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O previsível "processo Calimero"

por Nuno Castelo-Branco, em 16.10.09

 

 

Sem maioria absoluta, José Sócrates terá que ser, de facto, um novo primeiro-ministro. Nas suas declarações de ontem, afiançou-nos do seu interesse no diálogo com os partidos da oposição e à SIC declarou que sendo o governo do PS, tem o dever de cumprir o programa partidário apresentado aos eleitores. Eis o equívoco que não pode deixar de ser sublinhado.

 

Sócrates parece algo surpreendido pela recusa de coligações ou compromissos por parte de qualquer uma das outras formações com assento em S. Bento. Não sabemos  o que terá proposto aos seus quatro interlocutores, nem isso interessa de sobremaneira à opinião pública, mais preocupada com as dificuldades do quotidiano. Pelas declarações do primeiro-ministro, parece ter assim início aquilo que todos previam, no caso de um governo minoritário.

 

A atribuição do ónus da ingovernabilidade à oposição, segue os parâmetros há um quarto de século gizados pelo então primeiro-ministro Cavaco Silva e que em crescendo de crispação, conduziria a eleições antecipadas que proporcionaram o almejado absolutismo parlamentar.

 

Hoje, a situação é bem diferente e ninguém consegue esconder a calada semi-desilusão que a entrada de Portugal na então CEE hoje significa, com o seu cortejo de falências, liquidação de sectores produtivos tradicionais, perda de oportunidades para um prometido desenvolvimento e pior que tudo, a clara ameaça de desaparecimento do país como Estado formalmente  independente.

 

A verdade é que o novo governo não ostenta a necessária legitimidade para tentar fazer aplicar integralmente o chamado "Programa Eleitoral de Governo do PS". Perdeu quase 10% dos eleitores, dezenas de deputados e a confiança no que respeita às decisões que afectarão a vida das próximas gerações. O que J.S. deve compreender, é que mais que a arrogância e a intratabilidade, o eleitorado puniu a opção por projectos cuja valia ou interesse nacional, não são discerníveis pela maioria dos portugueses, avessos a qualquer tipo de aventureirismo. Resta-lhe a construção de pontes com os seus adversários, obtendo os consensos que a moderação e o bom senso exigem.

 

O PSD não quis  acatar o programa do PS, nisto sendo seguido pelo CDS, BE e PC, confirmando-se assim aquilo que todos esperavam da oposição: a não assinatura do aval que permita loucuras a grande velocidade, negociatas turvas e alienadoras do património público, aeroportos semi-desertos ou tríplices auto-estradas destinadas à "dinamização" de negócios de companheiros de viagem.

 

Um governo minoritário - como o povo quis de forma muita clara -, é um executivo destinado a obter plataformas de entendimento e os compromissos necessários ao bem estar geral.  Não pode vingar uma vez mais o ilusionismo da vitimização. A competência de quem tem também o dever de fazer uma oposição responsável, verificar-se-á na capacidade de demonstrar até onde vão as boas intenções do diálogo, ou pelo contrário, os esquemas da reserva mental.

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publicado às 15:57


5 comentários

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De jr a 16.10.2009 às 22:32

Sinceramente! (De) Poderão as minorias governar? É o que transparece do post.
Quem ganhou as eleições deve subordinar-se a quem as perdeu? É um ponto de vista verdadeiramente democrático ... !!! (Por acaso não gosto de pontos de exclamação e já vão quatro).
Pronto. Para já começamos por votar contra o aumentp do aumento da conta da electricidade.
É assim que eu gosto.
A seguir voto pela isenção de IRS e IRC para todos os portugueses.
A seguir voto pelo empréstimo para aquisição de casa própria sem juros e pela atribuição de casa com renda igual a zero a todos os necessitados. É que somos todos iguais.
Um abraço.
JR
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De Nuno Castelo-Branco a 16.10.2009 às 23:54

