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Mar de Chamas (VIII)

por Fernando Melro dos Santos, em 20.06.17

Under a government which imprisons any unjustly, the true place for a just man is also a prison.

-Henry David Thoreau

 

 

Para o mal e para o bem, se houver Juiz que julgue olhando para os pratos da balança que me norteou a vida, a única certeza é a de nunca ter alterado a norma de aferição: sempre fiz aquilo que, individual e livremente, me pareceu o correcto. Refiro-me ao absolutamente correcto, ao Bem, àquilo que é devido fazer mesmo que, amiúde, tais actos não me tragam quaisquer benefícios ou possam, até, prover contra o meu bem estar.

Desde que seja, no exercício da adequação entre as minhas faculdades intelectuais e emotivas, aquilo que se afigura como certo, então faz-se.

Em que benefícios cessantes ou perdas directas incorre quem assim procede, num país como Portugal onde esta conduta é tida por alienígena e remetida para a gafanha social dos loucos mal inseridos? É breve a lista.

A família, de memória curta, já esqueceu o significado do luto imposto pela Nação e agita-se afoita a participar em festarolas de aldeia quando se chora a miséria estagnante de 64 mortos à mão da canga soviética que grassa há 43 anos. Recusar a imersão no banquete é, pois, de pária.

As entidades empregadoras, enquanto as houve, de sanha mantida à legua apenas por desempenhos profissionais e académicos sempre acima da bitola maior, abespinharam-se de nojo, baba, e horror perante a constatação de haver quem as suplante sem querer pertença nos lobbies apícolas onde viceja toda a sorte de corrupção - da senha diesel ao contacto da amiga mamalhuda, do contrato futuro até ao borrego Pascal. É de pária igualmente triunfar no mundo do lucro sem nunca ter dado o cu à camisola. 

Voluntariado? Quem não vos conhecer, que vos compre. As pessoas não são todas iguais, e como bem há dias desabafava uma amiga, onde houver mão autárquica haverá um esbirro a minar por dentro a mais paladinesca das corporações. Tanto pária que rumou de volta ao deserto após tentar abrir os poros ao chamamento do voluntariado.

Hoje a ministra Urbana deu uma entrevista aviltante, digna das obras distópicas mais surrealistas que todas as artes já produziram. E a concurso público, como todos os dias de todas as semanas de todos os meses, se veio distribuir à tripa-forra o dinheiro mendigado à parte adulta do Velho Mundo, onde é incogitável morrerem Rodrigos, bombeiros Brunos e Donas Marias sem que uma figurinha, um só cromo dos que pastoreiam a turba medonha de eleitores mentecaptos, venha dar-se em negrume, dor e ressarcimento genuínos.

Olhem, ide todos para o caralho. Sonho com o dia em que algum velho, carcomido e à beira de exalar o último bolçar do tumor geográfico, empale o Primeiro-Ministro (quem quer que seja) e seus sequazes num pau de oliveira ainda bem quente, afiado como dardo olímpico. 

 

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publicado às 12:03

SIRESPonsáveis

por John Wolf, em 20.06.17

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Os promotores do magistério intocável do luto podem transmitir às famílias das vítimas que o sistema de comunicações SIRESP provavelmente falhou e que alegadamente resultou na morte trágica dos seus parentes. Não existe árvore criminosa nem trovoada delinquente que possa ilibar a responsabilidade de políticos desprovidos de sentido ético. O luto, interpretado por todos menos os próprios inflamados, deixou de ser de pesar. O luto é indignação. O luto é raiva. O luto é exigir responsabilidades. O luto é pedir demissões. O luto não é um alibi para encapotar as verdades. O luto não é atribuir a culpa à natureza feroz. O luto não é silenciar aqueles que defendem a reserva natural da verdade e respectivas consequências. Não querem assumir a SIRESPonsabilidade? Deveriam ter vergonha na cara. Todos eles. Os governantes do passado, do presente e provavelmente do dia de amanhã. Em vez disso colocam paninhos quentes no eucalipto queimado.

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publicado às 09:28

Como ajudar os bombeiros neste momento (2)

por Samuel de Paiva Pires, em 19.06.17

Haverá certamente que apurar responsabilidades, debater estratégias e actuar no sentido de melhorar o dispositivo de prevenção e combate aos fogos. Até lá, é ajudar os bombeiros que estão no terreno e as populações afectadas por este flagelo. Entre as várias louváveis iniciativas, destaco a da Uber, que permite utilizar a aplicação para solicitar gratuitamente recolhas de donativos como água e bens não perecíveis.

 

Entretanto, para os que estão em Lisboa, podem entregar soro fisiológico (unidoses), compressas, ligaduras e adesivos, a qualquer hora do dia e da noite, no quartel dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, no Largo Barão de Quintela.

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publicado às 16:21

Mar de Chamas (VII)

por Fernando Melro dos Santos, em 19.06.17

Jorge de Almeida Bernardo:

 

" ... Mas reforço a minha indignação e revolta pelo ocorrido face a pelo menos três factos registados ontem no incêndio de Pedrogão e que revelam uma total incompetência e falha de atuação da cadeia de comando de ataque ao fogo, a começar pela própria Ministra da AI que é de facto um erro de casting :

 

A ) quando foram dados os primeiros alertas por telemóvel pelas 14H para o 112 de que havia duas aldeias do Concelho de Pedrógão cercadas de chamas e que se tinha formado já uma “ onda de choque térmico “, todas as redes de telemóvel estavam a funcionar e as chamadas terão certamente ficado gravadas . Mas, nenhum bombeiro lá foi, e numa das aldeias só lá foram esta manhã quando já tinham morrido carbonizadas 11 pessoas !!!

