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Memórias da "net"

por João Quaresma, em 14.03.14

Por estes dias, assinalaram-se os vinte e cinco anos da criação da World Wide Web, sendo de referir que este ano também decorrem vinte anos da chegada da Internet a Portugal.

Penso que podemos dizer que Portugal aderiu relativamente bem à Internet, talvez pelo melhor domínio da língua inglesa comparativamente a outros povos, e aderiu melhor e mais atempadamente que outros países (França, por exemplo, apesar de já aí existir um sistema funcional mas muito mais primitivo desde 1980, o Minitel). Desses tempos, recordo-me do fascínio que foi descobrir este maravilhoso meio de partilha de informação e da comunicação entre utilizadores, independentemente da sua localização geográfica. De repente, podia-se consultar publicações de universidades americanas, os jornais australianos, conversar com amigos que se iam fazendo em várias partes do mundo, em simultâneo estivessem eles em Macau ou no Canadá, ou participar em grupos de debate internacionais. Hoje tudo isto é absolutamente banal. Mas, nas minhas primeiras navegações em princípios de 1995, a capacidade para enviar e receber informação de um computador para outro através do mundo, em fracções de segundo, ainda era qualquer coisa de formidável. Lembro-me de, certo dia, um amigo brasileiro enviar-me fotografias tiradas momentos antes nos confins da Amazónia, através de uma ligação via satélite, e de muita gente a quem eu contava isto não acreditar que fosse real. Aliás, a grande maioria não conseguia entender do que a Internet se tratava e achava que nós, os internautas dos primeiros tempos, éramos uns maluquinhos que sabe-se lá por que razão passavam muito tempo frente ao computador.

A propósito, recordo-me uma história curiosa que me contaram na altura. Antes da Microsoft apostar na Internet - Bill Gates, inicialmente, não lhe adivinhava grande futuro - e de se generalizar o browser Internet Explorer, o programa de consulta na WWW mais usado era outro, produzido por uma empresa norte-americana chamada Nestcape.

Elaborado o programa, a empresa teve o problema de escolher-lhe um nome eficaz. Tal como disse, nesses tempos muita gente não conseguia assimilar verdadeiramente do que a Internet se tratava, e dizer que era um programa para consultar uma base de dados seria pouco apelativo. Um dos programadores, neto de emigrantes portugueses, explicou ao responsável pela comercialização que a WWW era mais que uma base de dados, que era um verdadeiro oceano de informação disponível, que estava à espera de ser descoberta para ser consultada. Circular na internet seria como navegar num oceano, à descoberta, como fizeram os navegadores portugueses. Assim, propôs um nome condizente, que foi adoptado: Nescape Navigator. Surgiu assim a expressão «navegar» na Internet. Talvez alguns internautas dessa época tenham reparado que os primeiros logotipos do Navigator eram uma roda do leme em madeira, como as das caravelas, com a Cruz de Cristo no centro. Perante o sucesso do Nescape Navigator, a Microsoft lançou o seu próprio browser com um nome usando o mesmo conceito, o Internet Explorer.

E assim ficou uma pequena, ligeira marca de portugalidade no desenvolvimento da Internet, e tudo graças a um americano que se lembrou das suas raízes portuguesas. Isto é o que se chama herança cultural.

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publicado às 04:22

Um frio inconveniente

por João Quaresma, em 17.12.13

Em Setembro, fotografias de satélite da NASA mostraram um crescimento da camada de gelo do Ártico de 60% em relação à mesma altura do ano passado. Nos últimos invernos, em ambos os hemisférios, registaram-se recordes de baixas temperaturas e, na semana passada, foi anunciado - note-se: com três anos de atraso! - que em Agosto de 2010 foi registado um novo record da temperatura mínima global, na Antártida. E entretanto, no Egipto nevou pela primeira vez em mais de um século. 

Nos anos 70 e 80, a previsão catastrofista em voga era de que se estava a caminho de uma nova era glaciar. No princípio dos anos 90, foi a vez do buraco na camada de ozono que, dizia-se, crescia descontroladamente, que era consequência da industrialização e que atiraria o Mundo para um inferno de temperaturas altas, raios ultra-violeta e cancros de pele. Depois de anos de alarmismo, provou-se que esse buraco sempre existiu sobre o Pólo Sul, que é normal que exista e que não é consequência da acção humana. Mal a mentira sobre o buraco da camada de ozono foi desmentida, surgiu a do aquecimento global, provocado (de novo culpando a industrialização) pelas emissões de dióxido de carbono (CO2).

