Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Aviando melenas e galões

por Nuno Castelo-Branco, em 23.11.09

 

 

A propósito de uma curta polémica com um oficial - presumo que na reserva - das Forças Armadas, verifico o sempiterno recurso à coacção moral de quem pretende afastar o inimigo do caminho, utilizando aquilo que imagina ser um insulto. Neste tipo de troca de opiniões, o truque do ataque preventivo é tão velho quão conhecido e no meu caso, inicia-se sempre através da questão monárquica. O termo fidalgo surge como pretensa chacota enluvada de insulto gratuito. Não sendo o caso - e mesmo se fosse ! - ligam-no quase automaticamente ao apelido da minha mãe que já há décadas uma professora e os colegas da escola acabaram por normalizar. Não tenho complexos ou pretensões no que a isto se refere e sinceramente, a questão não é relevante.

 

Os posts que aqui tenho colocado e que dizem respeito a questões que envolvem a instituição militar, são por regra respeitosos para com o legado que as Forças Armadas representam. Conheço bem a génese deste país, a sua consolidação e expansão, não esquecendo os momentos difíceis da retracção e os períodos cíclicos de ascensão e decadência. Os militares, parte do povo que somos, estarão para sempre ligados à existência da entidade Portugal em tudo o que esta significa, desde as esboroadas muralhas dos castelos medievais, às pedras de armas das fortalezas que pontilham o litoral africano, asiático, sul-americano e até do sertão amazónico.  Sabemos o que Portugal deve aos seus militares e ao determinante papel na consolidação territorial pluri-continental daquilo que poderá um dia vir a ser uma Comunidade Lusófona que transcenda os até agora limitados desígnios da afectividade. Como parte do povo no qual os militares portugueses participam, conhecemos bem as suas virtudes, assim como as suas limitações. Sabemos que o mundo mudou e que o papel reservado ao pequeno Portugal é hoje bem distinto e minguado, se o compararmos com as possibilidades que lhe eram atribíveis noutros tempos. Quem acredita hoje na capacidade nacional de fornecer quadros administrativos para o antigo Império de 1973? Como será possível alguém acalentar qualquer tipo de ilusões a respeito da contenção de uma invasão estrangeira ao nosso território? Não temos capacidades materiais no terreno e pior que isto, já não existe a força anímica que há duzentos anos acabou por galvanizar a população na liquidação do invasor até então sempre vitorioso na Europa. Não vislumbramos a vontade de resistência e nem os meios que a possibilitem. Hoje, seria impossível a transferência da soberania nacional para uma parcela do território além-mar, simplesmente porque o Estado é outro e as idiossincracias que o nosso tempo impõe condicionam-nos fatalmente. 

 

Estas linhas, devem-se ao recorrente discurso em que um país inteiro se torna refém do reclamado heróico legado de umas dúzias de heróis mais ou menos anónimos. Reivindicam a categoria de conquistadores e defensores da liberdade, como se as suas provectas carreiras efectivas, não tivessem começado muito antes dos acontecimentos da madrugada de 25 de Abril de 1974?! Quer-se fazer passar a mensagem  da real existência de um risco de morte nos acontecimentos da Ribeira das Naus ou neste ou aquele ponto da capital portuguesa, em riscos de combates jamais ocorridos. Mas o que dizer então, do pleno conhecimento que os autores do golpe tinham acerca da mais que provável inanição de um regime que moralmente já se demitira das suas funções de conformação do poder? Ousariam os militares agir, se não tivessem há muito a consciência da impunidade, ou melhor, do previsível passeio pelas ruas de Lisboa? Quem os formou e o que fizeram durante as seis décadas que antecederam 1974? 

 

Não garantiram as instituições a que nominalmente estavam vinculados. Passando sobre o infeliz episódio da abstenção de 1908 e 1910, o que poderemos dizer acerca das gravíssimas responsabilidades na balbúrdia sanguinolenta - nas premonitórias palavras de Eça - da 1ª república, no golpe sidonista de Dezembro de 1917, no 28 de Maio e consolidação republicana em 1933? O que dizer das presidências que consecutivamente se lhes atribuíram em Belém? Quem organizou toda a logística e entusiasmada organização no terreno da Guerra de África? De onde surgiram afinal, esses militares do 25 de Abril, sempre dispostos ainda hoje, à última palavra no que respeita ao porvir da nação? Acaso pensam que já nos esquecemos do risível primarismo que o degradante espectáculo oferecido televisivamente a uma espantada Europa, alguns promovidos protagonizaram? 

 

Somos autênticos reféns de uma geração já antiga, mas muito ciosa dos seus pergaminhos auto-lavrados. Sabemos quem os formou, o que não quiseram ou souberam ler e escutámos horas a fio todo o tipo de vacuidades que confirmavam a total incapacidade para a gestão da sociedade civil. De formação fortemente impregnada de um estadonovismo corporativo, são estes que ciclicamente surgem na imprensa como os guardiães de uma sacra-legitimidade que reivindicam perante milhões que não lhes reconhecem os feitos ou os nomes. Argumentarem com um Salazar a quem serviram durante anos e cujo regime derrubaram quando lhes foi conveniente e bem após a morte do Chefe, parece ser fácil, quando na verdade tudo isto se torna bastante mesquinho e estúpido. Salazar é para a minha geração de meia idade, um homem de Estado tão distante, como Afonso Costa foi insignificante para a minha avó. Quando nasci, Salazar era da idade do meu bisavô e Álvaro Cunhal já tinha mais idade que a minha avó. Em 1974, já eram relíquias históricas, uma delas já desaparecida do mundo dos vivos e outra há muito mergulhada no pântano da impossibilidade que a humanidade acabou por liminarmente rejeitar.

 

Todos sabemos de estórias de impetuosos militares que em muito excederam as suas atribuições nas picadas africanas, fazendo resvalar  as suas estritas incumbências para um aventureirismo que nas cidades ultramarinas se denominava de mata-pretos e que revoltava os "pérfidos colonos" há décadas estabelecidos naquelas prometidas futuras pátrias lusíadas. Há por aí, quem se pavoneie em tertúlias laudatórias de períodos baladeiros, evaporado das suas diminutas memórias, o claro suporte que prestaram a um estado de coisas de que em grande medida beneficiaram. As até certo ponto apetecíveis comissões, a guerra do ar condicionado e do Clube Militar de Lourenço Marques, Bissau ou Luanda, o estabelecimento de contacto para prometedores negócios que se plasmaram - e que existem - no antigo Ultramar, tudo é varrido em benefício do luminoso cartaz que titula o filme do Libertador abnegado.  Ainda há quem acredite numa clara intenção de devolver a democracia de corte mais ou menos liberal, a um povo que de facto a perdera nas "três auroras" de 1910. Não, sabemos que isto em nada corresponde à verdade dos factos. A revolta existiu e em perfeita conformidade com as regras do sistema das Corporações que a Constituição de 1933 consagrara com dogma e a saída para as ruas revelou o descontentamento de classe profissional, onde as questões de foro carreirístico se sobrepunham a tudo o mais. A questão da forma democrática do regime a instaurar, surgiu como oportuno e incontornável recurso.

 

Falhada uma Revolução que jamais o foi - sem bases intelectuais, sem apoio popular e sobretudo, sem uma capacidade de liderança sistemática que a viabilizasse -, os bravos madrugadores remeteram-se na sua maioria, às suas vidas profissionais, dentro ou fora das Forças Armadas. Sem qualquer tipo de habilitações académicas - o grave, profundo e capital erro da 2ª república -, totalmente inconsistentes no plano ideológico e absolutamente incapazes da gestão corrente da mais ínfima parcela administrativa nacional, alguns pensaram poder institucionalizar-se como parte indissolúvel do Estado, como se as Forças Armadas não fossem um dos fundamentais esteios deste! No fundo, tratou-se de uma simples e nítida manobra daquilo a que hoje denominamos de lóbismo e que se patenteia descaradamente nesta ou naquela associação saudosista de tempos ignotos e indesejados pela esmagadora maioria dos portugueses de que deles jamais ouviu falar. 

 

Acabado o seu papel no seio dos diversos ramos das F.A. houve quem se tivesse dignamente retirado para a vida da reforma, muito justamente auferindo dos privilégios que a sociedade civil lhes conferiu e ainda subsidia. Outros houve que súbita e infalivelmente apaixonados por uma África que apenas lhes conformou as carreiras, mergulharam no vórtice dos vasos comunicantes dos negócios com os antigos inimigos que durante algum tempo não souberam sequer respeitar como seres humanos e a quem coloridamente denominavam de forma inaceitável. Há quem tenha chegado a deputado, à falta de grã-cruz!

 

Felizmente, hoje a formação é outra. Existe um punhado de militares da velha guarda que tendo crescido com a conhecida deficiência formativa de outras eras, procurou informar-se, estudou e conheceu. Episodicamente são convidados de honra em programas televisivos e diante de uma espantada audiência que já não reconhece um antigo primarismo, fala com conhecimento e surpreende pela inteligência, seriedade e total ausência de oportunismo político. O general Eanes é uma raridade que devia ser a regra, mas infelizmente, os sobreviventes da sua geração permanecem aferrados ao quixotismo  da arremetida em heróicas correrias de rua com blindados sem munições, campanhas de alfabetização sem alfabeto e de sistemática destruição daquilo que desprezavam, porque desconheciam por preguiça intelectual de querer aprender.

 

Já não são militares, são uns gordinhos pândegos que falam de si para si e de si para os seus. Estão no seu pleno direito de se entreter, tal como outros da mesma geração, os civis, jogam às cartas nos jardins públicos de Lisboa. Não podem é continuar a pretender puxar o lustro de galões que a sociedade já não consegue ver. Aliás, nem sei se o centro de produção do Freixial ainda existe.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:18


1 comentário

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 24.11.2009 às 01:10

Lembram-me os deputados da Assembleia da Republica em amena cavaqueira e a ... fazer nada... simplesmente a passar o tempo.

Comentar post







Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas