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UNIAO IBÉRICA, UMA VELHA MIRAGEM

por Nuno, em 20.08.09

 

 

         

 

Fala-se muito de independência nacional mas até que ponto a consolidação dos processos autonómicos em Espanha não é na realidade um perigo para nós? O mesmo modelo tem tentado ser imposto em Portugal continental com pouco sucesso. Este tem sido sempre um projecto querido da esquerda ibérica. No passado, em 1936, uma das bandeiras por que se batiam os republicanos espanhóis, foi a da criação de uma federação de republicas socialistas ibéricas com patrocínio de Moscovo.

Sempre a mesma solução política de 1580 no sentido de um grande Estado Ibérico.

O partido socialista espanhol foi desde o inicio, o principal arquitecto da criação das regiões autónomas. Igualmente vários importantes dirigentes portugueses (Mário Soares entre muitos outros)da esquerda tem discretamente desde o 25 de Abril, defendido uma solução política confederativa a nível peninsular. Tudo leva a considerar que o alargamento das autonomias em Espanha não se trata de um processo de dissolução, mas sim de reestruturação do Estado espanhol. Processo esse no sentido da criação de uma espécie de federação Ibérica tutelada por Castela, onde Portugal passando de républica a monarquia, se poderia calmamente integrar, mantendo ainda uma ilusória independência política e económica.

Madrid desta forma resolveria de uma assentada os problemas políticos no país Basco, abrindo simultaneamente a porta à integração de um Portugal empobrecido e dividido em termos políticos (pode-se até certo ponto estabelecer alguns paralelismos com o país em 1580). Nesta minha perspectiva existe provavelmente um acordo político entre os socialistas espanhóis e portugueses em torno deste objectivo comum. Isso poderia explicar o cavalo de batalha que tem sido para os socialistas portugueses a questão da regionalização. Esse projecto ajudará a cimentar novos sentimentos de identidade que se pretende que incluam as regiões espanholas fronteiriças, como a Galiza e o Norte de Portugal.

Esta poderá ser uma explicação plausível para a política dos governos socialistas espanhóis que tem sempre optado por seguir uma via oposta à dos sectores conservadores, que sempre foram contra as autonomias reginais por consideraram como valores sagrados, a defesa da coesão e unicidade de Espanha (por todos os meios necessários).

Na realidade no que concerne às nossas elites políticas, por detrás destes projectos grandiosos, escondem-se interesses económicos vários, entre eles a miragem do acesso a novos fundos de coesão devido ao subdesenvolvimento das regiões portuguesas. Portanto novas oportunidades de enriquecimento fácil para mais políticos pobres e ambiciosos. O que me suscita dúvidas é a ideia de que Madrid irá injectar dinheiro sem impor grandes reformas que viriam, como no passado, tornar aprejudicar os privilégios e interesses dos poderosos (como em 1640). Nessa altura voltaremos provavelmente a falar de independência nacional. Acho impensável e muito ingénuo acreditar que os Espanhóis iriam despejar dinheiro neste "saco roto" sem tentar combater a corrupção, desperdício e anarquia que imperam por cá. O sistema judicial teria de funcionar e as leis teriam de ser modificadas no sentido da maior severidade. Não se pode pensar que eles não sabem como as coisas funcionam por cá e do sentimento de impunidade que reina no seio de alguns grupos. Tenho ouvido por mais que uma vez, a pouca fé que se faz em Espanha na honestidade portuguesa. Uma nova união Ibérica poderá portanto muito bem ser uma ilusão e uma porta aberta a novos conflitos.

No entanto existe um aspecto interessante resultante da integração económica crescente entre os dois países, que é o de tornar ainda menos realistas e mais anacrónicos os projectos da extrema esquerda. Em que medida será actualmente e no futuro possível nacionalizar a banca e empresas portuguesas dominadas por capital estrangeiro? No caso duvidoso de vencerem as resistencias interna e externa, só restaria a possibilidade de criar um bloco económica com Cuba e com a Venezuela.

 

 

 

 

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publicado às 15:12


10 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 20.08.2009 às 17:01

João Carlos já tem dificuldades em entrar na cidade de Barcelona. Quanto mais Lisboa... Havia de ser interessante saber o que aconteceria aos políticos que propusessem tal coisa.
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De António de Almeida a 20.08.2009 às 17:57

-Não concordo com a totalidade do que afirma, mas no que toca às grandes obras, não posso deixar de afirmar que a aposta espanhola no TGV não passa por trazer passageiros de Madrid a Lisboa, mas aceder ao Atlântico no transporte de mercadorias.
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De Nuno Castelo-Branco a 20.08.2009 às 18:13

... e continuam a insistir na ideia de Lisboa/Sines serem os portos naturais da "Espanha". Uma história velha.
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De Ricardo a 20.08.2009 às 19:58

Caro senhor, a ideia de uma união ibérica é anterior à esquerda e sobreviverá ao PS e a todos os partidos ditos de esquerda em Espanha. Não é uma ideia pior ou melhor que a da União Europeia, mas infelizmente sobrepôem-se sempre as velhas e nefastas ideias imperialistas de Castela.