Só que desta vez o mito criado assumiu proporções de autêntica ideologia, quase totalitária: recorrendo à manipulação de factos científicos, ao medo e à invenção de uma ameaça à sobrevivência da Humanidade, ao sentimento de culpa, ao terrorismo informativo protagonizado por oportunistas como Al Gore - vale a pena rever o trailer do seu filme - e ao silenciamento das opiniões contrárias. E, sendo uma ideologia, instalou-se nos poderes políticos condicionando não apenas as opções de governação como também a simples legitimidade politica. Questionar a ideologia verde passou a valer a marginalização política aos "hereges". E gerou um sistema politico-económico que obrigou os países desenvolvidos (e "culpados") a despenderem uma parte importante da sua riqueza para financiarem as soluções alegadamente inadiáveis para este suposto problema. Surgiram as ecotaxas, os aumentos dos impostos para penalizar as emissões de carbono, o Protocolo de Kyoto, as suas quotas de emissões de CO2 (e multas avultadas para os infractores) e o mercado do carbono. Surgiu a pressão para substituir prematuramente equipamentos existentes e perfeitamente funcionais por outros novos pelo facto de emitirem menos dióxido de carbono, ou diminuir o consumo de electricidade numa proporção muitas vezes insignificante. Surgiu a desculpa para perseguir o automóvel particular, limitando a liberdade individual na mobilidade («usem transportes públicos ou andem de bicicleta»). E surgiu também o pretexto para fazer disparar os preços da electricidade e dos combustíveis. Duas das fontes de energia eléctrica mais caras e ineficientes, a eólica e a solar - tecnologias perfeitamente dominadas desde os anos 80 e que desde essa altura se sabe serem comercialmente inviáveis por si próprias - tornaram-se obrigatórias, sendo pagas pelos consumidores e contribuintes através de um autêntico sistema feudal justificado com os pressupostos e os mitos da ideologia verde. E já se avança para soluções ainda mais caras e ineficientes como a energia das ondas, ou a eólica em alto-mar, enquanto nem sequer se menciona a energia geotérmica, uma fonte renovável e infinitamente mais barata. A mito do aquecimento global também movimenta muito dinheiro público despendido por organismos estatais, grupos ditos ecologistas, investigação científica (2 mil milhões de dólares por ano só nos EUA) e o sector dos media, comprando lealdades e opiniões.

O documentário abaixo, realizado em 2007 pelo canal britânico Channel Four, dá uma ampla visão sobre todo este fenómeno.

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publicado às 13:31

As PPPs da Educação

por João Quaresma, em 05.11.13

Esclarecedora, a reportagem transmitida esta noite pela TVI sobre os financiamentos do Estado ao ensino privado e de como a gestão de recursos do Ministério da Educação tem sido feita pelos anteriores governos e pelo actual. Num momento em que o Governo pondera avançar com o "Cheque Ensino", vale a pena ver no que têm dado as parcerias público-privadas neste domínio. É que se esta mesma política tem tido resultados desastrosos nas auto-estradas e na energia, com a promiscuidade entre governantes e empresas interessadas, e fazendo o país refém de interesses instalados à gamela do Estado, seria ingénuo esperar outra coisa da privatização do Ensino Público. E não pega o argumento da «liberdade de escolha»: nem Portugal nada em dinheiro para poder sustentar dois sistemas de Educação redundantes (um público e outro privado), nem as finanças públicas têm de sustentar as opções dos pais que prefiram colocar os seus filhos no privado. Se o querem, que paguem do próprio bolso. Imagine-se o que seria se esta lógica se aplicasse sempre que alguém preferisse optar por serviços privados em alternativa aos já disponíveis no público.

E, mais uma vez, a política do actual governo não se desvia do rumo do anterior.