 

B ) Entre as 14 e as 19H de sábado, apesar de terem sido feitas muitas outras chamadas angustiadas para o 112 de pessoas encurraladas aparentemente ninguém na cadeia de comando mobilizou os recursos de combate que as circunstancias exigiam, nem ninguém declarou um alerta / mobilização distrital . Como qualquer pessoa que saiba minimamente de combustão de biomassa florestal um fogo destes tem que ser combatido com auto tanques de água pressurizada durante a primeira hora após o inicio da deflagração !!!

 

C ) As Famílias que saíram da praia fluvial de Castanheira de Pêra foram aconselhadas pelas autoridades para irem pela Estrada Nacional diretos ao IC8 porque era o caminho mais seguro, evitando assim as estradas secundárias !!! Só que não estava ninguém na Estrada Nacional ( !!! ) nem sequer no nó de ligação ao IC8 para assegurar a segurança dessas Famílias . Nem da GNR, nem dos Bombeiros, nem da Proteção Civil . Nem muito menos os militares que só foram chamados ao teatro de operações hoje, ao fim da tarde, quando já toda a região já estava envolta num inferno de fogo, que ainda prossegue !!! E por isso, Mães morreram carbonizadas com Filhos de 4 anos ao colo !!! E isto numa Estrada Nacional a 100 metros da IC8 no Centro de Portugal, que tem um Estado tentacular que consome mais de 50 % do PIB !!! É mau de mais e já não é sem tempo que perante a dimensão da tragédia e da incompetência demonstrada alguém assuma as suas responsabilidades !!! … É que para se ser Ministra da AI é fundamental ser-se um homem, neste caso uma mulher, de ação que saiba tomar decisões rápidas e em tempo útil, tanto mais que o IPMA tinha emitido atempadamente um Alerta Vermelho !!! É que passadas 5 horas após a formação “ onda de choque térmico “ é só correr atrás da tragédia, como desgraçadamente estamos a assistir !!!... Saudações revoltadas e enlutadas ... "

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publicado às 15:55

Mar de Chamas (VI)

por Fernando Melro dos Santos, em 18.06.17

Uma população que deixa políticos jantarem como nababos quando bombeiros imploram por ÁGUA, senhores, água, não é povo, não é gente nem é coisa alguma. Corja de cobardes vendidos ao migalhismo, capados pela espinha, putas hedonistas e amaldiçoadas de um inferno amoral.

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publicado às 21:40

Mar de Chamas (V)

por Fernando Melro dos Santos, em 18.06.17

eu já estou em casa, mas os bombeiros ainda não. haverá sempre bombeiros que nunca estarão em casa, quer seja o contingente oriundo de Torres que passou por mim, em coluna, há duas horas na A8 rumo a Pedrogao; quer seja o anonimo tranquilo, por quem mal se dá, curtido e ensimesmado numa cadeira à entrada da central na Ericeira.

 

hoje parei cinco vezes em supermercados. não vi nem ouvi ninguém cujas preocupações perceptíveis fossem de tal ordem que lhes alterassem a indumentária neo-decadente de chinelos e alças, nem o cabaz das compras atulhado de cervejas, bolos farinhentos e missangas alimentícias. ninguém. era a bola, o carro do jorge, as mamas da vizinha, o frango assado à borda do tanque.

 

a segunda guerra mundial foi lá longe. o 11 de setembro longe foi. Bruxelas? Atocha? Alésia? tudo fantasmas sem substância que nunca passarão de fantasmas a que os velhos se agarram para reterem sentido nas suas vidas extintas.

 

Pedrogao? Pedrogao é lá longe. E Alverca. E a Amadora. E qualquer terra que não se aviste, apalpe e possa receber uma tenda com luzes e grelhadores, mais de dez centímetros além do português umbigo, é ainda mais do que longe!, é fictícia.

 

não aprendeu nada esta gente, nem o fogo os tirou das cavernas.

 

especiais abraços nestes dias negros ao sub-chefe Tiago Carvalho, de Palmela; ao sub-chefe Ventura nas Caldas da Rainha; e ao senhor Comandante Pedro Lourenço na corporação do Bombarral. Deus esteja convosco. 

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publicado às 20:53

Como ajudar os bombeiros neste momento

por Samuel de Paiva Pires, em 18.06.17

Ver aquiaqui ou aqui.

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publicado às 18:28

Portugal, Pedrógão e o ambiente mental

por John Wolf, em 18.06.17

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in Portugal Traduzido, Edições Cosmos 2008

 

Ambiente Mental

 

Para lidar com a primeira entrada do abecedário, teremos de reconhecer os diferentes significados e aspectos do conceito de ‘ambiente’. Por exemplo, efectuar uma distinção entre ambiente natural, natureza ou ecossistema, e ambiente humano. As dimensões a que nos referimos são indissociáveis, pelo que em Portugal tem sido difícil estabelecer a relação de parentesco entre o indivíduo e o ambiente. A natureza em Portugal é um filho bastardo e mal amado.

A natureza não é assumida enquanto propriedade colectiva ou património nacional, de forma activa e inquestionável. Talvez o nascimento de cada indivíduo e a consequente atribuição de nacionalidade deveria implicar a propriedade de um qualquer enésimo do território do país. Esta forma de cidadania proprietária teria um efeito psico-simbólico intenso, gerando uma espécie de auto-estima territorial.

