Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




África, chamuças e um funeral

por Nuno Castelo-Branco, em 02.11.09

 

Arriscando-me a ser muito indiscreto - limitei-me a "limar" os nomes -, não resisti em publicar este e-mail enviado ontem pelo meu pai. Uma história divertida.

 

Queridos Filhos, Nuno, Miguel e Ângela

 

 
Lá fomos a Rio de Mouro - na linha de Sintra - assistir pela TV (!!!) instalada no crematório da povoação, ao último encontro com a Pilar, no passado 1 de Outubro. 
Assistimos pela TV - como acabo de dizer - sentados confortavelmente ou em pé, em pequenos grupos, falando com este e aquele a propósito de tudo e de nada mas também da Pilar. Parecia que estávamos a viver um filme americano, very clean. Lembrei-me muito de um autor , o Evelyn Vaugh - a esta hora da madrugada parece-me que é este o nome ou será que é um outro semelhante? - que tem uma novela com cenas num crematório, música e já não tenho bem a certeza se serviam cookies e bolachinhas com jam. 
A Micou - M. de seu nome -, a filha mais velha da Pilar e do Zé e de que vocês se lembrarão como era terrífica em miúda (voava tudo à sua volta, um pouco como a tua sobrinha que é um tiranete lá em casa mas que contrariamente à "monstronça" da Sr.ª Pilota é sorridente, alegre e fica muito feliz quando fala com os Avós) encontrou no congelador da Pilar umas pequenas chamuças que ela gostava de fazer e de oferecer os amigos, e levou-as para o tanatório. Para a homenagear, ainda comi uma mas sem vontade. Nessas ocasiões não há nada que me caia bem. Só me apetece água para acalmar a boca e a nervoseira. Lembro, até, que em tempos idos - quando ainda éramos novos - a Vossa Mãe e eu, após o cemitério, íamos, sempre, tomar chá a uma pastelaria; era uma forma de iniciarmos a purga antes de se regressar ao hipotético conforto com a vida. 
A M., a aviadora, é uma rapariga imprevisível; a Pilar queixava-se muito das suas ausências mas parecia que já se tinha habituado e já nem estranhava; recentemente - uns 15/20 dias antes de partir - disse-nos que nem sabia onde é que ela morava pois que a filha nunca lhe dissera para onde se mudara, depois de se divorciar, aliás, facto que também desconheceu durante tempos!!! O ex-marido, de nome Zé, era semi-letrado; quando se zangou ou separou da Pilar escreveu a esta uma carta que ela nos trouxe para a lermos; tinha mais erros do que palavras, isto para já não falar na sintaxe! Uma autêntica calamidade; depois de a lermos ainda magicámos para tentar descobrir porque é que ele teria escrito aquele lamaçal de discordâncias, filosofias de barraca e erros, bastantes, de ortografia! V. haviam de o ouvir: sabia tudo, opinava sobre tudo, impunha-se por isto e por aquilo; de uma feita quando o nosso Nuno veio cá a casa, invectivou-o: "o que é que vens cá fazer"!!! Ele, descobrimo-lo cedo; vinha jantar; a Vossa Mãe não gostou do abuso pois chegavam - 3 ou 4 vezes por semana - por volta das 19H/19H30 e por mais de uma vez ele chegou ao desplante de perguntar à Ana Maria, "então, hoje não há sopa...?. A princípio achei-lhe piada - como paradigma bairrista para estudo e caracterização - mas depois ficava agoniado e entupido quando nos surgia por aqui, uma "facilidade" já que viviam na Cooperativa existente por na zona do Alto do Lagoal, acima das vivendas onde nós poisamos. 
Um dia, a Mãe achou que não havia que fornecer mais "boiada" pois já se cansara de abusos e dos destemperos; repetiu a atitude, 2/3 vezes seguidas. 
Nunca mais apareceram por cá! 
Mudaram-se, creio que para Sintra, mas nem disseram "água vai". Ficámos esclarecidos! Aliás, nem vale a pena falar na mulherzinha. Que tenha boa sorte.  
Na cerimónia, o P., o filho, estava inquieto, desconcentrado; vamos lá a ver se a cabeça dele vai funcionar bem pois apesar da estrutura académica é vaidoso e de poucos conhecimentos gerais. É casado com a R. que nos parece uma moça acertada e bem disposta, com a cabeça bem organizada, uma moça que parece ter os pés bem assentes; também é arquitecta; deve ser uma boa influência se é que ele se deixa influenciar. A Pilar dizia-nos que o P. era "absoluto" - termo que a minha Avó dizia a propósito de gente que conhecia! - e só fazia o que queria; será que assim acontecia porque teve inúmeras facilidades familiares? Depois de se formar andou algum tempo com a R. por Englanças e Araganças, até pelos EUA, vivendo do seu trabalho em ateliers de arquitectura. 