 

Repórter TVI: «Verdade Escondida», o link AQUI

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publicado às 00:50

A sorte protege os audazes

por João Quaresma, em 28.10.13

Regressaram as emoções fortes do surf nas ondas gigantes na Nazaré. E hoje um grande susto, com o acidente da brasileira Maya Gabeira, recordista mundial da maior onda surfada por uma mulher. Resgatada, reanimada e levada para o hospital, encontra-se livre de perigo. Mas o próprio Garreth MacNamara disse que ela tinha tido muita sorte. Não basta ter capacidade física, talento, coragem e experiência: quando se desafiam os limites, a sorte também conta e muito.

 

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publicado às 14:48

Recomendam-se: Gravidade e Capitão Phillips

por João Quaresma, em 25.10.13

«Gravidade» de Alfonso Cuarón, com Sandra Bullock e George Clooney. Magnífico filme do realizador mexicano que, quando era rapaz, tinha o sonho de ser astronauta. Que melhor pessoa para escrever o argumento e realizar um filme espacial? Do princípio ao fim com imagens de grande beleza, bem escrito e realizado, sem nunca perder a atenção do espectador e com efeitos especiais excelentes e atentos aos detalhes, boa banda sonora e uma interpretação de Sandra Bullock que certamente lhe valerá galardões. Tem tudo para agradar a toda a gente... menos ao público russo.

Como aperitivo, sugiro um passeio espacial pelo mural no Facebook do astronauta italiano Luca Parmitano, que tem partilhado as suas fotos tiradas desde a Estação Espacial Internacional, AQUI.



«Capitão Phillips» de Paul Greengrass, com Tom Hanks no papel principal (um óscar provável), é um thriller baseado na história verídica do desvio de um cargueiro norte-americano por piratas somalis.

Sendo todos nós consumidores numa economia globalizada, compradores de mil e uma coisas feitas Ásia, de fruta sul-americana ou de borrego da Nova Zelândia, raramente nos lembramos de quem torna tudo isso possível ao manter as artérias do comércio internacional: a marinha mercante. E a vida de quantos navegam no Oceano Índico tornou-se mais difícil e arriscada quando surgiu o problema da pirataria baseada na Somália. «Capitão Phillips» elucida sobra esses riscos, de ataque e captura de reféns, consequência de uma actividade que alguns tentaram desculpar com a situação de pobreza extrema dos pescadores somalis. O filme dá essa grande lição: nada justifica o comportamento brutal que tem sido imposto a muitos tripulantes (e sofrimento das respectivas famílias, para já não falar nos danos à empresas envolvidas), e quem envereda pela pirataria é e será sempre um criminoso. O problema, que chegou a afectar a navegação no Oceano Índico e a desviar parte do tráfego para a Rota do Cabo, está hoje bastante diminuido por efeito da intervenção das marinhas de muitos países. Esta é, aliás, uma falha deste filme: cumpre uma lamentável tradição de Hollywood de omitir qualquer papel ou mérito a outros que não os norte-americanos e demais anglo-saxónicos, e quem vir «Capitão Phillips» pensará que a única força presente na zona para garantir a segurança da navegação é a Marinha dos Estados Unidos, quando na verdade se trata de um esforço multinacional envolvendo também forças navais do NATO, da União Europeia, da Rússia, Índia, Arábia Saudita, China e outras nações asiáticas, além da Austrália e Nova Zelândia.

A primeira metade do filme é excelente, com a acção a evoluir de forma dinâmica e realista. Mas a segunda parte alonga-se demasiado numa situação de alta tensão e violência psicológica, que leva a um fim perfeitamente previsível, tornando-se quase pornográfica do suplício de quem se vê na situação de refém dos piratas. Não estranha que, na sessão a que assisti, houvesse quem tenha abandonado a sala antes do fim.

Se a pirataria baseada na costa da Somália - e que se fez sentir em boa parte do Oceano Índico, mesmo a vários milhares de quilómetros de distância como aconteceu em águas da Índia - está hoje debelada, o problema está a surgir em força no Golfo da Guiné, também por movimentos ligados ao fundamentalismo islâmico. Hoje mesmo, um navio norte-americano foi atacado e os piratas fizeram dois reféns entre a tripulação, incluindo o capitão. A semelhança de situações e a coincidência com a exibição de «Capitão Phillips» poderão motivar ainda mais a Casa Branca para uma intervenção militar.

Sendo que este é um problema que assume proporções preocupantes para os países do Sul da Europa (sobretudo Espanha e Portugal, por via das ilhas Canárias, Selvagens e Madeira), o facto é que a costa africana é muito menos importante para o comércio mundial do que a rota Ásia-Europa pelo Canal do Suez, pelo que haverá menos voluntarismo de outros países e participar na sua abordagem. Retirando lições da Somália e antecipando uma previsível evolução da ameaça, Espanha, França, Portugal e o Reino Unido têm vindo a alertar a UE para tomar medidas firmes que deverão passar pela presença permanente de navios de guerra na costa africana. Escusado será dizer que, com ou sem o apoio de Bruxelas, Portugal terá necessariamente de participar nesse esforço e também reforçar a presença naval em águas da Madeira, tal como Espanha tem vindo a fazer nas Canárias. Com austeridade ou sem ela, o que tem de ser tem muita força e o dinheiro para financiar essa operação terá de aparecer de algum lado. Basta imaginar na gravidade que seria, por exemplo, um grupo de piratas desembarcar e ocupar temporariamente uma das Ilhas Selvagens, ou saquear e fazer reféns no Porto Santo. Não se pode consentir em correr esse risco.

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publicado às 18:40

Les jeux sont faits?

por João Quaresma, em 23.10.13

Jornal de Negócios, 15 de Outubro de 2004:

«O Ministro das Finanças, Bagão Félix, disse hoje, na apresentação da proposta de Orçamento do Estado para 2005, que a taxa efectiva do IRC não pode ser inferior a 15%, um valor que supera o pago habitualmente pelas instituições financeiras. Para além do fim dos benefícios fiscais nas CPH, Planos Poupança Acções e PPR/E vão também ser eliminados os das acções adquiridas em empresas privatizadas.

«Após a utilização dos benefícios fiscais previstos pela lei, o IRC a pagar não pode ser inferior a 60% do que seria devido caso os mesmo não existissem», o que significa uma taxa mínima de 15%, explicou o ministro em conferência de imprensa. A taxa de IRC em Portugal é de 25%, pelo que os 15% correspondem a 60% deste valor. (...)

O ministro das Finanças já tinha adiantado que queria alargar a base tributária da banca nacional, que paga uma taxa efectiva de imposto muito baixa. O Ministro adiantou a taxa efectiva de IRC na banca ronda os 6% e que sem o contributo da Caixa Geral de Depósitos o taxa global ainda é mais baixa.»


Poucas semanas depois, Jorge Sampaio demitia o governo de Pedro Santana Lopes («má moeda», segundo Cavaco Silva), abrindo caminho para a chegada de José Sócrates ao poder, com tudo o que se sabe. Sócrates gastou tudo o que Estado tinha e não tinha, deixou o país enterrado em dívidas e negócios ruinosos, e só saíu do poder quando a banca lhe fechou a torneira.

 

E agora, o que se passa?


Jornal I, 16 de Outubro de 2013: 

«O presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB), Fernando Faria de Oliveira, considerou hoje que o aumento da contribuição extraordinária sobre a banca previsto na proposta de Orçamento de Estado para 2014 (OE2014) é uma notícia "desagradável" para o setor.

"Foi uma desagradável notícia para o setor. A banca tinha a expectativa de que o imposto extraordinário cessasse em 2012. Este imposto extraordinário sobre a banca, que não é em função dos resultados, foi de 139 milhões de euros em 2011, e de 136 milhões de euros em 2012. Ora, a banca já tem de realizar um esforço adicional para dotar o recém-criado Fundo de Resolução – um novo custo para o setor", afirmou à agência Lusa o presidente da APB.

Quando esta taxa foi lançada ainda pelo Governo socialista de José Sócrates era suposto ser uma medida extraordinária para vigorar apenas em 2011. Mas a mesma vigorou em 2012, 2013 e, segundo o OE2014, voltará a ser aplicada e reforçada para o próximo ano.

