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MFL, Portas e Louçã

por Samuel de Paiva Pires, em 12.09.09

Do debate de Manuela Ferreira Leite com Paulo Portas, parece-me que há a ressalvar a defesa do indefensável por parte de MFL. Alberto João Jardim pode ter repetidamente excelentes resultados nas eleições regionais, mas isso não significa que a Região Autónoma da Madeira seja verdadeiramente democrática. MFL revelou a falta de conhecimento quanto à teoria e prática da democracia, legitimando-a com base apenas nos resultados das eleições. A isso chama-se democracia eleitoral e/ou iliberal. Para quem não saiba o que é, perguntem a Hugo Chávez.

 

Do debate de ontem retive algumas ideias que me parecem essenciais para entender os postulados que o Bloco de Esquerda defende. Logo a começar, Louçã fugiu à pergunta de Portas sobre a forma como conduziria as tão propagandeadas nacionalizações, nada referindo relativamente aos investidores estrangeiros e às indemnizações que teria (o contribuinte) que pagar. Nada referiu ainda em relação aos cerca de milhão e meio de pequenos investidores que têm participações na EDP ou na GALP. Louçã com o dinheiro dos outros era até fartar vilanagem!

 

Fugiu novamente à questão que Portas lhe colocou relativamente à nacionalização das patentes dos projectos de investigação científica. Na prática isto seria não reconhecer o mérito dos talentos que (ainda) temos em Portugal, impelindo-os a sair do país.

 

Quanto ao racismo social, de que dei conta aqui, a desculpa de Louçã para não fiscalizar os abusos na atribuição do RSI prendeu-se essencialmente com os abusos que se verificam na atribuição de subsídios à agricultura ou nas baixas médicas. Ou seja, só porque uns abusam, vamos deixar abusar todos, é isso não é? Entretanto continuamos a ter pessoas a viver em casas com rendas irrisórias, a receber o RSI e a ter actividades legais e/ou ilegais que lhes permitem ter grandes carros e outros sinais exteriores de riqueza, enquanto ao lado continuam pensionistas e reformados a viver na miséria, é isso não é? Fico sempre espantado de cada vez que oiço os argumentos bloquistas, não haja dúvida. Esteve bem Paulo Portas quando apontou as diversas medidas de apoio social criadas por governos de direita, desmontando o falacioso lugar comum de que a esquerda é que "tem o monopólio do coração e da solidariedade".

 

No tema que se seguiu, imigração, viu-se um Louçã desconhecedor das indicações provenientes de Bruxelas, e um Portas pragmático de acordo com essas mesmas recomendações. Em resumo, é necessário regular a imigração em função das oportunidades de trabalho e da exigência de deveres dos estados de acolhimento para com esses imigrantes, i.e., propiciando-lhes dignas condições de vida. De resto, esta política  vai de encontro ao que estados como o Canadá e Austrália praticam de há vários anos a esta parte.

 

O debate finalizou com o tema da segurança. Louçã defende uma polícia de proximidade e de integração na comunidade, embora esteja contra o aumento de efectivos e acredite na socratista teoria da melhor organização, assente na transferência de agentes que estão afectos à burocracia das forças de segurança para o terreno. Como apontou Portas, muitos já não têm idade para ser operacionais. São, por isso, necessários mais efectivos, e leis mais firmes no combate à criminalidade, especialmente quanto à reincidência.

 

Agora falta aguardar pelo último debate antes do início formal da campanha. Ou muito me engano, ou Sócrates vai sair a ganhar do embate com MFL.

 

(também publicado no Novo Rumo)

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publicado às 16:24


1 comentário

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De Nuno Castelo-Branco a 12.09.2009 às 19:44

Não retiro uma única vírgula (a menos que seja para corrigir o meu sofrível português) ao que disse num post de há uns dias, O Sótão das arrumações.
Louçã tenta fazer-se passar por um pragmático, coisa que não é.
Como será possível ser um país do Ocidente, governado por gente que se situa nos antípodas do padrão europeu - a "sociedade liberal" - e que procura sempre manifestar-se contra todas as regras aceites daquilo que é o sentido de Estado?
Por exemplo, bem ao contrário do PCP , cuja aprendizagem histórica é velha de 80 anos, o BE desrespeita as mínimas regras de cortesia. Quando da visita do rei de Espanha - o pai da democracia espanhola -, os deputados do Bloco retiraram-se ostensivamente da sala, tal como fizeram insultuosamente em relação ao presidente angolano, que, quer queiramos ou não, é parte da "nossa família". Esta gente é sumamente idiota, arrogante e completamente imprestável, estando agarrada a um projecto vencido pela história e pela luta das gentes pela dignidade e liberdade individual e colectiva. nada de ilusões. O BE no governo seria um desastre, a menos que se adaptasse à realpolitik, coisa difícil, a crermos na "imaculada coerência" do Conducator Louçã. É que para ele, os piores crimes contra o seu semelhante são justificáveis à luz de uma ideologia pretensamente redentora. E do contrário ninguém me convence!

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