Vamos lá a ver, se agora, o rapaz vai construir, propriamente, algo que se veja, quer na sua arte, quer na sua vida. Creio que tem ambições mas não sei se essa mola é suficiente para o catapultar. Irrita-se com pouco e gosta de impor a sua vontade.      
A Pilar tinha por este filho uma paixão avassaladora, apesar de por vezes se queixar do seu egoísmo, agressividade e modos desabridos. Construiu uma imagem e dedicou-se a cultivá-la, mesmo que por vezes se sentisse incomodada com as atitudes do filho e que não conseguia entender. A Pilar necessitava amar e ser amada e correu toda a vida atrás desse sentimento que queria fosse retribuído na mesma amplitude que ela dava aos que amava. 
A Pilar sujeitava-se a tudo... e confessava-o. Se mais tivesse, mais daria. Chegou a vender algum do ouro que tinha para colmatar falhas e ficar com algumas migalhas para os seus alfinetes, aliás, é esse, exactamente, o termo. Não se aborrecia com o assunto, mesmo que se lamentasse, uma vez por outra. A vida tem sido fácil ao P.; os pais nunca lhe faltaram: quis ir estudar Arquitectura para as Belas Artes no Porto e foi e até lhe deram a entrada para um apartamento TO (?); suspeito, aliás, que a grande financiadora foi a própria Pilar; nem sei se o Zé  terá contribuído com o mesmo "volume".  O P. e a R. vivem, agora, no apartamento e já é bem bom que tenham um espaço para morar e em que vão pagando mensalmente as prestações do empréstimo. 
A Pilar não falava nem pensava em outra coisa que não fosse o P. Construiu para ele um castelo em que as paredes criavam miragens sem fim, assim alimentando a obsessão em que vivia e que em nada auxiliava o seu estado de espírito. 
Muita vez nos deixou entender que lhe dava o que tinha e o que não tinha. Como era muito generosa vivia, por vezes, aflita monetariamente. 
Bem vistas as coisas, no fim de contas, nunca aceitou bem que ele casasse, esperançada, por ventura, em que o P. viesse viver para Lisboa, com ela, só para ela, principalmente depois de a Pilar e o Zé se terem divorciado. 
Vivia desconsolada, queixava-se da incompreensão do filho e, por vezes, dos seus maus modos para com ela.   
Quanto à Arte da Arquitectura, é bem verdade que se não fala tanto dos grandes arquitectos individualistas, senhores de amplos e diversificados conhecimentos. Hoje - mesmo os possuidores de um grande  talento assente num Saber pluridisciplinar, só vingam se apoiados em equipas, também elas constituídas por talentosos obreiros. Há arquitectos de grande renome, desenhadores de  maravilhas que nos seduzem; não falo de algumas aberrações, não falo dos edifícios que muita vez mais não são do que construções ligadas a grandes promotores imobiliários e a uma propaganda milionária que cria nos potenciais compradores um mundo de ilusões e age com artimanhas e envolvimentos de sedução, principalmente junto dos gabinetes de urbanização camarários. É ver o que se tem feito em Lisboa!  
Hoje, privilegia-se o tecnicismo mas muita gente moça não vê que se não ganhar estatuto até aos 35 anos - ambição possível caso se acorrente a um grande nome que lhes explorará o trabalho e o espírito criativo - fica na valeta e nunca passará de ser "mais um" a navegar no vazio. Conheço alguns. 
Assim também acontece com a maioria dos licenciados, mestres e doutores que não são capazes de manter a cabeça à tona da água, procurando e encontrando, continuadamente, soluções enganadoras com que se consolam. 
Este mundo em que estamos exige sacrifício, dedicação, obediência, capacidade de adaptação e um seguidismo dos intentos e acções do "patrão"; eis algumas das razões que levam ao triunfo de tanto medíocre que anda por aí à solta, ocupando lugares para os quais não tem nem estofo mental nem capacidade técnica e ainda uma menor base científica. 
Regresso à Pilar. Ela morreu serenamente, possivelmente na noite de domingo (27/9) para 2.ª feira e assim ficou até à noite de 4.ª feira sem que ninguém soubesse do que se passava. A tua Mãe, que volta e meia tem o dom premonitório, telefonou-lhe na 2.ª feira e na 3.ª feira, inquieta com o seu silêncio. A Pilar não estava bem e quando estivera cá, na 5.ª feira à tarde, tínhamos ficado apreensivos, principalmente a tua Mãe que tem os sentimentos maternais muito activos.  
Ultimamente andávamos preocupados com os sinais da sua decadência física e quase alheamento total de quanto a cercava, atitudes pouco naturais numa pessoa com 62 anos.
Apesar de divorciados, o Zé ia almoçar à casa da Pilar, 5.ª feira sim, 5.ª feira sim. 