Não reconhecer o valor do espaço de inserção geográfico, significa praticar uma forma de ‘geo-fobismo’, expulsando a terra, tornando cada indivíduo um membro voluntário de um movimento sem-terra. Talvez devido ao seu passado histórico colonial, Portugal tenha subvertido a importância do conceito de espaço vital imediato, com a excessiva disponibilidade além-mar a incutir uma nefasta atitude perdulária. Nem mesmo a Conferência de Berlim de 1884, que instituiu o princípio de ocupação efectiva dos domínios coloniais, e que retirou territórios e capacidade de projecção de poder a Portugal, terá servido para um ‘regresso’ a limites geográficos proporcionais à dimensão nacional. Poderemos legitimamente perguntar: como e quando se inicia um processo de desrespeito pela dimensão física e natural de Portugal? Não encontraremos na literatura ou na pintura a exaltação da geo-pátria? Terá sido o antigo regime um solitário proclamador do alto da montanha? Não será possível aproveitar alguns elementos edificantes em detrimento de outros com forte carga política? E será que o 25 de Abril libertou o homem para este voltar a ser um bom selvagem?

Assistimos ao tabu do domínio da terra sobre o homem, porque, de forma deturpada, o cuspir sobre o passeio ou a queimada incendiária serão expressões da interpretação desequilibrada do sentido de poder ou liberdade, fortemente entranhado na prática quotidiana. A análise do fenómeno anti-natureza em Portugal tem de seguir um critério mais estrutural e sociológico. A modernidade, promovida pelos governos pós 25 de Abril, apoia-se em imagens de betão armado, carros velozes e roupa de marca. Ironicamente, a imagem exterior dos indivíduos alcançou uma expressão notável em detrimento da preservação do ambiente. Mesmo perseguindo um idealizado parcelamento da propriedade latifundiária, tal não serviu a salvaguarda de um sentido ecológico. Esta indiferença em relação ao ambiente reflecte um desapego pelo abstracto, na medida em que os vínculos afectivos não se estabelecem em relação a um ideal de espírito livre ou natureza selvagem. Assim, a floresta é apropriada enquanto fenómeno de massas, colectivo e irracional, mas não por uma vontade individual.

Um olhar possível sobre um processo de evolução (que obedece alternadamente a mecanismos de auge e declínio, êxito ou tragédia) pode limitar-se à aceitação do destino, sem intervenção humana praticável. Ou seja, o cidadão é um mero espectador do fenómeno natural ou, no limite, um interventor negativo. Outra leitura admissível diz respeito ao modo como a rejeição da procedência provinciana pode significar o cortar de relações afectivas com o atraso estrutural do interior não-urbano. Uma vez que os centros urbanos são habitados pelos que abandonaram as suas origens humildes e campestres à procura de melhores condições de vida, verifica-se uma tomada de consciência deturpada de modernidade, através da qual se procura dissimular a proveniência, simulando sofisticação. Os eventos que afligem a floresta não comovem porque já representam factos distantes da neo-urbanidade adquirida pelos migrados do campo.

A única forma de corrigir comportamentos eco-destrutivos parece ser através da instituição de um sistema sancionatório implacável, em simultâneo com mecanismos que reconheçam os esforços de reposição do equilíbrio ambiental. Os filhos menores devem reconhecer aos pais o esforço que estes desenvolvem para separar o lixo e respeitar os eco-pontos. A adopção de uma ‘agenda ambiental’ significa co-responsabilizar governos indivíduos, crianças e proprietários de cães que lançam os seus dejectos nos passeios.

A promoção de objectivos concretos poderá representar uma janela de oportunidades para converter adversidades em mais-valias. Por exemplo, à semelhança da recente legislação que obriga as novas construções a instalar sistemas de energia solar, a instalação de redes de cisternas ou depósitos para aproveitamento de águas das chuvas poderia representar uma primeira solução para o problema de escassez de água, que terá de ser confrontado seriamente e a breve trecho. Esta solução, não original, foi concebida e instituída pelos árabes durante a sua permanência na Ibéria. Um ‘plano tecnológico’ não significa necessariamente novidades sofisticadas, e por vezes o próprio traçado histórico oferece algumas soluções. A tecnologia comporta na sua génese uma ideia de optimização e simplificação. Uma sociedade desenvolvida garante a sua continuidade pela manutenção dos seus elementos naturais, através de um status quo que em certa medida contradiz a ideia de alteração dinâmica, mudança e progresso. Nesta acepção, o desenvolvimento corresponde à capacidade de manutenção dos factores de equilíbrio herdados do passado.

Associamos a esta noção uma outra, de historicidade natural, através da qual poderemos aceitar a evolução política que altera profundamente a configuração mental e cultural da população, mas que não afecta dramaticamente a expressão física ou geográfica do território.

A ideia de reserva natural em Portugal assemelha-se a uma wasteland, sem utilidade perceptível para as populações. A noção de qualidade de vida dos indivíduos não integra o factor natureza enquanto um elemento determinante. O ‘cidadão-tipo’ prefere eleger a propriedade de um bom carro ou casa, os fins-de-semana no Algarve do betão, ou um horário laboral flexível como elementos definidores de qualidade de vida. Parece ter-se tornado um síndrome nacional o vínculo a matérias ou factos que representem novidade, daí que a natureza ‘eternamente silenciosa’ não consiga oferecer nenhum estímulo adicional relevante.