"O funcionamento da banca portuguesa está a ser muito penalizado. Como é sabido, nos últimos dois anos a banca registou prejuízos significativos (que em 2012 ultrapassaram os 3 mil milhões de euros), em resultado da crise da dívida soberana, repercutindo-se na recessão económica, no aumento do incumprimento, na necessidade de registar imparidades e aumentar provisões", sublinhou Faria de Oliveira. (..)

O aumento da contribuição sobre o sistema bancário deverá render mais 50 milhões de euros aos cofres estatais em 2014, para um total de 170 milhões de euros, segundo as estimativas apresentadas pelo Governo na proposta do OE2014.

Assim, o executivo não só mantém a contribuição sobre o setor bancário, medida extraordinária instituída ainda pelo Governo Sócrates para vigorar em 2011, como vai reforçá-la.»

 

E dias depois, eis quem reaparece em cena e ao ataque...

Mera coincidência, naturalmente...

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publicado às 02:20

Um recuo civilizacional sem precedentes

por João Quaresma, em 12.10.13

«A liberdade com roupagem de opulência, consumo, "conforto" e prazer escondia, pois, indústrias milionárias de alienação, a destruição sistemática das instituições inculcadoras da ordem social, cultural, e política. Foi com a benção do consumismo, do crédito para todos, do dinheiro barato que se semeou a crença que a felicidade individual só se realizaria com a substituição do dever pelo prazer e quando todas as formas de autoridade fossem substituídas pela cultura do lúdico. Certamente que ao cerrado combate para a destruição da escola e da cultura na sua expressão mais latitudinal - hoje transformadas em negócio e consumo - implicaria ipso facto o fim da própria ideia de cultura. Pensaram os ingénuos que se abria uma nova era de ilimitado experimentalismo e busca de um novo tipo de homem. Compreende-se agora o mito da "classe média", solução engenhosa para desagregar a cultura de classe (inerente a cada grupo social) e sobre ela criar uma só classe de consumistas, angariadores de crédito e prazer. A bolha imobiliária (como a bolha do automóvel para todos, a bolha das PPP's para abrir estradas levando às "novas urbanizações") - tudo isso um negócio que requeria mais mercado.

A verdade é que o capitalismo libertário se desfez deliberadamente de todas as formas de limitação - por via da moral, da ética, da responsabilidade - para, assim, implantar, não o contrário da velha ordem burguesa, mas uma sociedade sem centro, um não-Estado, uma anti-economia. Assim se explica a continuada mutilação da dimensão integradora do Estado - assistencial, educadora, codificadora, policiadora - ao longo das últimas três ou quadro décadas. Assim fica explicado o derrube da ideia de fronteira política e económica, a desvalorização moral do trabalho, a exaltação do protestarismo, o culto do "Outro" (multiculturalismo), o combate cerrado contra o patriotismo, as forças armadas e a "educação autoritária". Neste combate, a esquerda divulgou, vulgarizou, legitimou os chamados "sentimentos nobres", enquanto aderia sem reserva alguma à globalização, às migrações, à "cidadania universal". A "cidadania universal" queria apenas dizer mais imigrantes, derrube do sistema social europeu, deslocalização do aparelho produtivo. A Europa, que por via dos fascismos e do comunismo, se armara de dispositivos para regular o desespero dos pequenos, assistiu ao longo dos últimos anos a um recuo civilizacional sem precedentes. Para iludir o vazio, o liberalismo libertário inventou a ilusão da participação, estimulando o convivialismo das internets, as tribunas opinadoras, as causas que - tantas são - dispersam a angústia e compensam psicologicamente os cidadãos pela perda efectiva de capacidade interventora.»

 

Miguel Castelo-Branco, no Combustões.

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publicado às 06:14

Cá não há disto

por João Quaresma, em 10.10.13

Vinte e oito. Tão somente vinte e oito. The hip-hop mayor...

 

«Ex-Detroit mayor sentenced to 28 years in prison for corruption

 

Kwame Kilpatrick, the disgraced former mayor of Detroit, was sentenced Thursday to 28 years in prison for corruption following a series of scandals that showed he had unchecked power while in office.

Kilpatrick’s defense attorneys originally had argued that federal prosecutors were overreaching when they recommended he get 28 years – but Judge Nancy Edmunds handed down every minute of it.

