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De Samuel de Paiva Pires a 18.08.2009 às 23:02

Em nome de toda a equipa aqui fica um sentido agradecimento à equipa do Diabo.

Cumprimentos
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De http://bacharelsocrates.blogs.sapo.pt/ a 18.08.2009 às 23:00

Existe um ditado antigo que diz :

"- Ò filha , vai chamando nomes feios ás outras, antes que elas revelem os teus!".

Esta tem sido a tática do PS.

Antes que a oposição faça o seu trabalho, lança estes distúrbios de informação para enquanto a oposição perde tempo a limpar a sua honra , não está a criticar o governo.

Deste modo o PS hábilmente tem marcado o calendário á oposição e esta tem-se submetido a cumprir á risca.

A oposição perde mais tempo a defender-se que a criticar o governo.

Assim invertertidos os papèis, Socrates brinca e faz da oposição o que quer.

Estes em vez de responder ás injúrias , deveriam contra-atacar com as verdades em vez de submissamente limpar a honra e o PS a sujar de outro lado.

http://bacharelsocrates.blogs.sapo.pt/
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De João Amorim a 19.08.2009 às 20:16

Tudo aparência. A presidência é um emprego. A "fatiota" é posta a preceito para o cargo. Já reparou no ar "bem-posto" dos empregados bancários? Os cargos republicanos também são assim, cheios de "marketing"...
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De Nuno Castelo-Branco a 19.08.2009 às 20:44

ehehehe, com um bocadito de sorte, até recebem um cheque da Fashion Clinic, ou uma prenda de visita à Capadócia.
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De KLATUU O EMBUÇADO a 22.08.2009 às 05:25

A imagem certa seria os Irmãos Metralha...
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De JMB a 24.08.2009 às 01:18

Excelente.

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