Este quadro ainda se torna mais negro pela ausência de debate sobre a protecção ambiental, sendo que me refiro àquele desenvolvido espontaneamente pelos indivíduos, e não pelas associações de defesas do ambiente ou autoridades nacionais. Enquanto a ‘consciência de ambiente’ não se democratizar e popularizar, no espírito de cada um, não se vislumbra uma evolução favorável para a paisagem natural. Do mesmo modo que cada contribuinte tem a noção do imposto ou taxa que paga pela propriedade de uma viatura ou casa, seria conveniente integrar nessa consciência fiscal a quota devida ao ambiente.

A operacionalidade de uma ‘polícia do ambiente’, eficiente e percepcionada como tal pelas populações, constitui uma obrigação moral dos governos. Uma forma de contrariar a primitiva prática de abandono de frigoríficos ou baterias no matagal, seria instituir um sistema de registo de propriedade dos equipamentos, que delimitaria os tempos de vida útil, comprometendo os proprietários com o depósito no termo da sua utilidade. Uma espécie de banco ambiental contra a poluição.

O mais importante será socializar e politizar a questão ambiental, e que a problemática faça parte do domínio doméstico das preocupações existenciais de cada indivíduo. A lei do frigorífico, enquanto exercício exemplar, poderá servir de nota de lembrança para as transgressões ambientais, e fazendo uso de um efeito de spill-over, estaremos a contribuir para a tomada de consciência da importância do ambiente.

Outra forma de induzir o respeito pelo ambiente, poderia materializar-se na criação de um cadastro ambiental que registasse as transgressões em relação ao ambiente, perpetradas por cidadãos ou empresas. Depois, num segundo momento, a informação resultante do cadastro seria cruzada com o sistema fiscal no sentido de penalizar os prevaricadores em sede de IRS ou IRC.

Uma das grandes dificuldades que Portugal encara, prende-se com um sentido de orgulho nacional fortemente dependente da expressão física da riqueza. A intelectualidade em Portugal é rejeitada porque integra uma dimensão não materialista e porque colide com aquilo que poderemos designar por ‘expressionismo’ físico. A afirmação social pode no entanto levar a que se faça a dupla demonstração do nível cultural e o grau de riqueza, através da compra de tomos de enciclopédias com lombadas douradas que têm lugar cativo nas estantes das salas de estar, e que fazem o regalo de observadores pouco exigentes.

Uma interpretação parcial do próprio significado ou alcance da era de informação pode conduzir-nos a um juízo reducionista definido em termos de atributos logísticos ou de transporte de informação, através do qual se atribui maior importância à rapidez da entrega de mensagens ou conteúdos. Os excessos de velocidade que se registam nas estradas portuguesas e que conduzem a acidentes desnecessários, encontram analogia na forma como se transportam conteúdos na era de informação. Uma noção ecológica e cultural poderia estabelecer uma hierarquia na escala de valores de informação, o que significa que os produtores de informação devem procurar obedecer a critérios de qualidade, objectividade, veracidade e não necessariamente a rapidez. Nessa medida, um país ecológico investe no terreno fértil do conhecimento e cultura, e na educação dos seus cidadãos, que representa sempre um processo lento e geracional. A era da informação poderá tornar-se numa era de conhecimento se um plano tecnológico não for vendido como destino final, mas um elo de um processo muito maior. O esforço de prossecução de equilíbrio ambiental associa-se inequivocamente à ideia de paridade entre as dimensões intelectual e cultural, relegando para segundo plano a tecnologia e a ideia de vanguarda.

A excessiva estratificação social do país é também responsável por vários desequilíbrios estruturais e ambientais, incluindo o desnível cultural e intelectual, pela forma como as elites se apropriam dos meios de desenvolvimento à custa do progresso colectivo. Este fenómeno observável noutras sociedades, assume contornos especiais em Portugal porque o ‘povo’ não demonstra capacidade para produzir factores de contrapeso. A não partilha de conhecimentos na sociedade portuguesa constitui uma prática contra-produtiva e geneticamente comprometedora pela forma como contraria a teoria de evolução das sociedades, construída sobre a premissa da comunicação entre os diferentes segmentos ou classes da sociedade. Uma noção, porventura herdada do corporativismo, instigou uma actuação compartimentada, sem trocas ou comunicação efectiva. A experiência de um sector ou domínio dificilmente transborda para um ecossistema distinto, apenas porque subsiste uma atitude conservadora pouco aberta a códigos diferentes. Questionamos se Portugal aproveitou a experiência histórica da multiculturalidade, das línguas e costumes distintos do império colonial. E nesse contexto observamos uma forma de desequilíbrio ambiental histórico. Neste momento o quadro mental de defesa do círculo restrito de conhecimento implica desconfiar continuamente de qualquer tentativa de incursão da parte de elementos excêntricos ou imigrados. Esse quadro social de defesa de interesses específicos compromete um sentido de desenvolvimento alargado e colectivo, capaz de integrar a diferença e a mudança, o que em última análise implica o progresso da sociedade.

Na natureza, as novas espécies resultam da evolução genética forçada pelas condições adversas do meio envolvente. As sociedades, que são macróbios (grandes formas de vida), evoluem através de processos de ruptura e equilíbrio entre os diferentes agentes que as integram. Nessa medida, enquanto a prática da dialéctica entre indivíduos não ocorrer em todos os fóruns e numa sociedade aberta, a ideia, conceito ou as práticas, nunca atingirão um grau de maturação suficiente para se converterem em matéria de desenvolvimento para uma sociedade.

As ideias, ao contrário dos ideais, que nascem na intangibilidade do espírito humano, são também fruto da experiência dos outros, transcritas em obras metodologicamente organizadas e que podem ser alvo de leitura e interpretação. Apenas uma fundamentação sólida do conhecimento poderá permitir ulteriores desenvolvimentos de um ideal de progresso. Se uma sociedade não promove a inteligência e a cultura de forma sustentada estará a contribuir para o desequilíbrio ambiental, pelo défice e peso da representação de uma população inculta ou analfabeta. Ter a expectativa de que a ferramenta tecnológica poderá preceder e estimular o aumento do nível cultural da população é contrária à lógica de desenvolvimento humano, em Portugal ou qualquer outro destino.

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publicado às 16:57

Mar de Chamas (IV)

por Fernando Melro dos Santos, em 18.06.17

O custo da inutilidade, dos afectos e das comendas,

 

 

versus o custo da protecção.

 

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publicado às 12:30

Mar de Chamas (II)

por Fernando Melro dos Santos, em 18.06.17

ferro rodrigues, símbolo ambulante do miasma criado por quarenta anos de anomia socialista, e que devia estar preso, está de passeio no Tartaristão. ferro voa e come; ha bombeiros sem botas.

 

antonio costa, vulto maior da cupidez nacional, agita o corpanzil vergonhoso enquanto pulula de uma patuscada, sorriso reptiliano fixo no semblante nojento como se estivesse a dançar, para o cenário da evitável tragédia. costa ri e engorda; há bombeiros sem aparelhos respiratórios.

 

marcelo rebelo de sousa, o aruspice da futilidade aldeã, abraça um dos incontáveis funcionários que sugam do erário quanto houver e quanto se possa pedir emprestado. marcelo veste bem e tem muitos livros. há bombeiros que trabalham por uma refeição.

 

e o portugalinho, tao lesto a nacionalizar vitorias individuais de cantores, atletas e arquitectos, encolhe-se na usual cobardia sindicalista quando, uma vez na vida, algo é realmente de partilhar por todos: a responsabilidade pela morte de cem pessoas. outra vez. e outra. e ainda outra. tão criminoso é o político incompetente como o eleitor que vende a vida do seu compatriota por uma sardinha no pão.

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publicado às 11:07

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Portugal está de luto. Pelo menos 64* pessoas perderam a vida nos fogos florestais de Pedrógão. E Marcelo Rebelo de Sousa abraça a Ministra da Administração Interna, o Secretário de Estado da Administração Interna e o Presidente de Câmara. No lugar dos afectos e compaixão política desmesurados, EXIGE-SE que haja demissões. Houve pelo menos um socialista, em análoga situação de tragédia, que soube interpretar o que os eventos demandavam - Jorge Coelho. O então Ministro das Obras Públicas, assim que ruiu a ponte de Entre-os-Rios, pôs o lugar à disposição. Mas o Presidente da República tem razão - não há falta de competência nem de audácia dos bombeiros  e da população que tentaram defender-se o melhor que souberam. O que temos é outra coisa: dolo político, irresponsabilidade governativa e administração danosa das florestas portuguesas. Enquanto os atrasados mentais dos jornalistas perguntam aos banhistas molhados se estes vão ao mar para se refrescarem, tantas questões certeiras deixam de ser colocadas. Das perguntas que devem ser colocadas em plena câmara ardente, uma delas será: "Sr. António Costa, vai sugerir a demissão de responsáveis políticos?", em vez disso, ficámos sem saber se os gelados tiram a sede. Vergonhoso, trágico e para além de lamentável.

 

* número em actualização constante

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publicado às 07:12

Mar de Chamas

por Fernando Melro dos Santos, em 18.06.17

um labrego qualquer no arco do Estado ganha cinco mil euros, fora prebendas advindas da influencia, para nao fazer nada. queima tempo, recursos e o futuro do país.

um bombeiro voluntario ganha €1,88 por hora. faz tudo. queima-se a si mesmo, ao seu futuro e aos seus.

as pessoazinhas nao votam em bombeiros, que lhes podem dar vida; e sim nos labregos que lhes dão rebuçados. o rebuçado é sempre doce enquanto dura.

o resultado é este.

 

 

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publicado às 00:17

Música para hoje: Samuel Úria - Tapete

por Samuel de Paiva Pires, em 16.06.17

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publicado às 16:16

Da amizade em política

por Samuel de Paiva Pires, em 15.06.17

Na Quadratura do Círculo, a respeito da nomeação de Lacerda Machado para a TAP, Jorge Coelho afirma que também é amigo do Primeiro-Ministro e este não o nomeia para nada. Estribando-se na doutrina de Carlos Santos Silva, António Costa deveria cuidar melhor dos seus amigos.

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publicado às 23:11

Basil Bazaroff

por Nuno Castelo-Branco, em 15.06.17

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 Era uma personagem de Tintim, surgindo na aventura O Ídolo Roubado. Baseou-se em Basil Azaroff, um escroque internacional negociante de armas que pertenceu à Vickers-Armstrong, tornando-se conhecido por ter acicatado guerras para conseguir bons contratos com ambos os contendores.

Assim parece estar agora a acontecer com a administração Trump, ainda há pouco conseguindo um multimilionário contrato com os repugnantes sauditas, para agora fazer exactamente o mesmo com o felizmente não menos repugnante mas segregado Qatar. Temos guerra garantida? Remotamente talvez, se os fornecimentos se limitarem a material pesado - artilharia, tanques relativamente ultrapassados como o Abrams, aviões F-15, etc - e não passível de uso, conhecendo-se a timidez que grassa naquelas fileiras sempre à cata de bandidos úteis por encomenda. Esta parafernália limitar-se-á a martelar as avenidas destinadas às paradas e logo seguirem para os habituais depósitos para o necessário processo de enferrujamento. Bom para ambos os lados, especialmente para a indústria de armamentos americana e respectivos operários a quem o presidente muito prometeu para ser eleito. Foi eleito e agora cumpre o prometido. Nada que os precedentes não tenham feito, sabemos bem, mas agora está sob o foco das redes sociais e media.

Outro caso seria virmos a saber que as encomendas também incluirão material mais ligeiro como jeeps, transmissões, granadas, explosivos, mísseis anti-carro e anti-aéreos portáteis, metralhadoras, instrumentos de visão nocturna, etc. Vão parar directamente às mãos dos amigos de McCain.

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publicado às 19:29

Marques Mendes, de fonte segura

por John Wolf, em 12.06.17

 

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A figura de Marques Mendes nem sequer é controversa - é patética. Mas é a SIC que faz aquele boneco funcionar. O traficante de informação lá aparece semanalmente com postas frescas obtidas no mercado secundário da política. O homem vai à lota e não regateia as encomendas. Como aquilo que vende não é considerado fake news, ninguém o chateia muito. O porta-voz de tudo e todos pega no telemóvel logo pela manhã e colecciona temas e dilemas existenciais de partidos e políticos. A desregulação do mercado da informação e a ausência de regras de lobbying permite que um agente deste calibre possa veícular matéria de debate para encher a grelha do jornal e vender publicidade à antena de televisão. Ninguém pergunta nada, mas ele responde a tudo. É uma espécie de sucedâneo de si mesmo. Uma réplica crónica da sua mediania. Ou seja, na sua segunda vida de comentador de serviço, não consegue apagar a mediocridade da sua passagem política. O detective Mendes tem poderes especiais. Obtém dicas e rumores antes dos boatos. Avança com conjecturas depois do sucedido. Em suma, é um homem analógico. Chegamos a acreditar que os outros lhe concedem o beneplácito da confissão, da sinceridade. Se ele parece saber os factos antes dos eventos sucederem, penso que ele deve ser tido em conta na quota-parte da responsabilidade que decorre do conhecimento de causa. Num país de ligações especiais, canais de comunicação privilegiados, Marques Mendes é o mexilhão que rapa o tacho antes do jantar estar pronto. Por acaso gostava de saber quais são os seus fornecedores regulares, os traidores de cada agremiação partidária, provavelmente outros tristes caídos em desuso nas respectivas estruturas e direcções. Ou seja, a não ser que seja o próprio Presidente da República a preparar-lhe a ementa de considerações, serão outras figurinhas de segunda a fazer o take-away. O Mendes apenas tem de reaquecer os guisados, mas não sei se isso acrescenta grande coisa aos debates, à Democracia e à vida dos portugueses. O seu contributo é inócuo e serve de mea culpa colectiva. Depois podem todos seguir alegres e contentes, com a cartilha limpa pela explicação.

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publicado às 17:52

10 de Junho

por Nuno Castelo-Branco, em 12.06.17

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 A continuidade histórica foi retomada e um bom exemplo foi o simbólico desfraldar de todas as bandeiras que foram, são e para sempre serão portuguesas. Para despeito de alguns que ainda são demasiados, foi isso mesmo o que os mais altos órgãos do Estado finalmente assumiram. Portugal não surgiu em 1385, 1640, 1810, 1820, 1834, 1910, 1926 ou 1974. Assume assim integralmente todo o seu passado quase milenar.

Agora, falando ainda mais a sério, aqui fica a necessária opinião acerca da dupla que foi ao Brasil comemorar não uma mera festa nacional que nem sequer é o dia da independência do Estado, mas sim a Portugalidade em tudo o que o termo encerra no seu todo pluricontinental, como um quase esquecido comunicado um dia infelizmente rezou em vão. 

O 10 de Junho estendeu-se a países extra-europeus e isso é positivo. Os portugueses e respectiva descendência que por lá vivem e trabalham têm sido olhados como meros utensílios arrecada-divisas e este aspecto não é apenas algo imputável a este regime que deles tem abusado, pois o abusivo costume verifica-se desde há muito. Na história dos nossos trisavós, foram evidentes os sobressaltos quando a Metrópole se viu atingida por esta ou aquela quebra da moeda ou crise económica e financeira além Atlântico. Já era tempo de vermos nos nossos compatriotas não apenas o que tradicionalmente a abstenção total que grassava nos gabinetes de Lisboa impediu de considerar, ou seja, valiosos agentes fora de portas, servindo não apenas os nossos interesses da exportação de produtos portugueses, mas sim como força de influência.

 
Não estando em causa as personagens, ficaram então os princípios que há umas décadas andam demasiadamente perdidos nas brumas da memória. Estávamos habituados a cimeiras onde fazíamos a vez do parceiro novo rico mas à conta e infalivelmente obediente, é verdade,. Estas resumiam-se a paragens e lugares que se tornaram muito comuns, limitando-se ao espaço físico dos 28, perdão, 27 convivas continentais. Tudo se resumia afinal a acatar directivas engendradas não se sabe bem em que gabinete no estrangeiro. Obedecia-se e em suma, a nossa política externa deixou de ser nossa.

Nada pôde ser mais errado - e desnecessário, como se comprova -, pois significou a voluntária renúncia a uma política externa portuguesa que como agora se vê, gostem ou não gostem os restantes rotativos que inevitavelmente regressarão um dia ao poder,  reemerge. Viagens de trabalho à China, Índia, África lusófona e Brasil, eis o caminho tradicional agora retomado e essencial à preservação da nossa identidade. O outro projecto? Um complemento de conjuntura da geopolítica. Pouco importando aquele que ocupe o cadeirão governamental, esta é mesmo uma obrigação nacional, dado todos supormos a insistência deste país em querer continuar a existir.

Os bons momentos, sempre passageiros ao longo desta já longa história, podem e devem ser aproveitados. Com alguma audácia até a aliança luso-britânica será revivida, pois com a atenção que o assunto obviamente merece, facilmente verificaremos que tal é do total interesse de ambos os comprometidos na mesma. Poderemos vir a ser-lhes muito úteis, disso não existe a menor dúvida e tudo se conjuga para esta suposição. Regimes chegaram e mais tarde partiram, o princípio e o interesse comum permaneceu. O resto? Que espere ou se conforme.

Contemos então com a desejável reserva mental, desfaçatez, oportunismo, hipocrisia e visão para além da mercearia de quem está ao leme, pois é disso mesmo que se trata e Portugal precisa: olhar para o mar, mais realismo e muito menos sonoros princípios de vacuidade afrancesada. Isso que fique então reservado para os infinitos palratórios de eurogrupos e afins, porque o fazer de conta é parte integral dos bons políticos que infelizmente têm escasseado. Como luso-africano de quarta geração e que em nenhum clubezinho de interesses  está inscrito para além do ginásio, rejubilo.

Sim, do Minho a Timor. Porquê? Têm alguma dúvida? Aproveitemos então.

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publicado às 13:45

Maycron, e a nova Europa

por John Wolf, em 11.06.17

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Emmanuel Macron acaba de demonstrar que é possível reinventar a ordem política. La Republique en Marche, o partido inventado há pouco mais de um ano, está muito bem encaminhado para conceder ao presidente da República Francesa os poderes parlamentares necessários para governar sem sobressaltos. Theresa May, por seu turno, terá de encontrar o equilíbrio operacional para levar por diante o seu projecto "independentista". Para não cair fora da matriz europeia que começa a ganhar novos contornos nucleares, terá de ter algum cuidado na gestão da pasta Brexit. Uma abordagem excessivamente fundamentalista afastará o Reino Unido do "maior" mercado comum do mundo e permitirá à França uma reafirmação política no quadro do eixo repartido com a Alemanha. O calcanhar de Aquiles de May pode muito bem ser a ruptura que poderá vir a promover com a redifinição do conceito de globalismo britânico. A sua teimosia ideológica, que atinge um dos princípios basilares da União Europeia (UE)  - a liberdade de circulação de pessoas -, pode muito bem vir a derrubar a alegada "continentalidade europeia" dos britânicos: se forasteiros não entram em Londres, os britânicos também poderão ser barrados por Schengen. Enquanto processos eleitorais não decorrem na Alemanha, esta nação pode observar com atenção o fenómeno político nas suas mais diversas variantes europeias. A Merkel, que muitos davam como acabada, saberá ponderar os perfis de Macron e May. Muitas vezes a espera sintetiza a melhor das acções. A Europa, não nos esqueçamos, é mais sinónimo de atavismos do que de evoluções sistémicas. As revoluções políticas ainda não aconteceram em pleno no seio da UE, e parece que assim continuará a ser. É o burocratismo que domina os processos. Essa mentalidade, encravada na derme da UE, também contaminou os procedimentos internos dos seus países-membro. As negociações são a imagem de marca da Europa, mas os resultados são assimétricos. Não existem imitações nem replicações. Por mais que queiram aplicar a fórmula geringoncional à solução britânica, aquela não será bem sucedida. Conseguem imaginar uma geringonça-sombra do governo de sua majestade? Eu não consigo.