"It was a tough sentence but it was a very large crime (and) the punishment met the crime," said U.S. Attorney Mark Chutkow.

Kilpatrick addressed the court before his sentencing, saying, "I'm incredibly remorseful." But he stopped short of admitting guilt.

"I respect the jury's verdict,” he said. “I think your honor knows I disagree with it."

This was a different Kilpatrick. Gone were the flamboyant suits, the earring and the demeanor of the politician once described as the “hip hop mayor.” (...)

Kilpatrick spent $800,000 more than he earned. He billed his city credit card for trips to Las Vegas, and bought concert tickets and football tickets along with an $850.00 steak dinner. He leased two Lincoln Navigators for his wife with public money.

"Managing a city with no money is hard every single day," Kilpatrick told the court. "I can't stand here and say I didn't work my butt off. I did every single day."

Kilpatrick did not help the impending financial crush of Detroit. Federal prosecutors wrote in a 51-page, pre-sentence filing that the city "desperately needed resolute leadership. Instead it got a mayor looking to cash in his office through graft, extortion and self dealing."

As sentences continue to get stiffer for convicted politicians, federal prosecutors in Detroit clearly intended to send a message.

"I truly hope that every public official who is out there in this district and even having the slightest inkling of crossing the line and betraying the public trust, that they pay close attention as to what went on in that courtroom today," said federal prosecutor Michael Bullota.

On top of the 28-year sentence, Kilpatrick will need to pay restitution. The amount will be determined at a hearing not yet scheduled and it will be based on any assets Kilpatrick has left.»


Notícia daqui.

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publicado às 23:40

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

por João Quaresma, em 03.10.13

Disto já não se faz.

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publicado às 23:48

Recomenda-se: Jobs

por João Quaresma, em 23.08.13

De Joshua Michael Stern, com Ashton Kutcher no papel de Steve Jobs.

Não sendo um filme excepcional, dando o desconto que faz parte da construção do mito em trono de Steve Jobs, e que provavelmente não será 100% fiel à verdade, que obviamente serve os interesses de marketing da Apple, que não resistiu aos clichés sobre os computer geeks e os universitários do final dos anos 60/anos 70, é ainda assim um filme interessante, bem realizado e interpretado, carregado aos ombros por Ashton Kutcher. A figura de Jobs é tratada nas suas várias facetas, do aluno universitário ao empresário visionário, passando pelo relacionamento com os seus próximos, e naturalmente pelos seus ensinamentos. A banda sonora também é bastante bem sucedida.   

E para quem teve as primeiras aulas de informática há quase 30 anos (ao teclado de um Bull 80286, de 8 MHz - uma grande máquina na altura), ver este filme desperta memórias e carinho por uma época em que a informática estava a chegar ao alcance do comum dos mortais, com teclados iguais aos das máquinas de escrever electrónicas, monitores de válvulas com ecrãns monocromáticos (onde, quando se movia o cursor de um lado para o outro, deixava um rasto de luz atrás de si) e a informação guardada em disquettes de 5 e 1/4 de polegada, 360 Kbytes de memória - os discos rígidos só apareceram mais tarde. Na altura, era a tecnologia de ponta, a começar a transformar as nossas vidas.

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publicado às 02:40

Beleza portuguesa

por João Quaresma, em 17.08.13

Não se trata de mais um filme promocional do Turismo de Portugal mas tão simplesmente de um video feito por um fotógrafo de natureza britânico durante a sua estadia em Abril. E o resultado é um regalo.

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publicado às 22:10

Alentejo...

por João Quaresma, em 08.08.13

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publicado às 22:57

Ao fim do dia - Sabe Deus

por João Quaresma, em 31.07.13

Ana Moura e o israelita Idan Raichel.

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publicado às 23:42

End of story

por João Quaresma, em 24.07.13

O sistema não tolera os outsiders. O sistema não tolera quem tenta normalizar o país nem aproximá-lo de referências internacionais. O sistema não quer um Portugal de Primeiro Mundo: quer um Panamá na Europa. Um quintal de interesses, atrasado, aturdido e deprimido, castrado de forma a não usar as suas energias, e a deixar-se abusar por todos e mais alguns. O sistema defende o status quo a todo o custo, mesmo que o status quo arraste o todo para o abismo. O sistema não perdoa a quem o questiona, quanto mais a quem o afronta.

