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O sótão das arrumações

por Nuno Castelo-Branco, em 09.09.09

 

 

O facto de alguém não ter qualquer intenção de votar num dos partidos do sistema, oferece-lhe a oportunidade única de proceder a uma análise imparcial dos debates para as legislativas.

 

Ontem à noite, o primeiro-ministro foi de longe, o vencedor num frente-a-frente que todos adivinhavam difícil, senão massacrante para o mesmo. Sócrates deve ter visionado outros debates nos quais o sempre aguerrido e provocador Louçã acabava por vencer, mercê da habitual catadupa de alegações, escândalos isolados - uns verdadeiros e outros imaginados, mas que fazem o todo - e apelo à básica inveja, sentimento de impotência e recalcamento que minam uma boa parte de uma sociedade cada vez mais empobrecida. Como dizíamos aqui e aqui, o BE é hoje uma emulação aparentemente contrária do Front National de Jean-Marie Le Pen, mas copiando-lhe a táctica e a estratégia tendente à conquista de posições. Seguindo a velha cartilha dos totalitarismos dos anos 20 e 30, o populista Conducator Francisco Anacleto Louçã tem o verbo fácil e aquela  ousadia que o Dr. Goebbels tornou universalmente conhecida, ao repetir até à exaustão, suposições que se tornam indesmentíveis verdades num mundo que bastas vezes é apenas ficção criada pelo chefe extremista.

 

O primeiro-ministro parece ter compreendido aquilo que apenas a actual falta de cultura política dos nossos dirigentes deixava passar por timidez, ou pior ainda, devido a uma enraizada cobardia ditada pela coacção moral,  arcaica de quarenta anos. Sócrates leu o programa do BE que no essencial, não será diferente daquele que os progenitores desta coligação - a UDP e a LCI (PSR) - propunham desde 1975. Na verdade, Louçã é um dos dirigentes mais vulneráveis à derrota em qualquer frente a frente com todos os outros chefes partidários, à excepção do simpático, prudente e rígido Jerónimo de Sousa, aliás incapaz - justiça lhe seja feita - da acintosa grosseria do seu detestado e rival companheiro de leninismo.

 

O chefe socialista apercebeu-se do essencial, ou seja, do sempre procurado objectivo de esmagamento da classe média - a famigerada burguesia -, passo primeiro para a conquista do poder total. No entanto, fica no ar a sensação de tal luz ter surgido da leitura das compilações contabilísticas e não do conhecimento da história e dos fundamentos ideológicos do universo comunizante. Sócrates não conseguiu ir mais além do que um apontar o dedo à "esquerda radical" e permitiu que Louçã tivesse ousado denominar-se como "um socialista". O Conducator do BE é um comunista dito trotsquista, a facção do PCUS derrotada pelo matreiro José Estaline e que para a história ficou como uma desvanecida possibilidade de uma diferente URSS. No essencial, a vitória do sr. Leon Trotsky pouco ou nada alteraria na construção totalitária do poder do Partido Comunista e apenas a patine intelectual emprestada pelo cosmopolita Bronstein faria a diferença. Uma marginal questão de imagem, habilmente orquestrada e branqueada num Ocidente bastante hipnotizado pela propaganda coactora da razão. Se a Louçã questionarem frontalmente se é um comunista e qual a sua opinião acerca da revolução soviética, não existirá a mais remota hipótese de fuga. O tergiversar apenas confirmará a verdade que no fundo, todos conhecem.

 

A obsessão que Louçã professa pelo aniquilar do sector bancário, obedece ao respeito canónico pelo pensamento de Lenine.  Na lógica da economia de mercado - o capitalismo a abolir -, o crédito deverá ser controlado pelo poder central, ou melhor dizendo, por aquilo que em sentido lato se designa por Partido. A táctica quase mitológica da conquista do poder por etapas - impossibilitada a "revolução" por um hoje bastante imaginário "proletariado" -, prevê o condicionamento estrangulador de todos os sectores da economia, através do simples recurso á secagem do manancial financiador da iniciativa. No nosso país, tal aconteceu logo após o 11 de março de 1975, quando a banca nacionalizada, possibilitou a  sucção dos seguros, da indústria e de boa parte do sector agrícola. Concentracionariamente controlados pelo Estado que se concebia como a face oficial do partido "do povo", os sectores de actividade viam-se despojados dos empresários, financiadores capitalistas e daquela essencial camada intermédia que organizava a produção e viabilizava o crescimento. Liquidada pela ruína, a economia capitalista passava então para a fase de adequação à quimera do Plano, essencial à padronização "por baixo" de toda a sociedade, agora refém de um ultra-minoritário sector de privilegiados "condutores das massas em direcção ao socialismo". 

 

O que se torna espantoso é o facto de nenhum dirigente - o culto e informado Paulo Portas incluído no rol - ter jamais confrontado o sr. Francisco Anacleto Louçã com o seu passado sempre tão orgulhosamente presente. O programa do BE é simples, linear e tão previsível como as fases da Lua. Uns arremedos de liberalismo da moda - as questões fracturantes que posteriormente se aniquilariam na fase de consolidação do poder e em nome da moral proletária,  tal como aconteceu na URSS, satélites do Leste, China -, servem perfeitamente para abstrair o eleitorado do núcleo duro do verdadeiro e disfarçado programa: a economia e finanças.  Louçã já imagina um país submetido ao ditame da concessão do crédito em troca da obediência e o actual estado de coisas na China aponta uma remota, mas possível via para o sucesso. De nada servirão as realidades teimosamente ditadas pelo diminuto poder de autonomia que um Portugal económica e territorialmente definhado hoje apresenta. Sonhando com a autarcia que se torna na derradeira possibilidade para um absolutismo que ainda parece ter algumas hipóteses de vigência noutras paragens de atraso social e económico  - Cuba, Coreia, Venezuela, etc - , os dirigentes do BE adoptam a pose burguesa que provisoriamente tranquiliza os da "sua classe" e elimina a inevitável suspeita que afasta o eleitorado. 

 

Pode ser  muito fácil derrotar Louçã, se houver a vontade de obter uma vitória clara, obrigando-o a dizer o que realmente pensa, quer e está escrito em páginas que testemunham uma caminhada ao longo de mais de trinta anos e impossível de esconder.  A incógnita consiste afinal, na preparação que cada dirigente terá do conhecimento da história - aquela famigerada factual serve perfeitamente -, a essencial e impenetrável armadura que garante um êxito que de tão fácil, remeterá o agressivo aspirante a ditador para o sótão das arrumações.

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publicado às 18:17


8 comentários

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De Samuel de Paiva Pires a 09.09.2009 às 19:21

Brilhante
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De Anónimo a 09.09.2009 às 19:57

"Se a Louçã questionarem frontalmente se é um comunista e qual a sua opinião acerca da revolução soviética, não existirá a mais remota hipótese de fuga. O tergiversar apenas confirmará a verdade que no fundo, todos conhecem."

Parece que já perguntaram isso ao Anacleto e ele era "contra"..Alías basta ver as opiniões de bloquistas como o Daniel Oliveira e Miguel Portas sobre a URSS para perceber a diferença entre o BE e o PCP, os primeiros manifestam-se - na esmagadora maioria dos casos- contra o regime comunista da URSS os segundos continuam a defender o indefensável...

É verdade que o sr. Louça é de uma esquerda a sério ou extrama, se preferirem, mas algumas das propostas fiscais e economicas que ele defende já foram apresentadas por Vital Moreira, Bagão Felix e o próprio Socrates.

Para terminar deixe-me dizer-lhe três coisas:

1º - Não nutro a minima simpatia por Louçã
2º - Não vou, tal como o sr., votar em ninguém, mas dizer que isso me torna imparcial para fazer comentários é um engana-meninos!
3º - Escreva um artigo deste género sobre o Paulo Portas, vai ver que ele é um Louça virado do avesso e poderá testar a sua imparcialidade...

