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Ídolos dos nossos pobres republicanos

por Nuno Castelo-Branco, em 25.08.09

 

Andamos há décadas a ouvir e a pacientemente ler todo o tipo de dislates, chacotas e até, vulgaridades a respeito dos monárquicos e dos representantes da Casa Real. Por vezes, os textos e ditos encerram aquela qualidade literária ou o humor próprio daqueles que informados, conseguem fazer prevalecer a paixão ideológica bem fundamentada em princípios, por muito contestáveis que sejam*. No entanto, na maior parte das vezes têm origem no chão preconceito, na demagogia de vão de escada ou no despeito pessoal. Pois bem, a paciência começa a esgotar-se e assim, não faltando ao respeito que qualquer bípede merece, já é tempo de começarmos a tornear os silêncios oportunos que na nossa sociedade impedem a clara manifestação de um grito há muito esganado nas gargantas: o presidente vai nu!  Brado tão mais reprimido, porque destinado a uma infinidade de sucessórias e interesseiras vacuidades, erguidas ao altar de beneméritos pátrios por mero convencionalismo da forma de representação do Estado. 

 

Todos já percebemos a existência de uma constante e profunda antipatia relativa ao senhor Aníbal Cavaco Silva, com raízes fundas e velhas de um quarto de século. Se se tratassem de meros reflexos pessoais, pouco interessaria, pois todos nós por vezes antipatizamos com alguém, sem que para isso encontremos uma explicação plausível, lógica: é o humano direito à ocasional patetice.

 

No caso de um homem do Estado, a situação deverá ser bem diversa. Interpreto o seu habitual mutismo como flagrante vazio, assim como a sua circunspecção consiste em  algo bem diferente e distante da ponderação do estadista, encontrando-se bastante mais próxima daquilo a que vulgarmente se designa de reflectida (?) manha. A aparência austera nada transmite a não ser uma certa frieza ou pior ainda, uma nítida sensação de perda no meio de um mundo que não é o seu. Falta de conhecimento geral, de procura e abertura de espírito, enfim, daquelas luzes necessárias à perfeita compreensão do papel de um cargo para o qual não serve. A sua passagem pelo governo foi marcada por uma infindável lista de erros, onde as más opções numa certa ideia de desenvolvimento caboucada em exemplos dos anos trinta, caminharam na sociedade civil, de braço dado com todo o tipo de manobras evasivas da legalidade e até - o que é mais importante -, da decência: foi a época dourada dos evaporar de fundos europeus que visariam a formação profissional que não aconteceu; foi um período de desperdício  em opções que mais não fizeram senão alimentar o Moloch da especulação imobiliária, destruindo o território, suburbanizando as principais cidades e despovoando os campos; de cedência em cedência, consagraram-se os antigos erros  que provêm do mito de uma "agricultura industrial" e que ao invés do apregoado ao crédulo eleitor, despovoou os campos, eucaliptalizou o país e desferiu o golpe fatal num sector que há muito manifestava o irreversível declínio logo exemplificado por velhas "campanhas do trigo", de cariz marcadamente fascisto-soviético. Consistiu esta, numa política intencional de cobertura do disparate e do abuso. Cremos que  não, mas a solidariedade de clube condescendeu com o inaceitável. Permitiu a instalação de um certo sentimento de impunidade para a prossecução de todo o tipo de negociatas e de abusos e a imprensa do tempo é um alfobre de exemplos de desfaçatez e grosseira investida em direcção a um enriquecimento a todo o custo e à custa fosse de quem fosse. Dentro da sua própria administração e círculo de alegada confiança, saíram para os escaparates dos jornais, alguns dos mais ribombantes escândalos de imprensa de que há memória. 

 

Normalmente visto como pouco esclarecido, o moderno tecnocrata sempre cedeu à fatal síncope do apoio aos componentes das suas hostes, mesmo quando perante embaraçosas e inegáveis evidências, aliás facilmente contabilizáveis por uma breve consulta aos periódicos de então. Neste actual regime de censura por omissão, muitos assuntos acabam por desaparecer na confusão do noticiário desportivo, nos grandes medos pandémicos ou no limbo do fait-divers oportuno. Nas reuniões europeias, diz-se que os seus pares o consideravam como um estranho e até Tatcher, a apontada ou reivindicada preceptora, partilharia dessa pouco tranquilizadora opinião. 

