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Milionários-africanistas ao fundo...

por Nuno Castelo-Branco, em 14.10.09

 

O conhecido milionário e ex-colonial-africanista Almeida Santos, insurgiu-se contra a aquisição dos submarinos da Armada, recentemente construídos na Alemanha.

 

Presidentes,  ex-presidentes, conselheiros de Estado e afins, são parte daquele selecto grupo de personalidades com capacidade para conformar os destinos do país e em lógica contrapartida, deverão ser exactamente aqueles melhor preparados e aconselhados para a tomada de posições políticas. A questão dos submarinos que tem vindo a envenenar há anos a vida política portuguesa, obedece a toda uma série de equívocos, processos de reserva mental ou simples arma de arremesso a utilizar numa situação azada.

 

Almeida Santos é para o contribuinte, uma personagem dispendiosa e tem a obrigação de se informar antes de propor a venda das mais recentes e tecnologicamente avançadas unidades da Marinha. A falta de informação de que o cidadão comum padece - especialmente no que se refere a todos os assuntos de índole militar -, leva a tomadas de posição geralmente consentâneas  com o imediatismo da notícia fácil, onde o desfiar de milhões serve sempre como chamariz à demagogia. 

 

Os submarinos são caros e ninguém nega a evidência, especialmente neste momento de crise que não pode, nem deve ser apenas imputada a factores externos. Nem sequer mencionando as capacidades de acção destas unidades (ver especificações gerais AQUI), os submarinos vêem afinal ao encontro daquilo que a política externa portuguesa sempre foi, ou seja, tradicionalmente atlantista por imposição da nossa situação geográfica, da preservação da integridade e independência nacional e não menos importante, significando a garantia da soberania sobre uma vasta superfície oceânica que é fruto da directa cobiça de certa potência vizinha. De facto, desde que o nosso mais directo adversário político e económico ingressou na NATO, tudo tem feito para mitigar a presença portuguesa no Atlântico Norte, ao mesmo tempo que de forma mais ou menos velada contesta a posse portuguesa sobre territórios estratégicos como as Selvagens. O controlo dos recursos a explorar num futuro não muito distante, o reaproveitamento do valor dos Açores e a afirmação nacional no concerto das nações, impõe uma Marinha Nacional moderna e eficiente. 

 

Há décadas bombardeados incessantemente por uma propaganda desmoralizadora, os portugueses aprenderam a olhar as Forças Armadas como uma fonte de despesa, enquanto os próprios titulares da soberania delas se servem para as mais variadas missões de índole claramente política, sob a prazenteira capa da ONU. Mal equipadas e exíguas, exige-se muito e oferece-se pouco. É quase um milagre o facto de até hoje nenhuma catástrofe ter sucedido a qualquer uma das missões no estrangeiro, dada a conhecida parcimónia na disponibilização de recursos mínimos para o cumprimento das tarefas.

 

A Armada não só precisa destes submarinos - apenas dois - como também tem imperiosa necessidade de ver crescer os efectivos e o número de unidades de patrulha e de intervenção rápida. Navios modernos e com equipagens bem treinadas, capazes de garantir aquele que é há séculos o destino de Portugal: o mar, vital para a manutenção da nossa influência na CPLP, na estrutura da NATO e também, para a obtenção das vantagens económicas presentes neste grande filão que o futuro próximo garante.

 

Além da arrogante ignorância do sr. Almeida Santos, o mais preocupante consiste na verificação da existência de uma corrente que no seu partido advoga a tomada de posições concludentemente lesivas do interesse colectivo. Se a apontada ignorância consistir apenas num impulso populista que ciclicamente afecta quase todos os agentes políticos, nada temos que temer. Mas, se pelo contrário, se erigir em pura estupidez na condução dos negócios públicos, o caso torna-se muito mais sério e prenhe de consequências.

 

Aliás, o sr. Almeida Santos há muito se devia ter retirado da vida política, gozando a sua reforma e preocupando-se em exclusividade, com os seus afazeres empresarias. Ele e muitos outros que por aí ainda deambulam não se sabe bem com que fim.

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publicado às 19:05


8 comentários

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De Margarida a 14.10.2009 às 20:37

Bravo!
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De Cristina Ribeiro a 14.10.2009 às 22:17

É como diz, Nuno, esta tem sido uma arma de arremesso tão recorrente, que esclarecimentos como este são importantes para nós leigos na matéria. Fundamental seria o desfazer do nevoeiro político que se criou à volta da questão - de uma vez por todas.
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De tomas a 15.10.2009 às 00:30

A única coisa que as especificações gerais esclarecem é que os novos submarinos possuem características de operação melhores do que os antigos, o que tratando-se de tecnologia recém construída é um facto para efeitos práticos implicitamente garantido no mundo actual e dificilmente esclarece quem quer que seja que não ache que ainda vive no séx XIX.

