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I don't want to live in the modern world*

por Silvia Vermelho, em 22.10.09

"[...]nesta procura do tempo que passa,
perco o tempo que procuro
na busca do tempo que não tenho.
"

São estas palavras do Professor Maltez que há várias semanas não me saem da cabeça, desde que o despertador toca à hora em que o acerto, à noitinha-quase-manhã em que procuro adormecer.

As aulas de mestrado já começaram, as aulas de código para a carta de condução também, e entretanto começarei a trabalhar em full time em Novembro, pelo que continuo na minha quase infinita viagem interior pelo mundo da organização pessoal e da gestão do tempo, esse grande cliché que se tornou o grande marco da sabedoria da sociedade pós-industrial. Este horário pós-laboral e as consequentes "viagens" até ao ISCSP conseguem tirar-me sete horas do meu dia: das 16:30 às 23:30 o tempo é ocupado no ISCSP e nas viagens de ida e de regresso. Apesar das boas novas do passe sub-23 (a 15€!), conseguir um autocarro depois das 22h no Pólo do Alto da Ajuda é requerer uma aparição divina. E às 5 e tal da tarde, o 723 tem a difícil tarefa de atravessar o viaduto Duarte Pacheco.

 

E, depois de chegar de Itália, encontro finalmente a "Bolonha" tão falada nos meus tempos de licenciatura do ISCSP: textos para ler, trabalhinhos semanais, trabalhos intermédios e trabalhões finais, testes intermédios e finalmente o clássico exame final. Não gosto de avaliação contínua em disciplinas com uma matriz profundamente teórica, de reflexão e necessidades de leitura. Mina o trabalho consistente e bem feito, ao nosso ritmo e medida, beneficiando o trabalho em cima do joelho para marcar presença. Ou seja, quem beneficia da avaliação contínua é o pessoal que não faz mais nada da vida se não ter aquelas aulas por semana. É claro que não me refiro especificamente a actividade profissional (uma vez que esta situação apenas se trata de uma opção para uma pequena minoria), mas refiro-me sim a não fazer mesmo "nada". Isto é, estar ali simplesmente porque sim, por falta de alternativa, sem grandes objectivos, apenas e só porque se estudarem os pais @s continuam a sustentar e assim não perdem tempo a (se) pensar sobre (si mesm@) o que querem e precisam de fazer. Bolonha arranjou-lhes ocupação e objectivos. A mim arranjou-me chatices.

Sempre gostei mais de trabalhos do que de exames, e acredito profundamente que faz sentido um trabalho final - individual - como método de avaliação. Mas estes mini-trabalhos semanais ou intermédios ou quinzenais, seja qual for a modalidade, são um atentado à produção científica. Não servem para nada - nem a pensar, uma vez que tendem a ser profundamente descritivos, dada a sua reduzida dimensão e tempo para o fazer - só atrapalham. Não deixam tempo para ler um livro como deve ser - porque se pede aquelas específicas páginas para aquele específico trabalho - isto multiplicado por seis. Não deixam tempo para escrever sobre o que se leu e apre(e)nder, porque Bolonha é uma faca de dois gumes: quer que se pense, que se faça, que se produza, mas basicamente é tipo fábrica de salsichas. Depois da massificação do ensino superior, agora pretende-se massificar o pensamento no ensino superior. "Ensinar a pensar", à moda de Bolonha, é uma heresia. Como se essa aprendizagem não fosse uma descoberta individual!

Portanto, que se faz? Um dos processos de diferenciação d@s estudantes sempre foi a verificação de qual/quais fizeram "mais do que o que lhes foi pedido". A imposição de leituras e escritas obrigatórias em prazos limitados veio tornar esse processo menos eficaz, porque baseia esta diferenciação numa questão de quem tem mais tempo para se dedicar a estas actividades (quase reduzidas à categoria de tarefas rotineiras).

Há pessoas que nunca serão mais que fábricas de salsichas e por muito que se lhes ensine a serem "malabaristas num mundo de incerteza", por muito que se lhes ensine a serem versáteis, flexíveis, elas não farão mais que copiar os modelos de flexibilidade que lhes deram. Poderão mudar de salsichas para paio, mas a maioria delas nunca entenderá muito bem porquê. Reproduzir técnicas de produção é considerado produzir? Assim parece nesta sociedade cansada. Querem ensinar-nos a ser gestores do nosso próprio tempo, ensinar-nos a escrever e a pensar, a estar up to date, querem forçar, meter no modelo, meter na forma, enfaixar algo que deve ser espontâneo, belo e selvagem. Em vez de nos insurgirmos contra a irritante divindade que se tornou o Stress, eis-nos a falar de vitaminas, e resistência, e noites bem dormidas, e comprimidos e plantas naturais, e água com sabor e chá não sei do quê... É tapar buracos com areias movediças e achar que é inovação andar em cima de um barco próprio para pântanos.

São 1:34, e já devia estar a ter o meu sono de beleza que me permitirá ter mais um dia repleto de inutilidades sem escolha porque o mundo todo de repente acha que o cansaço, e a ausência de tempo para o eu interior, é condição sine qua non para o sucesso.

 

* aqui.

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publicado às 01:41


2 comentários

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De drengo a 22.10.2009 às 02:32

espero que já esteja no seu merecido sono de beleza. li, e recordei os meus dramas, ainda pré-Bolonha, e a sorte de estar num mestrado em que eram dados liberdade e tempo para pensar, questionar, opinar (sem esquecer de justificar) e, no fundo, criar. pude fazer algo razoável, em termos qualitativos, mesmo que pobre, se quantitativamente falando. nunca tinha dado conta da sorte que tive até ter lido algumas coisas que aqui escreveu. quanto a si, tem a sorte de ter o espírito crítico e a lucidez para compreender o mundo em que se encontra. que as viagens lhe sejam breves, e os estudos sejam produtivos, porque essas qualidades são raras, e bem necessárias.
bem haja.
j.
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De José António Abreu a 22.10.2009 às 22:50

E, infelizmente, a maioria das grandes empresas funciona agora em moldes muitos similares. Há, em muitos sectores da sociedade, uma espécie de cegueira que privilegia a pressão e a quantidade em detrimento da reflexão e da qualidade.

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