 

Ao contrário daquilo que quer fazer transparecer, sempre parece ter sido e ainda é um homem do Partido. No momento da sua primeira campanha presidencial e antes da derrota face a Sampaio, designava os seus correligionários como ..."esse partido", exactamente a mesma agremiação política que até há tão pouco tempo encabeçara como inconstestável chefe. Ao longo da aparente travessia de um deserto povoado de crises internas, apoio ou silêncio dirigido aos seus sucessores num cargo que afinal sempre foi o seu in absentia, promoveu alguns daqueles que o serviram - Barroso - e ajudou à destruição de outros. O caso do governo de Santana é paradigmático de uma certa forma de afastar escolhos num caminho de ambição que desembocou nesta mera vanitas, tão estéril como o próprio conceito impõe. Negócios, "oportunidades habilidosas" que surgem em breves e logo esquecidos noticiários, protecções duvidosas a escusas gentes, preconceitos enraizados mas deficientemente escondidos atrás do biombo da dúvida. Eis em resumo, o palmarés que fica de toda uma ideia daquilo a que ao tempo se designava por cavaquismo. Não era o homem que se apontava, mas uma praxis.

 

Este diploma há horas vetado, parece ter chegado num momento pouco propício. É certo, mas há que ter em conta que em Portugal é necessário pedir-se tudo, para que se obtenha uma migalha. Ontem, em mais um episódio da guerrilha pré-eleitoral, Belém confirmou a certeza que todos - amigos ou adversário políticos - têm acerca da função presidencial. Não conhecendo nem se interessando minimamente pela história dos seus e muito menos ainda, pelos flagrantes  e numerosos casos de injustiça que grassam em Portugal, mais um veto surgiu. A Constituição garante-lhe esse direito, mas consiste num veto que em muitos casos, premeia aqueles que marginalizaram os próprios familiares. Carece o diploma, de "mais debate, de mais estudo e análise da realidade". Com certeza, todos concordam. No entanto e dadas as circunstâncias do momento político, tal atitude presidencial nada mais é, senão um lateral episódio da guerra eleitoral que se avizinha e que pretende de antemão, estabelecer um balizar da futura legislação. É um veto que cerceia a liberdade de escolha de quem decide viver como bem entende. Disfarçado de seráfica necessidade de ponderação, é um veto que arrasa diante da sociedade, o conceito que esta poderia ter acerca de relacionamentos que têm décadas e são exemplos de dedicação e fidelidade, fazendo desvanecer velhas fotografias de eventos casamenteiros, onde a harmonia foi desde cedo atirada fora, a exemplo do bouquet nupcial. No fundo, o que está em causa, é uma vez mais, o destino do "vil metal", da herança e da partilha. É em suma, a consagração do atraso, dos velhos hábitos e da exclusão dos "indecentes". A tal antiga mania coscuvilheira de interferir em casa alheia, própria de uma sociedade temerosa do espiolhar da sua casa e do santo ofício moderno, ou seja, da ida à carteira e conta bancária.  Espírito este que mescla a herança aldeã semi-analfabeta, com o arrivismo agressivo do suburbano novo-riquismo enxertado naqueles tempos que caracterizaram um certo consulado e foi dado como exemplar pelos há muito esquecidos yuppies com "processos em fase de instrução".

 

O mandato presidencial, parece estar ainda muito longe do seu fim. Há então que ter paciência e aguardar pelo caminho que falta percorrer. É vergonhosa a condenação injusta e decerto ninguém no seu perfeito juízo pretenderá participar em apressados julgamentos de carácter, facto que infelizmente grassa na nossa sociedade. Respeito pelas instituições. Com certeza. Respeito pela esfera pessoal e apenas estritamente pessoal dos seus detentores? Evidentemente. Nada disto se põe em causa.