De resto, a invasão espanhola dos últimos anos tem sido feita pelo capitalismo e muito pouco pela esquerda.

Por outro lado, recorde-se que, desde há 3 ou 4 anos à espera do veredicto do Tribunal Constitucional sobre o Estatuto de autonomia da Catalunha, Espanha não é uma nação unida: É um estado e uma nação formado por várias nações.

Aliás a Catalunha, que tanto se queixa em Espanha de ser "roubada" por Madrid, é um dos actores mais fortes do imperialismo espanhol. Veja-se o papel da banca espanhola", mas também do Bilbao e Biscaia, da Caixa Galicia e do Santander na nossa economia.

Se quer saber quem são os maiores entusiastas desse iberismo, para além dos capitalistas do lado de lá da fronteira, dê uma olhada neste link e perceberá que não são nem esquerdistas nem republicanos.

http://iberistas.com/board/propuestas-de-union-iberica-propostas-de-uniao-iberica-f12.html

Por outro lado, é bom que tenha falado do bloco com a Venezuela e Cuba, mas também com a Argentina, o México, o Brasil e o Chile, todos eles repúblicas com muito mehores perspectivas económicas de futuro que Portugal ou a Espanha.

Aliás, esse é o nosso espaço, e não se pode negar. São centenas de anos de cultura e língua que nos unem, e se há um iberismo bom, é o cultural.
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De Nuno a 21.08.2009 às 16:10

Antes de partir para férias não queria de deixar de comentar as suas afirmações.
Não tendo sido muito claro na ideia que pretende transmitir, penso que concorda que os socialistas tem feito afirmações abonatórias no sentido de uma união entre os dois países. Que a ideia é velha já eu próprio o tinha referido no post em questão, mas desde o século XIX que é uma ideia da esquerda.
O que concluo do que diz é que a esquerda que eu refiro é uma falsa esquerda, ligada ao grande capital.
Não me vou imiscuir no que é a falsa ou verdadeira esquerda, no entanto concordo que a ideia serve os interesses do grande capital (expressão marxista) como aliás também refiro no post . No entanto é inegável que a ideia é partilhada pelos extremistas de esquerda (CDU e Bloco de Esquerda). Como deve saber a visão marxista da sociedade é horizontal e não vertical. As classes sociais são transnacionais, o conceito de Pátria e a Igreja são formas da burguesia enganar os trabalhadores. Portanto para a esquerda o nacionalismo sob todas as suas formas é uma ilusão.
Nada tenho contra o Iberismo , que eu penso é que é triste que passados mais de 700 anos de independência nacional, alguns defendam agora que Portugal não é muito viável. Existem tantos países de sucesso com a escala do nosso Bélgica , Holanda, Noruega, Suíça , Suécia etc ) e mesmo mais pequenos. Não acredito que a solução dos nossos problemas venha de fora.
Acho que as ideias da esquerda nas suas variantes moderada (PSD e PS) e extremista (CDU, Bloco de Esquerda) são grandes responsáveis pela situação de Portugal e dos demais países dos PALOP (chamo a sua atenção para um post meu de Dezembro passado sobre a economia portuguesa).
Podendo não concordar com as ideias da esquerda, até à queda da URSS, elas tinham alguma viabilidade prática, hoje são uma loucura e uma ilusão. O império colonial Português com todo o seu potencial económico e demográfico não sobreviveu contra tudo e todos, muito menos um Portugalinho " socialista seria viável em termos políticos e económicos. O que interessa é um Estado que coloque os interesses de TODOS em primeiro lugar, não só dos trabalhadores, dos pobres ou dos ricos etc . Curiosamente penso que a solução agora poderá ser afinal a da Rússia actual.
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De Ricardo a 20.08.2009 às 22:41

Desculpe o link anterior (mas também serve). O link que demonstra bem quem são os iberistas espanhóis é este:

http://hispanismo.org/portugal/
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De camaradita a 25.08.2009 às 16:50

Não concordo com o que escreveu sobre Mário Soares. Não é verdade.

Excertos de um artigo de MS no "DN" de 4/3/08:

"Portugal é um Estado-Nação. Quer isto dizer que a Nação coincide em absoluto com o Estado. ao contrário do que acontece com a nossa vizinha Espanha, que é um Estado com diversas nações, isto é: com territórios bem demarcados, línguas próprias, histórias e costumes diversificados. Embora após a Constituição democrática de 1978, as quatro nacionalidades históricas de Espanha, anteriores à Guerra Civil de 1936-1939 - País Basco, Galiza, Catalunha e Castela - , fossem envolvidas num sistema constitucional que reconhece 17 autonomias - para iludir a velha questão que agitou os séculos xix e xx".

"(...) Em Portugal, com uma realidade unitária bem diferente da espanhola, nunca se pôs uma tal questão. Mesmo quando, depois da Revolução dos Cravos, a Constituição de 1976 reconheceu duas regiões autónomas de governo próprio, nos arquipélagos dos Açores e da Madeira, dada a distância que as separa do Continente".