Não foi isso que quis dizer. A verdade é que o PS deve negociar e não tentar impor um determinado tipo de opções que foram maioritariamente rejeitadas. Apenas falei dos chamados "grandes investimentos" e mesmo neste campo, poderá negociar o que realmente é urgente. Era só o que faltava atirar agora as culpas todas para a oposição que de forma alguma deve ser obrigada a aceitar aquilo que não reconhece como válido.
Negociar não significa ceder à demagogia que em certa medida, é exactamente aquilo que o governo quer praticar, erguendo "obra de fachada". Quanto ao mais, tudo é possível e ninguém no seu perfeito juízo negará a legitimidade do exercício do poder pelo PS. Não pode é ser da mesma forma que antes. Isso , não.
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De Miguel Neto a 18.10.2009 às 01:11

Totalmente de acordo. E escreveu-o de forma bem cristalina. O programa de governo foi votado favoravelmente por cerca de 36,5 em cada 100 portugueses eleitores (isto sem contar com os cerca de 40 em cada 100 que se abstiveram de se pronunciar).

Assim, cerca 63,5 em cada 100 portugueses que votaram, rejeitaram o programa eleitoral socialista. O futuro governo tem que, sem se submeter a quem perdeu, perceber que apenas cerca de 20 - 25 em cada 100 portugueses eleitores votaram favoravelmente o seu programa.

Como diz o Nuno e em minha opinião bem, o governo tem a obrigação de procurar "obter plataformas de entendimento e os compromissos necessários ao bem estar geral".

Os outros partidos têm a obrigação de não esquecer que o programa do PS foi o que mais votos teve e, porque não é deles a responsabilidade de governar, têm que estar sempre disponíveis para também "obter plataformas de entendimento e os compromissos necessários ao bem estar geral".

Sendo o tipo de estadista que nós sabemos que o engº Sócrates é, eu acho que a sua estratégia de governo vai passar por evitar ao máximo ser impopular, com tudo o que isso implica relativamente às "medidas difíceis" (mas que tão necessárias são para Portugal) e, ao mesmo tempo, usar essa estratégia de vitimização tipo "eu quero, eu tenho a obrigação moral, assumida perante os portugueses de cumprir na integra o programa pelo qual fui eleito, mas os malandros da oposição não deixam".

Só assim é que se percebe que o eng.º Sócrates tenha recebido todos os partidos com assento parlamentar e com todos tenha tido a mesma "conversa".

Tal como eu vejo as coisas, é totalmente diferente pensar na possibilidade de uma aliança com o BE (ou com o PCP) ou com o CDS. Mais, quem pensa sinceramente numa possibilidade de aliança com o CDS não pode considerar ao mesmo tempo uma aliança com o Bloco (ou com o PCP). A menos que não se tenha uma ideia definida, um plano, uma estratégia para resolver os problemas e para o futuro do país.

Isso só é possível de ser considerado (a aliança com o CDS ou com o BE ou o PCP) por alguém que tenha como estratégia apenas manter-se no poder a qualquer custo.

Nos próximos tempos vamos assistir a muita demagogia, muita venda da banha-da-cobra, apioada numa boa estratégia de comunicação, numa boa imprensa e muita falta de vergonha na cara. Preparemo-nos.
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De Nuno Castelo-Branco a 19.10.2009 às 18:30

Sempre quero ver até que ponto o "génio" de Belém vai resistir a não cair na armadilha da dissolução.
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De Miguel Neto a 20.10.2009 às 14:00

Nuno, isso seria o xeque-mate. Cabe primeiro ao CDS e PSD não se deixarem cair nas armadilhas e não permitir ao PS colocar o Presidente nessa posição.

Para o BE e PCP, já sabemos que quanto maior a confusão e o descontentamento, melhor. Se houver manifestações violentas nas ruas, melhor ainda.

Vão ser tempos exigentes para o CDS e PSD. A exigir muito trabalho, muita inteligência, paciência e imaginação.

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