 

Mas não nos peçam mais, porque dadas as circunstâncias, devemos exactamente o mesmo tipo de respeito ao senhor da mercearia. Esse sim, fornece-nos produtos nacionais, de qualidade garantida e ao preço certo. Sem necessidade de cotação bolsista, como convém.

 

 

 

 

*O Tiago Ramalho não é propriamente um qualquer, daqueles que encolhe os ombros e parte para uma rave. Interessa-se e informa-se e assim, o seu texto nada mais é, senão uma excentricidade que contraria a regra a que já nos habituou.

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publicado às 11:11


7 comentários

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De Daniel João Santos a 25.08.2009 às 12:28

Pobres republicanos...
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De António de Almeida a 25.08.2009 às 15:22

Caro Nuno

Desta vez estou em desacordo consigo, apesar de lhe reconhecer razão no que afirma, acontece que também já vivi, durante curto período, em união de facto, mais tarde até casei, mas fi-lo apenas quando entendi, e permita-me, será que estamos obrigados a assumir um compromisso, quando não o queremos fazer? Posso garantir-lhe no meu caso, que ao fim de três anos ainda eramos completamente independentes, cada um possuia a sua conta bancária, tinha o seu emprego e pagava os seus impostos, pergunto eu, porque raio haveria de ser solidário para com as dívidas que a outra parte, ou vice-versa, pudesse contrair, se para tal efeito nem era necessário dar conhecimento de tal existência à outra pessoa? Também percebo que existem relações com 20 anos, e mais, nesta situação, mas esses podem sempre casar, já quem entende querer viver com alguém sem compromissos, fica confinado a quê?
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De Nuno Castelo-Branco a 25.08.2009 às 15:27

António, como bem sublinhei, creio que a lei precisa de ponderação. O momento foi aproveitado para servir de argumento eleitoral dos pró e dos contra. Mas o que se torna evidente num certo sector - e disso tenho a certeza quase absoluta -, é a intenção de tudo torpedear para continuarmos na mesma. Esta é a costumeira política nacional. Já era altura de aprendermos qualquer coisa.
Em suma, atrás do veto com plausíveis explicações de calendário e de conteúdo, está o fica-pé. Inaceitável. Conhecendo o sr. Cavaco como conhecemos, percebe-se bem...
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De António de Almeida a 25.08.2009 às 16:46

Não foi minha intenção defender Cavaco Silva, votei nele nas últimas presidenciais, que a alternativa era bem pior, também fui seu apoiante em tempos, andei na campanha em 1987, em 1991 limitei-me a votar, foi um tempo de ilusões e expectativas, mas como muito bem descreveu, nada se concretizou. Infelizmente os que lhe sucederam não fizeram melhor, aliás, tem vindo sucessivamente a piorar...
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De ariel a 26.08.2009 às 10:36

Caro Nuno Castelo-Branco, ou eu não sou de esquerda como me julgo (será possível que ande confundida...?.) ou este país tem mais desonestos intelectuais do que seria de esperar. Estou assombrada pela sua análise, relativamente a Cavaco Silva e às suas sucessivas prestações, que subscrevo e com a qual me identifico inteiramente. Só tenho pena de ainda não ter visto uma análise com este rigor em ninguém da esquerda de que me reivindico.
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De Nuno Castelo-Branco a 26.08.2009 às 11:51

Ariel:

Creio que esta sucinta análise peca por defeito. Muito mais há para dizer.

Quanto ao facto da esquerda e da direita, tenho a absoluta certeza da existência de boa gente nestes quadrantes. Gente que pensa no bem comum, que não é egoísta e interesseira. Há que demolir o preconceito clubístico.

Temos um problema grave, ou seja, a dependência face a quem paga. Nisto, a esquerda e a direita andam de mãos dadas. A censura existe: chama-se omissão.
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De ariel a 26.08.2009 às 20:32

..."a dependência face a quem paga". Está coberto de razão. Eu às vezes sinto-me um ovni. :))) Obrigada pela sua resposta.

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