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Visita à Nona Arte

por João Pedro, em 24.11.09
Teve lugar há dias o Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Lá me desloquei ao certame, tal como já tinha feito no ano passado, embora com o risco de me perder no meio daquelas fieiras de prédios todos iguais. O pretexto eram os cinquenta anos de Astérix; a razão era a minha velha mas controlada paixão por BD.
Sobre o herói gaulês esperava mais. Uma única sala com memorabilia, os álbuns todos da colecção, e um ou outro autógrafo de Uderzo, mais dois simpáticos sósias de Astérix e Obélix a cumprimentar as pessoas e a animar a miudagem era manifestamente pouco para a importância que os gauleses tiveram para a BD. Se a cultura francesa está em declínio, os "irredutíveis" são a excepção mais óbvia. Tornaram-se personagens conhecidas no mundo inteiro, os seus álbuns deram origem a filmes (animados e não só), o Parc Astérix rivaliza com a Eurodisney. Não admira que o general De Gaulle gostasse tanto do pequeno guerreiro.

 
Fui e sou um fã de Astérix desde miúdo, quando lia os álbuns que os meus pais compravam, em francês e português (aprendi em grande parte a ler em francês graças à banda desenhada). Os meus preferidos serão talvez o Astérix entre os Godos, Astérix entre os Bretões (o mais hilariante, influência do "british humour"?), A Zaragata, e Astérix Legionário. Todos absolutamente brilhantes, com aqueles anacronismos propositados, como os capacetes dos godos, a lembrar os pickelhaubes alemães da 1ª Guerra, os hábitos dos bretões, as vendettas dos corsos e o modo de falar dos belgas. Com a morte de Gosciny, Uderzo tomou o argumento em mãos. A série tornou-se mais desvairada mas perdeu a subtileza e o brilho anteriores.

 



Mas havia mais para além de Astérix no certame. De novos talentos a homenagens a Maurício de Sousa (da "Turma da Mónica"), havia de tudo. Gostei acima de tudo das recordações de outras edições anteriores e de outros mestres da BD portuguesa. Não faltavam exemplares do Mosquito e entrevistas gravadas a desenhadores como José Garcês e José Ruy.



Acima de tudo gostei de ver a memória de Eduardo Teixeira Coelho, um dos maiores autores de sempre da Nona Arte portuguesa, senhor de uma farta bigodaça que faria inveja a Dali e a Nietzsche e que ganharia com certeza o concurso da modalidade. Era açoriano, de Angra, mudou-se para Lisboa nos anos trinta, trabalhou como ilustrador, tornou-se conhecido no Mosquito e, mais tarde, no Mundo de Aventuras. Viveu em Espanha, em Inglaterra e em França (com o pseudónimo Martin Sièvre), até se mudar para Florença, onde morreu em 2005.


 

 



As suas obras versavam antes de mais sobre aventuras ou acontecimentos históricos, com um traço limpo e simples. O Caminho do Oriente, dos anos quarenta, com textos sem balões, é um dos melhores exemplos disso. A viagem de Vasco da Gama vista pelos olhos de um endiabrado grumete, Simão Infante, contada em banda desenhada a preto e branco. Tenho os seis álbuns da obra, oferecidos num Natal já muito longínquo, teria os meus nove, dez anos. Para se conhecer a obra de Eduardo Teixeira Coelho, é uma óptima iniciação. Reflecte bem o talento do autor em mergulhar o seu leitor num universo de aventuras de outros tempos, e numa dimensão histórica que de outra forma, excepto no cinema e em rara literatura, é quase impossível de recriar. Para além do inevitável escape, a capacidade didáctica e cultural da Nona Arte, num mundo tão tecnológico como o que vemos hoje, consegue sempre surpreender.

 



Tive também oportunidade de conhecer uma obra tão interessante quanto recente, acabada de lançar. Ricardo Cabral, desenhador de BD, viajou por Israel em 2007, e montando base em Tel Aviv, partiu para o resto do país, percorrendo-o do Mar Morto a Eilat, passando por Jerusalém, o Neguev e Gaza (só ficou mesmo a faltar Haifa). Registou cada cidade ou cenário digno de nota, através de desenhos nos vários moleskines que levou consigo. Os mais impressivos são sem dúvida as do Mar Morto, pela alucinante paisagem de um vale de sal, água e rocha, e de Jerusalém, a Cidade Santa, sobretudo o friso onde se misturam soldados a cavaquear, turistas de mochilas e máquinas fotográficas a tiracolo, vendedores ambulantes árabes e frades de mais do que uma ordem. Todo esse trabalho ficou registado no álbum The Israel Sketchbook, obra de grafismo interessante e realista, num percurso que permite ir conhecendo o país do litoral para o interior, e das cidades para o deserto. Uma boa surpresa. O legado dos mestres da BD portuguesa está assegurado.

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publicado às 19:26







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