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Saramago e São Caim do Kapital

por Nuno Castelo-Branco, em 19.10.09

 

 

A Eneida, A Odisseia, Os Doze Césares, Gilgamesh, O Livro dos Mortos ou o Hino a Aton, são alguns daqueles textos que para sempre ligarão o Ocidente  a um passado que em termos civilizacionais não se encontra assim tão distante, nem no espaço - o cadinho do nosso ethos, o Mediterraneo e a Mesopotâmia - e muito menos ainda, no tempo.

 

A Bíblia consiste numa amálgama de textos, uns destinados a contar a experiência do povo de Israel, outros que foram assimilando aspectos considerados geralmente aceites, como absolutas verdades originárias da história oral dos povos que habitaram a vasta área marginada a oeste pelo Nilo e a este pelo Tigre e Eufrates. O Dilúvio, o sonho da Terra Prometida - este nosso Shangri-la do Ocidente indo-europeu -  e toda uma série de relatos edificantes que estabeleceram um primado ou conceito de ordem moral,  procuravam uma identificação unificadora dos ainda relativamente escassos contingentes humanos, em alguns casos dispersos por um território que à época era infinitamente mais vasto e de difícil acesso para aqueles que quiseram criar raízes, sedentarizando-se. O Êxodo consistiu na lendária base fundamental que uns milénios mais tarde, justificaria a criação de um Estado que se formatou em torno dessa acreditada gesta. Pouco importa se Gilgamesh já tivesse experimentado a enxurrada que dos céus inundou aquele todo o mundo que os semitas, egípcios e até mais a norte os anatólios, consideravam como completo e único. Se o Pai Nosso é fruto da fervilhante criatividade e imaginação de Amenófis IV trasmutado em Akhenaton, a verdade é que hoje surge como a suprema oração, o fio condutor da conversa, ou melhor, do implorar do comum mortal de qualquer uma das religiões do Deus Único .

 

Vestes sagradas, cerimoniais complexos e carregados de fumos de incensos, chamas purificadoras, águas milagrosas e livros erguidos em direcção à luz solar - talvez aquele deus que ainda resiste no subconsciente da maior parte dos homens -, fazem parte de uma tradição que ininterruptamente se adaptou a novos espaços, realidades étnicas - adequando os ritos e a crença ao passado pagão - e geográficas. Loucos de Deus sempre existiram e sempre existirão, numa quase sempre solitária interpretação de um mundo ao qual, soberbamente se julgam destinados a servir como vingadores de um ente superior, basicamente austero e avesso ao negregado hedonismo. Grosso modo, as histórias edificantes focam contextos muito específicos, onde invariavelmente a fixação da hierarquia, a morigeração de costumes, ou a simples necessidade de zelar pela perfeita saúde física das comunidades, impunham as regras a acatar universalmente. Os cataclismos naturais  impuseram  algumas semelhanças entre textos de culturas tão distantes quão diversas em vários continentes. A própria necessidade e expressão artística - muitas vezes fortemente condicionada pelo engrandecimento do poder -, levou à adopção de soluções técnicas que os mais crédulos ainda hoje, pensam ser um elo muito longínquo de um passado comum, outrora ligado por um fabuloso continente perdido pleno de super-homens, afinal, a perdida ponte entre nós e o divino.

 

Bíblias foram queimadas em fogueiras, assim como homens também o foram apenas por acatarem uma versão errónea à luz do oficialismo imperante num certo espaço político e social. O que parece bastante anacrónico e causa perplexidade, é o constante acirrar de posições que de tão irredutíveis se tornam merecedoras da indiferença mais ou menos generalizada. Aqueles que não compreendem - ou fingem não entender - os contextos históricos em que os textos surgiram como uma necessidade para a conformação social, acabam por equivaler-se aqueles outros que à semelhança de autoproclamados filhos de uma das Tribos Perdidas de Israel, vociferam contra os "ímpios" de uma modernidade que não aceitam e querem ver destruída. No fundo, o fanatismo Saramago equivale-se ao de um Menino de Deus, de um Mormon ou de um Hamisch.

 

O caso deste escritor que nestes dias acaba por preconizar o fim da sua própria pátria de nascimento, parece intencional, decorrendo normalmente de um percurso de vida pautado pelo endurecimento da convicção  num destino de predestinado e ao encontro daquele que afinal foi o verdadeiro Mito do Século XX. Pouco lhe importam as histórias, os contos, as experiências e desejos individuais ou colectivos - estes stricto sensu, há que frisar - dos homens que fizeram a pequena e a grande História. O devir de uma supersticiosa certeza, numa constante e maniqueísta liquidação de "inimigos de classe" - descurando assumida e completamente as realidades da inter-permeabilidade entre algumas ou todas -, conduz ao dogma que impõe a destruição do outro. Um dos derrotados do século - e aqui já o alçamos a um muito contestável estatuto que pouco interessa reconhecer ou não -, Saramago finge não ter compreendido a vastidão imensurável de um legado que antes de tudo tenta impor regras onde o conceito de Bem pode ir-se adaptando aos novos tempos e realidades que a sucessão de gerações infalivelmente estabelece.

 

Para Saramago, a Bíblia parece ser um ...manual de maus costumes, crueldade e do pior da natureza humana... Curiosa conclusão que não atende à realidade de outras épocas e á própria necessidade de afirmação da certeza de pertença a um determinado grupo. Apesar disto,  não existe vivalma sobre este planeta, que alguma vez tenha escutado uma só palavra do escritor, acerca dos manuais de brutalidades, das cartilhas que impõem pela mais iconoclasta violência,  a "construção científica" de um outro homem, tão desumano como Moloch ou tão escravizado a uma quimera como os ilotas.  Saramago nem sequer dá conta da clara cópia do preceituado necessário à construção  do seu Novo Templo, de uma religião tão tingida de vermelho como as escadarias sacrificais dos aztecas. Pouco lhe importam que as estórias - disso não passam - edificantes da sua religião versem a denúncia, a opressão do imaginado inimigo ou a acefalia geral em benefício de um imposto dogma. A visão da certeza, do Bem estabelecido pelo Caim da sua Verdade, exclusivamente pertencerá aos eleitos, aos poucos que escolhidos inter-pares, decidem pela amorfa e anónima soma de números em que a humanidade obrigatoriamente se torna, anulando-se como motor da continuidade da própria História.

 

Agarrado ao encharcado lenço de uma derrota que jamais esperou ver chegar, pouco mais resta ao escritor premiado com o Nobel, senão aferrar-se à sua grande certeza: a metálica matéria. No seu caso, o ouro, não em forma de bezerro, mas da vaidade que lhe garante um final confortável e feliz.

 

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publicado às 18:43


4 comentários

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De António de Almeida a 19.10.2009 às 22:11

Saramago vendeu-se ao capitalismo em que não acreditava, procura polémica para aumentar as vendas e ganhar mais uns Euros...
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De Cristina Ribeiro a 19.10.2009 às 23:29

É mais um caso de " olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço ".
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De Miguel Neto a 20.10.2009 às 12:49

Grande texto, Nuno.

Sublinho a ideia do anti-Humanismo de Saramago.

A Bíblia, mesmo para quem não acredite em Deus, penso que pode ser considerada no mínimo como uma descrição antiga, preciosa eloquente da "Aventura Humana". Uma descrição da luta do Homem contra os elementos e contra si próprio para sobreviver, prevalecer e se tornar um Ser melhor. É um espelho da Condição Humana.

Em minha opinião, ver na Bíblia "um manual de maus costumes, crueldade e do pior da natureza humana" é olhar para o Homem e recusar ver o seu lado Grandioso, Sublime, Transcendente.
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De Hibrido a 26.10.2009 às 00:00

só falta mesmo ir ler o livro (e já agora o Génesis, comum a judeus, muçulmanos e, sim, cristãos) a ver se se dizem menos disparates sobre "Caim" ;)
informe-se já agora sobre a utilização política feita dessas 50 páginas (50 capítulos) por evangélicos americanos (Bush, etc), "integristas" e "fundamentalistas" (a situação no Médio Oriente, e as suas raízes e retórica religiosa, choca Saramago como muitos outros, por ex.)... e pense o que a Arte do Romance trouxe à Europa e ao seu espaço público, entre teólogos e teóricos... a secularização da bíblia pela sua contextualização histórica não lhe retira a sua eficácia mágica (sagrada) nos "debates" e "conflitos" presentes, servindo explicitamente, em citações retóricas, como "autoridade" "legitimadora" do "ilegitimável" (e todos os "abraamicos" não poderão lançar aí a primeira pedra a ninguém)... basta ver a reacção "cega" aqui apresentada para ver como a "palavra-sagrada" está viva, turvando a inteligência e temperança dos melhores.
Saramago fala de muitíssimo mais do que das 50 páginas do Génese... como é óbvio... e sim, de forma profana... como é em toda a arte do romance (desde Rabelais e Cervantes)

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