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publicado às 20:24

As Cidades

por Nuno Gonçalo Poças, em 09.06.17

A grande maioria veio do campo. Do Alentejo, de Trás-os-Montes, das Beiras. Do pé descalço, da sardinha para três, do piolho. Fugiram da brutalidade da charrua e do arado, do destino miserável e da vida de criadagem. Eles queriam a burguesia, elas não queriam servir. Invadiram as fábricas, os portos, as empresas, as funções públicas. No Barreiro, em Loures, na Amadora, em Almada, em São Domingos de Rana, em Odivelas. O salto foi tão grande que hoje os filhos do êxodo rural só conhecem a vida dos avós se tiverem de facto curiosidade. Licenciaram-se, viajaram, quiseram abandonar os subúrbios dos seus pais e olham como turistas para as terras dos avós. Os pais vão-se reformando. Com vontade de regressar à terra, onde a custo construíram uma casa. Não voltam para ajudar os filhos. O reformado suburbano, nas suas calças vincadas e na sua camisa de manga curta aos quadrados, na sua bata e no seu camiseiro florido, está desamparado e amolecido - eles nas praças a jogar cartas ao ponto, a procurar os jornais gratuitos nos balcões da Caixa Geral de Depósitos, elas na praça, ao peixe, e na cozinha, a fazer tudo para que o mundo não pare. Muitos, já avós, ainda trabalham. São as centenas de milhares de carros que enchem Lisboa de manhã. Que entopem a ponte, o IC19, a A5. Que enchem os barcos, os comboios, os autocarros. Tudo em greve, tudo com perturbações, com atrasos, com mau cheiro, com o ar grave e zangado de quem tem pressa, de quem perde duas horas por dia, muitos dias por ano, muitos anos na vida, neste ramerrame infinito. Os salários, em média nos oitocentos euros, não esticam e fogem quase na totalidade até à primeira semana do mês. Paga a renda, paga a água, paga o gás, paga a luz, paga o telefone, paga o passe, paga o condomínio, paga a prestação disto e daquilo, paga a escola, paga a creche, paga o lar, paga o supermercado, paga os tempos livres, paga os tempos menos livres, paga o tempo, paga a vida. Levantam-se cedo, chegam tarde. E é difícil encontrar creches e escolas e transportes, e o autocarro não veio, o metro não funciona, o trânsito não dá saúde, e o passe é caro e a gasolina também, e a vida que está tão má. Voltar à província, por uma razão que não seja o bucolismo do regresso pacífico de quem espera pela morte, está fora de questão. Talvez por medo, talvez porque muitas vezes ainda vive o passado da terra dura, da esteva e da giesta. Mais depressa vão os filhos e os netos, graças a Deus ignorantes, meus ricos meninos, dar cor e futuro a uma grande parte do País que só agora parece querer deixar de estar espiritual e geograficamente morto. A Lisboazinha já pouco tem de fadistas e de prostitutas de um conto de réis. Pouco se ouve o sotaque realmente lisboeta, do bairro, da viela, de quem carrega nos 'ch' e de quem abre as vogais, como quem diz 'chóriço'. Toda modelada pela pronúncia da televisão, pelo charme de quem conhece o estrangeiro e sabe que isto já não fica atrás de ninguém, a nova Lisboazinha, que já não é aquela Lisboazinha yuppie, de um yuppie com as calças com más bainhas, dos anos 90. Mas continua a ser feita por toda aquela multidão muda, que só parece buzinar, que se acotovela nos transportes, que fala entre si mas que teme os modernos e mais ainda os modernaços. Nas repartições, nas cadeias de comida rápida, nas limpezas, nas forças de segurança, nas secretarias. O País real, como lhe chamam, está lá longe, nas serras e nas planícies. Mas está, em grande parte, aqui à porta, logo depois do Campo Grande, a recolher tabuleiros nos centros comerciais. O País real, caramba, somos nós. Estamos é todos, os mais e os menos auto-julgados evoluídos, os do centro e os da periferia, todos, todos, a fazer de conta que não existimos ou que existimos de outra maneira. Que somos outra coisa qualquer para, sobretudo nesta altura, inglês ver. Como se não tivéssemos todos andado em baloiços de pneu, como se não tivéssemos todos, os da minha geração, comido pão com tuli-creme. Como se isto tivesse deixado de ser uma terra encantadora mas dura. Acho que o Rodrigo Leão explicou isto tudo sem usar uma palavra quando compôs 'As Cidades'.

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publicado às 23:37

Quando o partidarismo se sobrepõe ao interesse nacional

por Samuel de Paiva Pires, em 09.06.17

Jamelle Bouie, "Who Needs Rule of Law?":

Just one of our two parties is interested in checking this president’s abuse. The other, the Republican Party, is indifferent, content to tolerate Trump’s misconduct as long as it doesn’t interrupt or interfere with its political agenda. What defined Thursday’s hearing, in fact, was the degree to which Republicans downplayed obvious examples of bad—potentially illegal—behavior and sought to exonerate Trump rather than grapple with Comey’s damning allegations about the president. Sen. James Risch of Idaho, for example, pressed Comey on his claim that President Trump had asked the then–FBI director to drop the investigation into Flynn, suggesting that—because Trump didn’t give a direct order—we ought to ignore the clear subtext of the president’s statement. Sen. James Lankford of Oklahoma described Trump’s actions on behalf of Flynn as a “light touch.” Other Republican committee members, like Sens. John Cornyn of Texas and John McCain of Arizona, steered the conversation toward the FBI’s investigation of Hillary Clinton’s private email server. Still others, like Sen. Marco Rubio of Florida, defended Trump’s actions, blasting leaks to the press as efforts to undermine his administration.

 

Republican committee members were aided in all of this by the official organs of the GOP, which treated the hearings as a distraction—a partisan frivolity driven by Democrats and the press. “Director Comey’s opening statement confirms he told President Trump three times that he was not under investigation,” said a statement from the Republican National Committee that recommended a strategy of deflection. The RNC additionally argued that “Director Comey lost confidence of both sides of the aisle, and the president was justified in firing him.” House Speaker Paul Ryan, commenting on the procedures, defended Trump’s potentially illegal behavior as the mistakes of a novice. “He’s just new to this, and probably wasn’t steeped in long-running protocols,” he said.

 

(...).

 

James Comey’s sworn Senate testimony, both written and spoken, is evidence of one political crisis: A president with little regard for rule of law who sees no problem in bringing his influence and authority to bear on federal investigations. The Republican reaction—the effort to protect Trump and discredit Comey—is evidence of another: a crisis of ultra-partisanship, where the nation’s governing party has opted against oversight and accountability, abdicating its role in our system of checks and balances and allowing that president free rein, as long as he signs its legislation and nominates its judges.

 

Americans face two major crises, each feeding into the other. Republicans aren’t bound to partisan loyalty. They can choose country over party, rule of law over ideology. But they won’t, and the rest of us will pay for it.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 17:00






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