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Na Tailândia

por Nuno Castelo-Branco, em 13.11.09

 O governador de cada província, secundado pelas chefias militares e policiais, pelas organizações profissionais, estudantes, funcionários públicos, dignitários religiosos, camponeses, operários, escuteiros e ONG's suspendem por minutos as suas actividades e dedicam o momento em que o sol se põe ao homem que na paz e na guerra, desde 1946, é o mais acabado exemplo do serviço à nação. É impressionante, mas é verdade. As províncias disputam o prémio do maior comício patriótico. Apenas são proibidos símbolos partidários, pois a nação ultrapassa todas essas ninharias. Nada do que vêem é postiço, arregimentado, obrigado. Aqui não houve comunismo nem haverá plutocracia.  (MCB, Combustões)

 

Fui pela primeira vez à Tailândia na passagem de 1989 para 1990 e tive duas semanas tão inesquecíveis, que durante anos não consegui imaginar outro sítio onde passar férias. O país é vasto e oferece cenários únicos, desde as montanhas do norte, até às praias banhadas a ocidente pelo Índico e a oriente, pelo Pacífico.

 

Surpreendeu-me o civismo de um povo que visto de longe, é geralmente amalgamado naquela massa que o homem branco designa por subdesenvolvimento. No entanto, ao fim de poucas horas decorridas desde a chegada à capital, apercebi-mede uma cidade povoada por gente nova e que nas ruas exibia uniformes escolares. A Tailândia oferece ao mundo uma invejável taxa de mais de 97% de alfabetização, com tudo o que isso significa. Cai por terra a alegação do paternalismo, uma vez que este apenas funciona em sociedades iletradas, onde um profundo e escondido sentimento de inferioridade impõe o acatamento do poder daquele que é considerado como o "mais forte, mais rico e que tudo pode fazer". Todos sabem o que quero dizer.

 

Quando vamos a uma sessão de cinema, antes do início do filme soa o hino real que é respeitosamente escutado de pé por todos, sejam eles tailandeses ou estrangeiros residentes. Evidentemente, existe sempre um ou outro "farang" (1) que permanece impassível, sentado  a comer as suas pipocas, completamente indiferente ao olhar reprovador dos demais. Às seis da tarde, estejamos onde estivermos - no centro comercial, bazar, taxi ou barbeiro -, escuta-se o hino nacional. Todos param o que estão a fazer, para um momento de silêncio que dita a normalidade do quotidiano. 

 

Os tailandeses gostam de ver os estrangeiros em atitudes respeitosas para com os seus costumes. Lembro-me de um certo dia, quando na estação ferroviária de Hua-Lumpong (Bangkok) me preparava para viajar para o sul, ter soado o hino nacional. Como seria normal, levantei-me, escutei-o e no fim, verifiquei que à minha volta só via sorrisos. Há vinte anos os estrangeiros ainda não tinham atitudes consentâneas com o estatuto de visitantes de um país antigo e muito cioso daquilo que sempre foi.  Quanto a este elementar respeito a ter para com os outros, creio que os portugueses são bastante permeáveis, adaptando-se e participando em pequenas mas significativas atenções que fazem a diferença.

 

Quando em 1996 passei seis meses em Bangkok, frequentei uma escola de línguas, a AUA. A minha classe de tailandês era composta por europeus e alguns asiáticos, entre os quais alguns indonésios - bastante divididos, devido à ditadura de Suharto -, japoneses, coreanos, chineses e indianos. Um dia, foi anunciada a visita de um membro da família real, uma das filhas do rei Bhumibol, sempre interessada nas actividades académicas. Recebemos algumas delicadas recomendações de etiqueta e para meu espanto, os meus colegas brancos revoltaram-se em relação a alguns procedimentos normais, entre os quais, a necessidade de permanecer sentado - ou seja, mais baixo - enquanto a princesa nos dirigia a palavra. Quando S.A. entrou, todos os asiáticos obedeceram à norma, sentando-se. Quanto aos europeus, fui o único a cumprir o estipulado, permanecendo os meus colegas franceses, americanos, alemães ou dinamarqueses desafiadoramente de pé e alguns com as mãos nos bolsos! O Miguel sabe bem do que falo.

 

A princesa foi percorrendo a sala, trocou impressões com bastantes alunos e pela simpatia, desarmou o desplante de alguns membros da "raça superior". Seguiu-se um pequeno repasto para o qual todos foram convidados. Todos? Não. Apenas aqueles que respeitaram as regras básicas de cortesia dos donos da casa. O único branco a deliciar-se com as iguarias de uma das mais famosas cozinhas do mundo, fui eu. Sorrindo, a filha do rei perguntou-me de onde vinha:

 

- "De Portugal, Alteza".

 

- "Compreende-se a razão pela qual o vosso país é tão respeitado na Ásia e como conseguiu manter um império durante tanto tempo"...

 

Foi simples. E nem sequer tive de fazer qualquer tipo de kaow-toi. Se fosse parte da etiqueta, executá-lo-ia sem qualquer problema. Não era o que há quatrocentos anos os nossos embaixadores costumavam fazer em Pequim? Ao contrário dos ingleses - que desdenhosamente o recusavam -, não precisámos de fazer guerra à China para obter Macau. Outros tempos.

 

(1) Farang: designação dada ao homem branco, seja ele norte-americano, europeu ou australiano.

 

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publicado às 15:03


2 comentários

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De João Quaresma a 13.11.2009 às 18:02

Excelente post. Pena é que por cá se continue embasbacado com o Euroshopping, a afundar-nos na mesma decadência, sem seguirmos os exemplos dos povos realmente civilizados.
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De Nuno Castelo-Branco a 13.11.2009 às 21:46

O que se há-de fazer, João?

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