Não faltam Álvaros, dentro e fora de Portugal, que poderiam dar um valioso contributo ao país dando efeito aos recursos que o país dispõe mas está impedido de usar. Mas depois disto, dificilmente alguém independente e que coloque os interesses do país à frente dos seus estará disponível para servir um governo português, pois sabe o que o espera.

 

Obrigado, Álvaro Santos Pereira, e bom regresso ao Primeiro Mundo.

 

A ler: «O legado de Álvaro», por Maria Teixeira Alves, no Corta-Fitas.

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publicado às 15:52

Recomenda-se: «Dentro da Casa»

por João Quaresma, em 22.07.13

De François Ozon. Um bom filme francês, bem escrito, realizado e interpretado. Um professor de Francês que descobre entre os seus alunos um com especial talento para escrita e que resolve aconselhar e desenvolver. Não imagina ele no que se está a meter.

Além do mais, este filme é uma oportunidade para escutar Francês correcto e bem falado, sem palavrões nem calão.

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publicado às 15:56

Estado Sentido em destaque no Sapo

por João Quaresma, em 22.07.13

Desta vez com o meu post de ontem «No fim de contas», uma leitura sobre a crise política, em destaque na área de Opinião.

À equipa do Portal Sapo os meus sinceros agradecimentos e saudações blogosféricas!

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publicado às 14:30

No fim de contas

por João Quaresma, em 21.07.13

Vencedores:

 

Pedro Passos Coelho: saíu de uma situação de fragilidade pela saída de Vitor Gaspar e pela traição de Paulo Portas para ser confirmado como o homem ao leme tal como as sondagens apontaram ser, apesar da impopularidade, a vontade da maioria dos portugueses. Sai reforçado, interna e internacionalmente, como Primeiro-Ministro e como líder do PSD.

PSD: acordou para a realidade percebendo que tinha de arregaçar as mangas e apoiar o seu líder. Cair do poder agora poderia significar fazer mais uma longa travessia do deserto, porventura mais prolongada que as anteriores. E a partir de agora tem todos os motivos para tentar ganhar as próximas eleições com maioria absoluta, dispensando coligações com o CDS. Isto significará uma viragem à Direita, tentando reconquistar eleitorado à abstenção e ao CDS. E meter Cavaco e Ferreira Leite no ecoponto.

Álvaro Santos Pereira: tratado como persona non grata e apontado como remodelável desde que tomou posse, e apesar de perder poder, continua no Governo, sobrevivendo a Miguel Relvas e Vitor Gaspar, contra ventos e marés. Quem ri por último, ri melhor.


Perdedores:

 

Paulo Portas: ninguém tem grande simpatia por vira-casacas e ratos que saltam fora do barco durante a tempestade. Paulo Portas poderá manter-se à cabeça do seu partido, mas nunca mais recuperará deste episódio. A ambição desmedida custou-lhe caro, e ao seu partido unipessoal também.

PS: se o CDS é actualmente o partido unipessoal de Portas, o PS provou-se ser o partido unipessoal de José Sócrates. António José Seguro é apenas o infeliz que foi posto ao volante por uns tempos . E ficou evidente que, por muito grande que seja a máquina de propaganda que o serve, não é possível esconder que do Largo do Rato não se pode contar com qualquer papel construtivo, qualquer contribuição minimamente realista e positiva para a resolução dos problemas do país - para os quais, esses sim, contribuiu grandemente apesar de não mostrar um átomo de arrependimento. Além disso, não terá as eleições antecipadas que lhe conviriam, antes que a economia comece a recuperar de forma mais visível.

Cavaco Silva: "live but not learn". Intrometeu-se na resolução de uma crise governativa quando esta já estava resolvida, propondo uma solução com escassas hipóteses de sucesso. Envolveu o PS na resolução de uma questão que este partido não queria, não tinha interesse e não conseguiria (por razões internas) resolver mesmo que quisesse. Apenas conseguiu evidenciar os defeitos do PS, papel que decididamente não cabe ao Chefe de Estado. Um capricho perigoso e inútil que ficará registado nos anais deste infeliz período da História.