"(...)Vem isto a propósito da identidade de Portugal como Estado-Nação desde 1140, que é três séculos anterior a Espanha, como tal, só assim chamada depois do casamento dos Reis Católicos, Fernando e Isabel, e da conquista do Reino de Granada, aos mouros (1482)".

Cumprimentos
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De Nuno a 29.09.2009 às 12:50

Só agora passado tanto tempo respondo ao seu comentário, estive ausente por mais de um més.
As citações que refere não contradizem em nada o que eu disse e não são uma novidade. A ideia das cúpulas do PS e do Mário Soares é a de que a solução politica mais favorável para a península ibérica seria a criação de um Estado multinacional com autonomias bem definidas em que Portugal com estado nação se integraria a par de uma Catalunha ou país Basco.
REUMINDO, os dirigentes do PS não negam algo óbvio, que Portugal é um Estado Nação com uma identidade antiga e marcada, mas que essa não é incompatível com uma solução politica unitária com um Estado Espanhol multinacional que a respeite.
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De rui de brito a 03.11.2009 às 00:44

Muito bom. Porém, estamos a caminhar para uma guerra civil europeia que talvez leve a recuperar soberanias !
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De Pedro a 08.10.2014 às 19:00

Quanto ao iberismo ele é uma agenda intrínseca em qualquer governo espanhol desde 1640 no mínimo, já para não falar quando Filipe II comprou literalmente a alta nobreza portuguesa antes da célebre batalha de Alcácer Quibir e terem deixado D. Sebastão ter ido para uma batalha tão importante sem ao menos se terem assegurado que ele teria engravidado alguma nem que fosse lá da corte ou fora dela, porque até um bastardo serviria para manter a casa real sob domínio.<br />A agenda está lá o que muda é o modus operandi da estratégia, desde apoio declarado aos absolutistas de D. Miguel contra os liberais de D. Pedro V, que renunciou ao cargo de imperador do Brasil para vir empreender essa luta, passando pelas influências anarquistas e comunistas que proliferavam na guerra civil espanhola e que fomentavam essa ibéria, passando pelo próprio Franco que nas costas de Salazar lá tinha as suas ideias, embora tenha sido o próprio Salazar que o apoiou na guerra civil, e até no pós 25 de Abril de 74, houve a tendência de Franco invadir Portugal sob o pretexto do perigo de se instalar o comunismo na península ibérica, com isso tentou convencer os americanos a dar-lhe apoio para essa intervenção, mas quer os militares portugueses que já tinham previsto essa acção e quer os americanos que desaconselharam Franco a essa acção.<br />No pós 25 de Abril a estratégia foi-se refinando, começando por difundir em certos meios nomeadamente nos EUA, nesse país a Espanha tem uma forte influência devido às comunidades hispânicas e nem o lobby açoriano consegue fazer frente, nem mesmo tento congressistas descendentes de açorianos no congresso e até no próprio governo americano, de facto a única região do globo por incrível que pareça onde a Espanha tira dividendos, fora a América hispânica é os EUA, aos americanos interessa-lhes porque a Espanha contém sempre qualquer insurreição da grande comunidade hispânica naquele país de formar um estado dentro dos EUA, portanto jogam com essa necessidade dos americano e também pelo controle do México.<br />Justamente essa influência espanhola nos americanos fez com que sistematicamente se associasse Portugal a uma região de Espanha, é claro que só os americanos faziam essa confusão, mas ela esteve patente até há bem poucos anos na sociedade americana, essa estratégia visava retirar a auto-estima vinda de fora ao povo português, para que chegasse à conclusão de que estariam melhor dentro de Espanha, esse modus operandi servindo de base nos EUA manteve-se até à entrada dos dois países na CEE.<br />Após a entrada e curioso que embora as negociações de Portugal para a entrada estivessem bem mais avançadas, tivemos que esperar que Espanha nos acompanhasse e entrássemos ao mesmo tempo, os europeus lá sabiam porquê.<br />O modus operandi volta a mudar e a Espanha vai empreender um processo lento e subtil, servindo-se de várias armas, a universitária pelo cativar das nossas elites a difundir o iberismo, a económica por intermédio de grandes instituições a controlar a elite política nomeadamente que foi iludida e comprada, disso temos a entrada da Telefónica na PT e posteriormente no mercado brasileiro por vias dessa estratégia, e que deu grandes frutos, a Telefónica se aprestar a ser o maior player de telecomunicações no Brasil e a PT arrisca-se a desaparecer do mapa brasileiro e português caso o estado não ponha já a mão no processo, portanto um clara derrota para o interesse nacional em toda linha, cultural pelo instituto Cervantes que vem labutando a implementar essa agenda, e o mais nefasto é a implantação do grupo Prisa que controla grande parte da média portuguesa, analise-se um certa cadeia de televisão detida por esse grupo que praticamente, desdenha tudo o que deveria ser orgulho nacional, os seu comentadores dizem amen a tudo o que cheira a Espanha e até transmitiram em directo non stop as cerimónias de coração de Filipe VI, non stop sendo o único canal com exclusivo para esse efeito.

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