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A arrogância dos nossos hóspedes

por Nuno Castelo-Branco, em 18.11.09

  

"É o fado do gueto: viver numa sociedade sem a compreender e ter como interlocutores meia dúzia de pessoas que mentem sistematicamente por delicadeza. Aprendi-o com os alemães: dizem em inglês aquilo que julgam compaginar com uma certa ideia de bom-senso e dizem em alemão aquilo que pensam. O cosmopolita não é cidadão de pátria alguma. Finge que está integrado, mas ao chegar ao supermercado não sabe pedir à empregada da frutaria um simples alperce."

 

Todos conhecemos muito bem aquilo que o Miguel diz. Existem por cá muitos estrangeiros - geralmente europeus - que se recusam a falar a nossa língua, porque "não vale a pena nem é necessário perder tempo". São exactamente os mesmos que vociferam com os empregados de café que não falam inglês. São os mesmos que protestam contra a falta de qualidade dos nossos serviços - que não sabem solicitar ou entender nas repartições -, que desdenham dos nossos produtos, que dizem que "Portugal só produz cortiça", que "não se dão com portugueses", que "nada há para fazer", que "não se misturam", etc. Se comentam as nossas letras, procuram sempre ir buscar referências estrangeiras que parecem influenciar os nossos autores. Nos monumentos, andam à cata de mão genial chegada da Europa ocidental ou central, como se a Alemanha, França, Inglaterra ou Espanha não têm estampada nas pedras, decorações interiores, estatuária e artes decorativas, centos de nomes contratados para servir o patrono. Como se isso fosse exclusividade portuguesa!  A nossa música não existe e resume-se a Amália.  

Estes entes superiores estão mal habituados, porque no nosso país sabem poder contar com uma certa condescendência - é o nosso tradicional comedimento que se confunde facilmente com aquiescência -, mesmo perante os maiores dislates que muitas vezes chegam à ordinarice xenófoba. Conheço alguns, a quem por vezes escutei com impaciência e depois questionei acerca do que estão aqui a fazer. À pergunta sobre a razão de chegarem a Lisboa, nomeados do seu país para lugares que mal podem exercer - e fazem-no, apenas porque são estrangeiros -, gaguejam umas desculpas incompreensíveis. Não lhes dou a mínima margem de manobra para pisar o risco e concluo rapidamente a troca de galhardetes, fazendo-os ver a conveniência de Lisboa - e do Porto - terem aeroportos praticamente dentro da cidade: em vinte minutos podem regressar ao sítio de onde vieram, porque para cada um deles que se quer ir embora, temos milhares a querer entrar. Sobretudo, os que agora nos batem à porta, são gente que fala a nossa língua, sujeita-se ao que temos para oferecer, pode ser mais útil e não pretende desdenhar do prato por onde come.

 

A culpa é em parte nossa. Há por aí quem procure copiar tudo o que vê lá fora e ainda há pouco tempo, li estupefacto, um artigo num "jornal de referência" que em nome do atrasado mental que o escreveu, agradecia não se sabe bem o quê, "ao futuro Obama português que ainda não nasceu"!

Estamos habituados a ler e a ouvir os nossos doutores da praça arrotar cobras e lagartos acerca de Portugal, dos portugueses - "raça má" - e diante dos estrangeiros, espolinharem-se numa subserviência que faz agoniar. Querem fazer-se passar por "iguais a eles", num rastejar que apenas os avilta aos olhos do intruso.

 

Estes sinapismos existem há muito tempo e dantes chamavam-lhes "estrangeirados". Por mim, ficam-se como borra-botas. Alguns até chegaram à presidência!

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publicado às 19:20


2 comentários

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De Cristina Ribeiro a 18.11.2009 às 20:30

Nem sempre nos pusemos assim de cócoras perante o estrangeiro. Sempre fomos hospitaleiros, mas com o nosso orgulho, próprio de um país com um passado glorioso e com um futuro para cumprir: agora, com tantos escândalos e tanto terceiro mundismo desprezam-nos...
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De editor69 a 18.11.2009 às 23:50

Bang bang,Nuno...nem mais!

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