Opositores internos de Pedro Passo Coelho: perdedores em toda a linha. Manuela Ferreira Leite poderá continuar, como até aqui, a dissecar tudo o que de negativo se passar com o Governo com o seu sorriso de satisfacção, que pouco ou nada significará para além do espectáculo que justificou a sua alcunha no Contra-Informação: "Manuela Azeda-o-Leite".

Reputação da classe política portuguesa: como se não fosse possível piorar, transformou-se num infantário em auto-gestão durante três semanas. Renovação precisa-se urgentemente.

Credibilidade internacional de Portugal: até esta crise acontecer, Portugal tinha conseguido passar a imagem de que a casa estava a ser arrumada e que gozava de estabilidade política. Tudo caíu como um castelo de cartas e toda a gente percebeu que era uma aparência vendida por aquele país cujos jogadores de futebol estão sempre a atirar-se para o chão para tentar enganar o árbitro e arrancar um penálti que não existiu. Dois anos de trabalho deitados fora? Quase. Estamos agora mais longe da Irlanda e mais comparados à Grécia (que apesar de tudo está empenhada em fazer reformas). Agora temos nós que fazer reformas a sério, doa aos interesses instalados que doer.

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publicado às 23:30

Duas notícias, dois países, o mesmo problema.

por João Quaresma, em 18.07.13

Em Espanha, antes de ontem:

«A reforma do sector eléctrico prevê fechar centrais de energia renovável para reduzir o défice tarifário.

Espanha poderá avançar com compensações para encerrar as centrais de produção de energia renovável, no âmbito de uma reestruturação do sector energético. Em causa está o preço elevado da produção destas formas de energia, o que levou a que o governo de Mariano Rajoy admita avançar com incentivos económicos para o encerramento definitivo de centrais de energia renovável e de cogeração, noticia o "El Mundo".»

 

Em Portugal, ontem:

«O Grupo francês Neoen está a construir em Coruche, distrito de Santarém, a sua primeira central fotovoltaica em Portugal, um investimento de 40 milhões de euros e que vai permitir produzir energia para cerca de 30 mil habitantes. (...)

O presidente do Grupo destacou o facto de este investimento ser um projeto europeu, com financiamento francês, painéis solares alemães e construtores portugueses. Xavier Barbaro salientou a "excelente colaboração entre todos os intervenientes" para a concretização do projeto.

A Neoen vai investir em Portugal 60 milhões de euros em centrais fotovoltaicas, 40 dos quais na vila de Coruche. Nos 70 hectares de terreno vão ser colocados 18.388 painéis solares e 45 quilómetros de cabos.»


Ou seja, enquanto em Espanha o governo procura resolver o problema mesmo que recorrendo à medida extrema de subsidiar o encerramento de infraestruturas cuja construção foi também subsidiada, em Portugal continua-se a aprofundá-lo, como se não fosse já suficientemente ruinoso.

Ainda por cima, consente-se que se instale uma gigantesca central de energia solar em plena lezíria ribatejana, zona agrícola por excelência por ter alguns dos terrenos mais férteis e produtivos do país. E assim, 70 hectares vão ser cobertos por 18 mil painéis fotovoltaicos importados (apesar de também se fabricarem em Portugal), criando um número ínfimo de postos de trabalho em mais um projecto que irá viver das rendas pagas pelo contribuinte português.

A mais este "magnífico" investimento estrangeiro só tenho a expressar os votos sinceros de um bom tornado.

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publicado às 18:08

Uma pausa da realidade.

por João Quaresma, em 12.07.13

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publicado às 22:56

Alexandre Soares dos Santos, ontem à noite em entrevista à RTP (vídeo aqui).

No meio da enorme torrente de opiniões, leituras e prognósticos, o CEO da Jerónimo Martins é das vozes mais lúcidas e descomprometidas do país. Enquanto alguns vêem salvadores da Pátria entre as eminências mais ou menos pardas do regime que nos trouxe à actual situação, bom seria se outros valores, de fora do sistema, fossem aproveitados para o serviço do país. Mas a explicação para isto ser difícil de acontecer provavelmente está no título.

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publicado às 12:22






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