Como ela não respondesse aos seus telefonemas, foi bater-lhe à porta já na noite de 4.ª feira; como não obtivesse resposta, ele e a filha chamaram os bombeiros para a abrir. Estava deitada na cama, de lado, a posição que tomava normalmente para dormir; estava muito serena mas ainda mais inchada e com manchas negras. Chamaram a polícia e o médico e tomaram os trâmites necessários. 
Foi cremada. Estavam familiares, uns poucos amigos, inclusive alguns colegas do filho, que não conhecíamos. Foi uma cerimónia curta, quase ao modo americano. Tudo muito clean, muito sereno. Este é o novo figurino dos funerais. Acabaram as carpideiras, os gemidos e os soluços entrecortados de gritos ansiosos e angustiosos, as manifestações terríveis de que "se acaba o mundo", o romper de tenebrosas lamentos sempre que alguém entrava na sala mortuária, o desbobinar de todos os predicados que o/a defunto/a tinham tido em vida, mesmo que assim não tivesse sido, que assim era natural entre os portugueses do passado e assim ainda sucederá em cerimónias fúnebres junto a locais de culto nos bairros citadinos mais populares e em terras do interior ou pouco afeitas aos progressos via Tv. 
De outros nem vale a pena falar; seguem directamente para o buraco negro e sem fundo onde se acolhem os endemoninhados que amargam a vida de quem os cerca, muita vez com falinhas mansas e punhos arrendados para melhor cativar os incautos! São os hipócritas, os não me toques, sempre de garras aguçadas para escalpelizar quem quer que seja; são os invejosos, os egoístas, os individualistas que pensam preferencialmente em si próprios e que se sentem felizes com o nada que tem, julgando, porém, merecer todos os encómios desta vida, etc. e tal. A estes juntam-se os "chatos" cuja única preocupação e gosto é terrificar com quem vivem, com quem contactam, com quem tem o infortúnio de cruzar o seu caminho, até porque sabem tudo e sobre tudo pontificam.    
A morte foi um bem para a Pilar. Vivia desencantada. Ultimamente, dizia constantemente querer morrer. Sossegou e não mais se vai inquietar. Estava muito em baixo. Vinha quase todas as semanas cá a casa para o chá da ordem, perdão, para o café, bebida em que se encharcava de manhã à noite enquanto se envolvia em nuvens de fumo. Os cigarros seguiam-se uns aos outros e de nada valia chamar-lhe a atenção. Ultimamente, ela própria fazia os seus cigarros. Eu ficava sempre atento porque isso me fazia remontar 65 anos atrás quando via o meu Avô paterno confeccionar os dele, sentado numa espreguiçadeira, o harmónio pousado numa banqueta; enrolava as mortalhas, aconchegando o tabaco loiro, enrolando a mortalha para que o "tubinho" ficasse escorreito e compacto; fumava depois, encantado com o flavour. Não era o caso da Pilar; o fumar era mais um gesto maquinal, repetitivo, um queimar e enganar o Tempo que teimava em não passar.    
Nos últimos tempos, a Pilar encostava-se numa cadeira ou num cadeirão da sala ou da varanda e antes de adormecer pedia à tua Mãe que lhe fizesse um café. Quando a Ana voltava da cozinha já a boa da Pilar dormia ou dormitava. Preparava-se o chá/café - sempre que sabíamos que ela vinha - eu ia comprar uns mimos para lhe adoçar as tristezas e o sentimento de abandono que ela vivia constantemente e proseávamos um pouco. 
Muita vez, a tua Mãe e eu dizíamos que ela não podia durar muito. Nas últimas semanas até parece que inchava mais a cada dia que passava. Então, na última vez em que cá esteve, o arfar dos pulmões e o volume corporal quase assustavam.  
No fundo ela queria o que não era tangível: encontrar o que não existia, uma imagem, um ideal que ela construíra no seu consciente e que julgava possível. Nunca se conformou, nem aceitou que a vida desejada mais não fosse do que uma miragem, uma alucinação que ela queria viver banhada de luz solar. Foi sempre assim. Depois de passada a juventude e sofrendo ao longo do desfiar e descoberta da vida que esta "atropelava" a sua inocência, acrescendo-lhe mais algum desacerto no sangue e na mente - tal como existe em quase todas as famílias -, viveu continuadamente na ânsia de que a ilusão se  concretizaria, perturbando-se e sofrendo com o que a vida lhe apresentava. 
Era generosa, de coração largo e maternal, e tinha uma formação de bons usos, um pouco à antiga como sucedia nas comunidades coloniais e pela Província aqui em Portugal. 
Ainda me lembro dela quando namorava o Zé. Bem disposta, entusiasmada com a vida, deixou a Universidade, trocando-a pelo namoro. O Pai, o Sr. A. Fonseca, um Senhor agradável, pausado, "circunstancioso" - a palavra existe? -, funcionário do BNU, ficou triste com o facto da Pilar abandonar a Faculdade de Agronomia. Ter-me-á dito, uma vez, que a Pilar se apressava. Não posso reconstituir, exactamente, a conversa porque já se passaram muitos anos e foram tantos os trambulhões em que depois volteámos que não posso afiançar ao certo as palavras reais. Recordamos, sim, que a Pilar estava muito entusiasmada com o casamento com o Zé; estava muito apaixonada. 
A tua Mãe desenhou alguns móveis para a casa deles, nós fomos padrinhos do Zé - que também trabalhava na Sonap Moç. e arredondava o vencimento com a venda de electrodomésticos aos colegas (uma das suas miragens foi sempre o desafogo financeiro, o escavar e apetência pela aurífera poeira, ambições muito comuns na fórmula portuguesa de viver, direi melhor, um dos pontos certos do modo de ser português e, muito especialmente, de ser lisbonense). Será que está certo?  
Então vai um pobre das azinhagas de Cristo deixar o seu torrão natal para se embrenhar nos subúrbios de uma cidade madrasta e viver encaixotado, num andar, entre as paredes de 60 m2? Sem direito ao perfume dos arbustos, das flores e da erva campaniça? Sem o soar de um "Bom Dia" deitado de longe por um companheiro de longa data ou por um passante da terra? Sem um copo do tinto a formar espuma viva entre o róseo avermelhado e o tintol escuro como o das barricas onde se colocou - para dar força e mais alimento - um carneiro esfolado que dará consistência e mais corpo ao sumo de uva? Em muitas aldeias, e em partes várias do país, assim se processava o enriquecimento do produto e o seu vendedor. 
Voltando à nossa Amiga Pilar. No crematório, a tua Mãe e eu, representávamos a velha guarda. Os demais era gente mais nova. 
Lembrei-me muito do Sr. A. Fonseca que está num lar no termo de Palmela a aguardar o sinal de partida. É da idade da tua Avó mas está muito alquebrado, desmemoriado e ele próprio, possivelmente, já se esquece de si próprio. 
Ao saber essas notícias pela Pilar, vejo sempre como a vossa Avó está óptima e apesar dos seus 93; muito fresca de cabeça, sempre de um lado para outro, sempre esperançosa no devir. Faz-me lembrar a Mãe, a vossa bisavó que já andava pelos 90 e ainda fazia projectos para remodelar a casa! Nos últimos anos, a Avó disse-me, por mais de uma vez, que se lhe saísse o EUROMILHÕES, mudava de casa para um apartamento frente ao mar de Cascais! Quando lhe telefono, o que faço todos os dias, e porque sente uma imperiosa vontade de falar, fala-me de tudo o que lhe interessa, agora, muito aplicadamente de como trata os cozinhados que recebe de fora pois que já não está com forças para ir às compras e preparar as refeições. É claro que não os aprecia por aí além, pelo que não falta a tentar remediar o "farnel" acrescentando-lhe o seu toque especial.    
No crematório encontrámos o irmão do Zé, o Manuel; lembram-se dele? Quando chegou a LM., ainda o Miguel era pequenino, andando pelos  4/5 anos. Quando ele casou com a Fernanda - amiga da Pilar -, o casal, foi morar perto de nós na Rua da Princesa Patrícia de Connaught - creio que neta da Rainha Vitória - e que estava, tal como os seus Pais, na toponímia de L. M. porque tinham visitado a cidade; foi falada para desposar o nosso último Rei. O Manuel ia visitar-nos já que morávamos um pouco mais adiante na mesma rua. Volta e meia - ele era uma torre de força - pegava no Miguel, colocava-o na palma da sua mão direita e levantava-o com o braço muito esticado. 
Achei-o menos alto do que me parecia nesses tempos, talvez, porque a idade nos dê outra dimensão das pessoas, talvez porque já tivessem passado 35 anos ou mais... 0 Manuel está mais magro e continua enxuto; é jornalista desportivo, aliás, um free-lancer. Disse-me uma coisa bem curiosa: quando chegou a LM admirou-se com o nível cultural da população. Vim para casa a matutar nessas palavras; possivelmente, não será tanto assim. Também não sei em que bairro de Lisboa é que vivia mas posso imaginar o meio que frequentava. Era vivo e esperto, com ambições de leitura; quando conversámos no Crematório falou-me das suas últimas "conquistas" nesse campo que pratica: o entusiasmo por Nietzsche e Schopenhauer. 
