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A vez do apito laranja

por Nuno Castelo-Branco, em 29.09.09

 

 

Como dizia o meu amigo Miguel Netto num comentário ao post das 17.00 horas, o que está a acontecer entre a presidência e o governo, é inerente ao próprio regime.

 

No passado Domingo, Cavaco foi votar, foi tomar partido. Conhecendo a personalidade, sabemos em quem votou e porque o fez, aliás no seu pleno direito. Soares fez o mesmo, assim como Sampaio. Cada um deles vota e escolhe o partido dos seus, aquele que o alçou à magistratura e lhe fornece os necessários e muito numerosos assistentes que o coadjuvam nas funções.

 

O actual residente de Belém confirmou tudo aquilo que a controvérsia lhe aponta. Manifesta a suposição de insegurança, ao ter encontros com gente que lhe garanta a blindagem do seu equipamento electrónico, seja ele qual for.  Não desmentiu categoricamente as palavras proferidas pelo sr. Lima - que falou "em nome do presidente" .e apontou o dedo ao partido do governo.

 

A república é isto e fatalmente iremos conhecer de forma desabrida, o mesmo tipo de conflitos que sujaram durante mais de uma década, a necessária decência que não existiu, por exemplo, entre Mitterrand e os governos eleitos pela direita francesa. Os portugueses não estão habituados a este tipo de esquemas palacianos e pelo contrário, desprezam-nos visceralmente. A imagem que ficou no imaginário popular, foi aquela deixada pela imparcial - por vezes salomónica - Monarquia.

 

Ainda que de uma forma sofrível, Soares soube disfarçar a hostilidade que votava ao seu 1º ministro Cavaco Silva. Sampaio foi aquilo que se sabe. Cavaco, sendo de direita, não beneficiará daquela condescendência outrora votada aos seus antecessores, bem protegidos por um complexo emaranhado de interesses e lugares cativos de um controleirismo bastante evidente. Os velhos complexos de esquerda que atingem bem fundo uma sociedade incrédula, pouco interessada e sobretudo irresponsável, sempre deixou passar incólumes, as atitudes que deslustraram, rebaixando-as, as funções presidenciais. Episódios vergonhosos de desrespeito presidencial pela parcimónia na despesa, o claro pendor para o nefando "amiguismo" de vários contornos,  o descarado favoritismo partidário e outras aleivosias mais, sempre beneficiaram da passagem da esponja progressista que tudo rapidamente fazia esquecer.

 

A partir  desta noite, Cavaco não parecerá tão diferente daqueles que substituiu e nem poderia ser de outra forma. É assim que se faz a política da partidocracia levada até às suas últimas consequências, neste caso, a própria chefia do Estado que a população devia olhar como instância suprema, independente e digna reserva moral da nação.

 

Assim sendo, A. Cavaco Silva dará posse a um governo no qual não confia e contra o qual decerto - muito legitimamente, segundo o seu ponto de vista ou interesse - erguerá defesas. Tendo querido ter a absoluta certeza da consumação eleitoral do fim da maioria absoluta, sente-se mais seguro para rapidamente passar a um ensaio geral para uma não muito longínqua tentativa de mudança do regime: a 4ª república, ou seja, ele.

 

A partir de hoje, os portugueses acordam para uma realidade pela maioria  desconhecida, ou envergonhadamente ignorada.

 

 

 

 

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publicado às 20:20


6 comentários

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De Joana a 29.09.2009 às 21:49

E a Capadócia ali tão perto... ;-)
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De Miguel Neto a 30.09.2009 às 11:14

Muito se poderia dizer sobre esta "guerra institucional" e dos prejuízos que trará ao País. Mais uma vez quem os pagará será o comum dos portugueses, com mais umas gotas de sangue, de suor e lágrimas.

Mas relativamente ao tema deste post, queria apenas realçar que essa desconfiança entre os partidos de um dos blocos (esquerda ou direita) e um presidente de outra "cor", está alicerçada na própria população simpatizante de um ou outro lado.

Isso foi, é e será sempre verificável após um qualquer veto ou discurso presidencial que não esteja inteiramente de acordo com as pretensões do "outro lado". Mesmo nas conversas das pessoas na rua ou no café, ouvem-se fatalmente comentários que se fundamentam na possibilidade de uma agenda oculta do presidente para prejudicar o "nosso lado" e para beneficiar "quem o pôs lá". É inevitável.

Não houve durante a República (sem contar com o Estado Novo por motivos óbvios) nenhum mandato de nenhum presidente em que essas desconfianças e essas lutas surdas não se tenham revelado.

Mesmo quando tivémos presidentes da cor do partido que na altura governava, assistimos a conflitos que visavam nuns casos, a manutenção ou tomada do poder entre facções do mesmo partido, opondo "amigos" do presidente a "amigos" da direcção do partido e, noutros casos, conflitos entre os interesses na reeleição presidencial e a vitória do partido em eleições.

Essa característica do regime torna-se ainda mais evidente, perigosa e pode atingir enormes dimensões (como tudo aponta venha a ser o caso desta "guerra" ontem declarada por ambos os lados) quando de um ou de ambos os lados da barricada está gente sem carácter e sem escrúpulos, que põe sempre o seu interesse pessoal ou o dos "seus" antes do interesse de todos.

Num País como o nosso em que o Estado é enorme e cada vez cresce mais, zelar pelos interesses de "um lado" é zelar pelos interesses particulares de quem o apoia, porque isso significa lugares, negócios, prosperidade. Até porque o Estado é tão grande que sobra pouco espaço para quem queira ser "livre, sem lóbi, seita, loja, templo e partido".

Daqui só se pode concluir o óbvio: o Presidente da República, seja ele qual for, mais do que factor e garante da unidade nacional, é fonte de desunião e de conflito, conflito esse enraízado e alimentado bem no seio da classe média porque, em boa medida, depende da vitória ou derrota nesse conflito o tamanho da conta bancária de muito boa gente.

Para mim, a forma de por termo a essa constante divisão, cujos custos para todos são elevados, é colocar na chefia do Estado alguém DE FACTO independente dos partidos e de qualquer grupo económico ou outro, que não dependa de nada nem de ninguém em particular mas de todos em geral para ascender e manter a sua posição de representante de todos os portugueses, garante da cultura, da indentidade e da unidade nacional: o Rei.
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De Nuno Castelo-Branco a 30.09.2009 às 13:37

Que tal aderir ao estado Sentido, Miguel? Este texto É um post que mais logo publicarei em seu nome, está bem?
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De Miguel Neto a 30.09.2009 às 19:09

Nuno, eu já aderi ao Estado Sentido: é um dos blogues que visito sempre que posso. Quanto ao texto, considere-o como se fosse seu.
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De Nuno Castelo-Branco a 30.09.2009 às 19:28

Tudo bem, mas bem podia escrever de vez em quando para aqui, não?
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De Miguel Neto a 30.09.2009 às 23:27

Seria uma honra! Não sei é se tenho talento e capacidade para isso. É muito diferente, comentar e escrever.

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