Cumprimentos,

Jorge Cardoso Fernandes
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De Nuno Castelo-Branco a 09.09.2009 às 20:23

Bom, de uma coisa estou seguríssimo: das certezas ideológicas do sr. Louçã e do programa - nem sempre visível - para um "refazer" da política e da economia que o dito líder perfilha. As propostas, as mais moderadas que vão ao encontro de Vital, bagão e Sócrates, consistem apenas no intróito para o que é verdadeiramente sólido e imprescindível: a liquidação da iniciativa privada, através do condicionamennto pelo crédito. é que hoje em dia, tornou-se cada vez mais difícil, proceder à estrita obediência da dita cartilha leninista e o BE, sem qualquer dúvida soube adaptar-se. aliás, no último debate Louçã/Portas, a máscara politicamente correcta foi seriamente abalada com pouco veladas insinuações relativas ao seu adversário. caíram mal e as pessoas não se esqueceram. Ou desconhecerá porventura, o cariz muito conservador desse sector político quando está no poder?
Daniel Oliveira e Miguel Portas, ambos antigos militantes de décadas do PC. Enfim, não sabiam eles por onde andavam quando todo o planeta tinha o pleno conhecimento da real situação e da história do regime soviético? Como? Ou acordaram subitamente após o colapso do mesmo e a consequente impossibilidade de subida ao poder via PCP? O dinheiro, sempre o vil dinheiro a condicionar tudo e todos!
Os textos que o D. Oliveira e o M. Portas periodicamente publicam nos órgãos de comunicação social, vão sempre no sentido da contemporização para com tudo aquilo que a nossa sociedade - dita democrática - rejeita. O antijardinismo, por exemplo, é muitíssimo mais virulento que a crítica a Chávez, Ahmadinejad, etc. Kadhafy e Assad, por exemplo, são olhados com a condescendência que todos conhecem e nem sequer vale a pena falarmos na contínua desculpabilização do terrorismo proveniente de um certo sector "religioso". Encontro de culturas, dizem eles... Pois sim!

Vamos ao Paulo Portas. O discurso do chefe do PP é absolutamente consentâneo com todos os outros proferidos pelos seus émulos europeus, desde Merkel aos conservadores britânicos. sabemos ao que vem e o que pretende e mais, qual a exacta base do seu eleitorado. Engana quem? Nem sequer chega a ser "tão conservador" como os seus colegas do PP espanhol, visto Portugal ainda reger-se pelos condicionalismos históricos do período de 1974-76. Ou acredita, sinceramente, que o Paulo Portas é um candidato a ditador ao estilo de Mussolini? Impossível.

O PC vive hoje da saudade e é sem margem para dúvidas, mais sólido que o BE. Bastará verificar a sua implantação autárquica e o poder nos sindicatos. Não me admiraria muito se o voto útil, a existir, fizesse regressar ao PS umas boas dúzias de milhar de votos do BE. A ver vamos, quem sabe? O debate de sábado será decisivo. Se MFL se sair bem, "bad news" para o sr. dr. Louçã.
Mas neste tempo de incerteza, qualquer previsão será idiota. as últimas eleições assim o dizem.
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De Anónimo a 09.09.2009 às 23:39

O Paulo Portas é um populista, tal como o Louçã, era aí que eu queria chegar...
Quanto ao Daniel Oliveira e ao Miguel Portas terem sido do PC e não saberem o que andavam a fazer é uma coisa, infelizmente, comum no panorama politico português..Do outro lado da "barricada" podemos encontrar um Adriano Moreira (que esteve no CDS) ou um Veiga Simão, por exemplo...Casos claros de gente que acordou subitamente após o colapso da ditadura em Portugal. Isto para não falar no caso do Dr. Freitas do Amaral que, como diz o Exmo. Marquês de Fronteira também não sabia o que andava a fazer e "acordou para a política aos 31 anos"...Enfim, os extremos tocam-se e no fundo amam-se!!!

Jorge Cardoso Fernandes
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De José António Abreu a 10.09.2009 às 12:05

Excelente. O Bloco e Louçã têm subido à custa da complacência da comunicação social, de uma ideia distorcida do que é 'cool' e do que não é, e da incrível falta de capacidade dos políticos do PS, PSD e CDS para lhes desmontarem a retórica populista e exporem o que está por baixo. Esperemos que os tempos tenham começado a mudar mas há muita gente que recusa ouvir mais que frases grandiloquentes.
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De João Pedro a 10.09.2009 às 17:43

Mauzinho em chamar-lhe Conducator, Nuno. É que Louça não tem grandeza para tal. E como me dei conta nos últimos dias, as duas figuras que usaram esse título acabaram varadas pelas armas.
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De Nuno Castelo-Branco a 10.09.2009 às 18:21

... não me diga, João Pedro...!
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De Nuno Castelo-Branco a 10.09.2009 às 18:26

Ok, Conducator é demais, João Pedro. E que tal Fuehrer ou Duce?

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