Dois submarinos poderão talvez garantir a soberania dos estuários de uns quantos rios portugueses. Contra um adversário determinado não possuem poder de dissuasão palpável e contra um adversário sujeito à aprovação do eleitorado ou de agentes terceiros a falta de visibilidade inerente à função de um submarino (manter-se escondido) torna a sua utilidade para efeitos de propaganda praticamente nula.

Dois submarinos podem estar num máximo de dois locais diferentes, e um submarino troca velocidade por visibilidade, o que limita ainda mais a sua utilidade para patrulhamento. Usem aviões. Usem contratorpedeiros. São mais baratos e mais eficazes.

Se nos virmos numa situação semelhante à da Grã-Bretanha e Islândia em 1958, que comandante de submarino é que vai arriscar danificar meio milhar de milhão de euros em equipamento militar para abalroar uma lata velha cheia de peixe? O que é que o comandante vai fazer? Torpedear os navios de pesca? Afundá-los? Do lado de quem é que isso poria a comunidade internacional?

Portugal sempre foi um país pequeno e com recursos limitados. Ao longo dos séculos a nossa independência e integridade nacionais não foram garantidas por sermos poucos e tão bons como os outros, porque isso pura e simplesmente não chega. Conseguimo-lo sendo poucos e melhores que os outros. Não vejo em que é que comprar submarinos desenhados, fabricados e iguais aos de outro país nos vai ajudar.

Invistam o dinheiro nos nossos estaleiros. Invistam em navios de menor porte e em maior número. Invistam em tecnologia que permita gerar mais tecnologia. Ou então expliquem o que é que mais dois submarinos podem fazer pelo país em palavras concretas, que acções em que situações e com que resultados.
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De Nuno Castelo-Branco a 15.10.2009 às 10:16

Os almirantes dizem que a prova da utilidade vem aí. Aguardemos, porque mais nada há a fazer, senão confiar.
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De Miguel Neto a 15.10.2009 às 14:20

Antes de mais quero dizer que também sou da opinião de que Portugal precisa de umas Forças Armadas modernas e bem equipadas, capazes assumir as evidentes responsabilidades que tem em questões de patrulhamento, de intersecção e defesa, terrestre e marítima, no âmbito da UE e da NATO.

Sempre tive dúvidas sobre esta questão dos submarinos. Não discuto a sua importancia estratégica ou as vantagens tácticas que esse tipo de plataformas de armas pode trazer às nossas Forças Armadas. As minhas dúvidas têm mais que ver com a prioridade da sua aquisição.

Acho que, antes dos submarinos, deveríamos adquirir outro tipo de equipamentos militares (por exemplo e entre outros, helicópteros para a marinha e exército - neste caso a cavalaria do ar). E só depois, se fosse possível financeiramente, comprar os submarinos.

Quando o governo da altura (do Partido Socialista - penso que com o apoio do dr. Almeida Santos) decidiu comprar os submarinos, eu achei (e continuo a achar) que a nossa opção deveria ser a manifestada pelo "Tomas", no comentário acima.

É preciso não esquecer que o dr. Paulo Portas, enquanto ministro da Defesa, conseguiu renegociar a diminuição do número de submarinos a comprar, uma vez que o governo do engº. Guterres tinha inicialmente decidido comprar 4, se não estou em erro.

Mas agora que os submarinos estão praticamente entregues, defender que os devemos vender é assumir abertamente e perante toda a comunidade internacional aquilo que nós por cá já sabemos há muito tempo: que os nossos governantes não sabem o que andam por aqui a fazer, que não têm uma visão estratégica para o futuro, que andam a tomar decisões desta envergadura sem ter definido antes um Conceito Estratégico Nacional ... Era, ao fim ao cabo, assumir que não sabemos eleger quem nos governa, era não ter vergonha na cara.
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De Nuno Castelo-Branco a 15.10.2009 às 15:02

Exacto e ainda por cima quando as unidades estão inscritas no organigrama da NATO, com missões bem específicas. Claro que seria melhor termos mais corvetas, navios de patrulha e até - talvez - um pequeno porta-aeronaves que para mais, "mostra a bandeira". Não esqueçamos o tal apregoado - há anos e anos! - navio logístico.
Mas encomendar os submarinos, construir as duas unidades, recebê-las e depois tentar vendê-las - a um preço inevitavelmente inferior -, só pode lembrar a um bando de imbecis, Almeida Santos incluído.
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De rui de brito a 15.10.2009 às 21:24

Este sujeito rico e influente sabia do 25 baril antes de nós o sonharmos... A propósito: qual é o seu conceito de sinistro?

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