A Ângela foi a caudatária do casamento do Manuel com a Fernanda. Ele lembrou-se disso e disse-me que todos os dias vê a sua caudatária na foto que tem no quarto de dormir. Gostei de vê-lo, bem disposto, sempre inconformista e lutador; têm poucos pontos de contacto com os outros manos V., a não ser uma leve aparência física com o Zé V. Este esteve sempre calado, sorumbático;  como V. sabem, não é mau rapaz. A Pilar confessava muitas queixas dele, algumas, até, impróprias para se passarem a letra de forma. O seu maior problema reduz-se, aliás, a dois temas: a obsessão pelo $ e a fraqueza de cirandar à volta dos poderosos ou de quem ele julgava poderosos, principalmente poderosos financeiramente.  
Deveria gostar que lhe caísse em cima uma chuva de moedas de oiro, mesmo que sufocasse com elas. 
Voltando aos "laurentinos" - não tenhamos ilusões - aparentavam mais conhecimento do que tinham na realidade; tinham "afinado" os modos, o vestuário e o falar, enfim, estavam aburguesados. L.M. era uma cidade cosmopolita, encharcada com "bifes" e "bifas" e algumas - ainda que por vezes, pequenas - comunidades europeias e asiáticas. 
Lembro-me de ver desembarcar no cais Gorjão homens e mulheres que iam da Metrópole tentar melhor vida. Vestiam de acordo com a ideia que nós tínhamos dos parolos, elas mal se aguentando nos sapatos de salto alto, eles abafados em fatos de fazenda escura, possivelmente da indústria da Covilhã, ao contrário dos laurentinos que preferiam tecidos e padrões ingleses, fugindo do fato completo e trajando mais ligeiramente; o fato ficava para cerimónias e para as sessões cinematográficas dos sábados à noite, primeiramente no Gil Vicente, depois no Manuel Rodrigues, onde se encontrava o mundo dito elegante e bem cotado financeira, social e com um bom cargo político, militar e/ou civil.! Pouco depois, a parolada, aligeirava e simplificava o traje, sendo que alguns até adoptavam as "balalaicas"; ganhavam cores mais claras, modos mais desembaraçados, atitudes menos convencionais e tornavam-se iguais a todos os demais outros; tinham vestido o modelo da cidade e riam-se discretamente após os desembarques dos navios mercantes das Companhias Nacional e Colonial que levavam a L.M. o conforto dos produtos metropolitanos. 
Lembro-me que o meu Pai tinha conhecimentos a bordo dos vários vapores; levavam-lhe queijos e queijinhos, para além de enchidos e outros mimos da Metrópole. Creio - se memória me não falha - que até recebia bacalhau. Lá bem no fundo da alma, o Avô Alfredo, sonhava em voltar a Portugal para aqui viver. Não sentia a terra como se fosse dele, ao contrário da Vossa Avó que ainda hoje se queixa por ter sido obrigada a deixar a sua terra. 
V. lembram-se da nossa vizinhança na Princesa Patrícia? No nosso prédio viviam um Pombal (o Manuel Luís e a mulher a Yolanda Valério), o Coronel Inocentes, além de um vigarista (ou não fosse ele um vendedor de carros, aliás simpático, aliás, muito mais do que a mulher - creio que de nome Noémia - a "Nena", uma pretensiosa armalhona, irmã de uma Cândida ainda mais armalhona e cretina); ao nosso lado direito, um português (Romão Duarte) casado com uma alemã com cujos miúdos V. brincavam, o João e a Ticky que creio se terão fixado na África do Sul; na casa seguinte vivia um casal alemão que apenas vi umas duas vezes em 12 anos de permanência ali; na esquina, um dinamarquês casado com uma goesa; na esquina fronteira, um casal de gregos e, depois um prédio com uns 8 apartamentos onde moravam os Marques Pinto; frente a nós uma holandesa pesporrenta, insuportável e mandona, a Pauline, e o marido o Comdte. Casaleiro Tavares que nem sei bem de que é que era comandante; era um bom fotógrafo amador, premiado em todo o Mundo; há por aí umas fotos que ele me tirou e que andaram por tudo quanto era salão de fotografia; creio, até, que foi premiada num qualquer salão. Ora isto remonta ao início dos anos 60, muito lá pelos inícios. 
Volto ao velório; antes que a retirassem para a cremação, como acima disse "reportada" pela TV interna, encontrei o irmão e a cunhada da Pilar que já contactáramos há vários anos em casa do então casal V. 
Como V. vêem, e lêem, já começaram a partir os nossos conhecimentos. É mesmo assim porque volta e meia dizem-nos que morreu alguém que nós conhecemos - mesmo que vagamente - em tempos idos ou alguém que deixámos de ver. 
Com a idade passámos a procurar mais o isolamento, o sossego, o Tempo de termos tempo para coisas para as quais nunca tínhamos tido disponibilidade. 
Com a idade, com a Velhice, as recordações são mais vivas mesmo que diluídas pela atmosfera do tempo tal como as imagens ganham tonalidades róseas ou sépia, as mesmas das fotos antigas.
V.W. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:14


6 comentários

Sem imagem de perfil

De Miguel Castelo-Branco a 02.11.2009 às 19:07

Nuno:
O Pai é um grande escritor. Li e reli mil vezes o texto. É assombroso.
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 02.11.2009 às 19:18

Pois, mas pensei melhor e tirei os nomes, ehehehehehe. Lembras-te dos episódios, não?
Sem imagem de perfil

De JMB a 03.11.2009 às 03:42

Nuno,
Já li duas vezes, correm-me lágrimas de afinidade pela cara abaixo.
Vou ler pela terceira vez e ocorreu-me que se eu me fosse para o além, a meio da leitura, ia feliz. Coisa que ninguém conseguiu fazer de mim e que eu saiba, nem de outros.
Peço desculpa por ir divulgar. Primeiro ao Senhor seu Pai que tive o previlégio de conhecer. Também ao Miguel ao Nuno e à Ângela.
É que não se trata de brilhantismo, trata-se de genialidade. Na minha modesta opinião.

Obrigado.

José Manuel Barbosa.
Sem imagem de perfil

De João Amorim a 03.11.2009 às 11:25

O Nuno e o Miguel são uns privilegiados.
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 03.11.2009 às 18:20

Ao JMB e João Amorim.

A política não é tudo. Afinal de contas, as "pequenas coisas" da vida são o que mais interessa e fica!
Imagem de perfil

De João Mattos e Silva a 03.11.2009 às 23:36

Porque tive a sorte de conhecer um dia Victor Wladimiro, a quem tento fiquei a dever, e de em diversas ocasiões apreciar o seu sentido de humor, o seu sentido crítico e de, quando também nos cruzámos nas lides literárias, ter lido escritos seus num português claro e elegante - que soube transmitir ao Nuno e ao Miguel,a par de muitas outras qualidades - deleitei-me a ... ia dizer ver...ler esta história e a imaginar os seus vários intervenientes. Não haverá por aí um jovem realizador que queira fazer uma curta metragem? Perder-se-ia,por certo a excelente escrita, mas ganhava-se um divertido filme sobre nós, portugueses.

Comentar post







Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas