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A reserva mental encontra-se por vezes, habilidosamente camuflada por um certo amadorismo no fazer de política. As questões relacionadas com a Defesa Nacional, carecem sempre de ponderado juízo das diversas situações que se apresentam ao país e antes de tudo, devem basear-se no escrupuloso cumprimento das regras a que a participação de Portugal nas alianças impõe.

 

Vem agora o Bloco de Esquerda reivindicar para o Parlamento, o poder de autorizar - ou não - a participação das Forças Armadas em operações fora do território nacional. Pretendendo escamotear os princípios que conformam a Aliança Atlântica, o grupo parlamentar da extrema-esquerda usa os argumentos recorrentes do populismo de fácil audiência que faz a agenda política. 

 

O sr. Fernando Rosas vem declarar que ..."a guerra (do Afeganistão) transformou as nossas forças armadas numa espécie de corpo expedicionário ao serviço da Nato". Goste ou não o BE desta evidência, é precisamente disso que se trata. Dito isto, conclui-se que o sr. deputado jamais dever ter beneficiado da mais ténue ideia daquilo que a Aliança Atlântica pressupõe. Os exércitos componentes do Pacto, são em caso de necessidade colectiva, obrigados a exactamente àquilo que o BE rejeita. Se a existência da URSS e do Pacto de Varsóvia indicava a Portugal a formação de um Corpo Expedicionário a ser colocado na região do Véneto (Itália), hoje a situação é outra. Não estando em causa a nossa discordância acerca da imperiosa necessidade da participação das Forças Armadas Portuguesas no conflito afegão, a posição de Portugal no seio da NATO não pode merecer qualquer dúvida por parte dos principais agentes, precisamente aqueles que mais têm contribuído para a existência do sistema de segurança colectiva da Europa: os Estados Unidos da América e o Reino Unido. Afinal,são os nossos aliados tradicionais e evidentes interessados na preservação da autonomia e independência de Portugal, um país sempre firme e fiável nas horas críticas, desde os tempos dos conflitos israelo-árabes da década de 60-70, à Guerra das Falkland ou à Tempestade no Deserto.

Assim sendo, a posição do Bloco de Esquerda consiste apenas num exercício da sua conhecida capacidade subversiva daquilo que é a política externa portuguesa de séculos, numa clara manifestação de reserva mental. O país inteiro, aquele que interessa e que se interessa, percebe que o Bloco pretende "fazer de conta" não compreender.

 

A Defesa Nacional não pode ficar comprometida ou sujeita às guerrilhas partidárias num Parlamento cujo destino ou credibilidade se torna cada vez mais problemático. A inevitável reformulação do regime e dos órgãos de soberania, decerto consagrará o eterno princípio do interesse geral  - de Estado - que se sobrepõe a todos os outros. No caso da instauração da Monarquia, a decisão das matérias relativas à Defesa Nacional deverão única e exclusivamente pertencer ao âmbito da acção régia, Conselho de Estado e Governo.

 

Portugal não é nem jamais poderá ser um simulacro de uma Espanha, contumaz desrespeitadora de tratados assinados com terceiros. O caso do Iraque, onde a "foto dos Açores" foi poucas semanas após rasgada por uma nova direcção nacional partidária, consistiu no triste exemplo que apenas serviu para mostrar aos extremistas, a fraqueza intrínseca da nova situação que o PSOE de Zapatero trouxe à política interna e externa do país vizinho. Uma humilhante e muito apressada retirada que a ninguém passou despercebida, mas tolerada apenas pelos agentes mediáticos do politicamente correcto do sempre efémero momento. Os espanhóis pagaram-no caro pouco depois, em Atocha (1) e no "teste de pulso" de Perejil, com o paralelo recrudescimento da insegurança interna a soldo dos extremistas da ERC e da ETA.

 

Embora isso desagrade aos sectores marginais do costume, Portugal conserva o mesmo Aliado desde 1372, hoje transposto ou alargado ao Estado sucessor, os EUA. 

 

Se é primordialmente desejável a colaboração portuguesa no âmbito de países onde o interesse nacional - CPLP - é uma crescente evidência, tal não significa a aceitação de ditames provenientes de directórios políticos cuja falta de solidez doutrinária, desonestidade intelectual e reserva mental podem prejudicar irremediavelmente, a posição confortável do Aliado seguro que Portugal sempre foi.

 

(1) Aliás, o "caso Leganés", felizmente desmantelado, confirma-o. Como alguns leitores muito bem chamaram a atenção, o atentado em Atocha ocorreu durante a campanha eleitoral que daria a vitória a Zapatero. É evidente que a inabilidade do governo Aznar, levou o eleitorado a penalizar o PP. Ninguém gosta de ser enganado e no dia do atentado, ninguém duvidou da mão da Al-Qaeda. Apesar disso, o que está em causa é a ziguezagueante política externa de Madrid que voga ao sabor do partido do governo, alternando facilmente posicionamentos. Isto deriva do eterno dilema dos vizinhos que querem ser parte dos "grandes" da Europa e sabem que em boa medida, também dependem do espaço atlântico. Tem profundas raízes históricas e verificou-se precisamente o mesmo a partir do século XVI. As guerras pela hegemonia europeia seriam até, uma das causas do progressivo e irreversível afastamento de Portugal em direcção à independência de 1640. Mais tarde, todo o século XVIII - já no período boubónico - assistiria à confirmação dessa dualidade, com o envolvimento espanhol em praticamente todos os conflitos continentais, culminando com o apoio aos EUA durante a Guerra da Independência americana, afinal um prolongamento da rivalidade entre o bloco franco-espanhol e a Inglaterra.

 

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publicado às 18:26


6 comentários

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De Lu a 09.12.2009 às 21:48

Importa referir que a Espanha de Zapatero foi o único país do mundo a ceder a uma chantagem de um grupo terrorista.
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De tiago santos a 10.12.2009 às 01:04

Comete um erro no texto: atocha foi antes das eleições que o PSOE e foi a provavel causa da vitória. Não foi um governo que se lembrou de repente de mudar tudo, foi um povo que se apercebeu da trapalhada que o anterior governo cessante os tinha posto com a brincadeira dos açores...
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De João Pedro a 10.12.2009 às 01:42

Ia dizer isso mesmo: Atocha aconteceu ainda antes das eleições, e condicionou o voto, embora mais pelas trapalhadas do governo da altura e pelas suas desculpas para fazer crer que a autoria era da ETA do que pelo atentado em si.

Não é só quanto à NATO que o Be tem reserva mental: o caso do Colégio Militar é outro que tal.
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De tomas a 10.12.2009 às 03:14

Gostaria de fazer a observação que o país vizinho que voltou atrás com a palavra dada é uma monarquia, com a tal figura estabilizadora régia que afinal não os impediu. E nós por cá não rasgámos fotos nenhumas que eu me lembre.

A ideia da monarquia é excelente, se o Rei for excelente, tal como uma ditadura também é excelente se o ditador for excelente, ou qualquer sistema de governo, até a anarquia, é excelente se as pessoas que o constituem são excelentes. Se não o forem, como muito frequentemente não são, limitam o fruir das vossas expectativas. Não sei até que ponto é que a existência da figura régia e da tradição e estabilidade (o "pai" na família do país, por assim dizer) não causará o efeito psicológico nos partidos de encorajar comportamento irreverente em oposição, numa forma de rebeldia pueril à figura "autoritária". Com um presidente de mãos atadas o governo sempre sente que não existe ninguém acima dele e que toda a responsabilidade que o estado pode exibir tem que provir deles.

Calculo que nenhum (ou poucos) dos colaboradores deste blog tenha alguma vez sentido esse impulso de rebeldia à figura autoritária na vida, mas para aqueles que não tiveram o privilégio de ter os vossos pais e receber a vossa educação (que espero que tenham noção que são a maioria eleitora e eleita) esse impulso é aliciante e uma ferramenta de manipulação de massas eficaz e difícil de abster de usar.
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De Ana Campos a 10.12.2009 às 12:26

Vivemos todos sob uma ameaça interna e externa.
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De Nuno Castelo-Branco a 10.12.2009 às 17:36

Têm razão. Atocha foi antes, mas isso não invalida a errática política externa espanhola, aliás uma tradição que oscila entre a Europa e o Ultramar.

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