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A erdoganização de Madrid

por John Wolf, em 29.10.17

goya.JPG

 

A Europa das luzes, da superioridade civilizacional, do legado dos impérios coloniais, prepara-se para recuar na história e tornar a plantar um factor de dissensão no presente, no seio da União Europeia. O ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, Alfonso Dastis, não descarta a possibilidade da prisão de Puidgemont. A acontecer, seremos forçados a designar a detenção de prisão política. O governo de Madrid invoca a legalidade constitucional e a traição do lider catalão, mas arrisca-se a promover ódios e reacções mais profundas. Se Puidgemont é o inimigo a abater, então Rajoy e Saenz devem usar a máxima do padrinho, de D. Corleone - keep your friends close, but your enemies closer. Quer a ficção quer a história oferecem lições importantes. Em 1815, o Congresso de Viena foi concebido para reintegrar França no sistema europeu após a derrota napoleónica. Ou seja, a humilhação política é um mecanismo contraproducente - existem imensos exemplos na história europeia. Madrid, envolve-se deste modo, semi-voluntariamente, num processo de reasserção juridificante através do qual poderá ter de chamar a si prerrogativas de controlo político que obrigam a uma profunda revisão constitucional. A reciprocidade da violência poderá correr em linhas paralelas a mecanismos de ajustamento jurídico, através dos quais Madrid anula as benesses das periferias granjeadas com o estatuto de governação autónoma. Nesse sentido poderemos traçar comparações com as movimentações recentes do regime erdoganiano (Erdogan, Turquia). A manifestação de hoje, a favor da união espanhola, comparticipada por centenas de milhares de pessoas, pode gerar efeitos diversos ainda mais ousados. A emenda da união de Madrid pode ser pior do que o soneto da independência da Catalunha. Deve haver algum cuidado para que o tiro não saia pela culatra - que o nacionalismo espanhol não seja acordado, para pôr em marcha purgas mais alargadas em nome de uma bandeira intransigente. A prisão de Puidgemont, a acontecer, pode gerar atritos entre a Espanha e os valores democráticos que a União Europeia tanto apregoa. Afinal, pode não ser necessário viajar à Turquia para coleccionar exemplos de censura política e perseguição policial. Uma orbanização iliberal (Órban, Húngria) que seria uma outra via, seria propensa ao isolamento do estado unitário espanhol no contexto do concerto comunitário da União Europeia. As implicações, in extremis, que decorrem das perguntas colocadas pelo desafio catalão, poderão incluir a sugestão da "desfederalização" da Espanha, mesmo que a mesma esteja configurada juridicamente enquanto entidade unitária. A pergunta mais pragmática que talvez se possa formular será a seguinte: existirá uma modalidade menos lesiva para a unidade espanhola do que a remoção de poderes autonómicos à Catalunha? Veremos como irão cambiar de tércio em Espanha, e como irão domar o touro. A faena vai ser longa.

 

gravura: Francisco Goya

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publicado às 18:57


3 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 29.10.2017 às 21:41

Não foi removido absolutamente nada daquilo que a Constituição de 78 prevê: dissolveu-se um parlamento regional, demitiram-se compulsivamente os golpistas e marcaram-se novas eleições para o próximo 21 de Dezembro, quando o governo central poderia tê-lo feito daqui a uns meses. Não vejo nada de perigoso e ilegal, perigoso seria continuar a permitir ad eternum todo o tipo de ilegalidades que a Constituição tão bem prevê: secessão, deposição do monarca, ataque cerrado a quem não for considerado "catalão de raça", ou seja, independentista; promoção do ódio na escolas e isto desde há 30 anos, pelo menos. O quadro é bastante perigoso, de facto.
O accionar do 155 apenas peca por tardio, deveria ter sido feito antes daquela cena ridícula no parlamento local. Ridícula não só por causa da total falta de grandeza que a formalidade confereria ao acto, como também pelo próprio quorum para o mesmo, previsto nos prórpios regulamentos locais. Dos 90 deputados obrigatórios, apenas votaram 70 e mesmo assim, após um referendo onde cada um podia votar as vezes que quisesse, sem o controlo de observadores imparciais, com votações à vista de todos - coaccão moral, claro! -, no meio de uma algazarra infernal de feita, mesmo assim chegaram ao requinte de desferir um pontapé nas suas próprias regras, uma massa infernal de bloquistas e proto-terroristas em potência.
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De Anónimo a 29.10.2017 às 22:15

a acção dá sempre lugar à reacção.


até agora assisti apenas ao agit-prop de puig, 
mais zig do que zag


somos independentes (erro para nim) porque uma duquesa Medina-Sidónia quiz ser rainha


deu que actual,ente estamos 'fudidos' e os espanhóis não aceitam devoluções em mau estado de conservação
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De JS a 30.10.2017 às 00:04

A Catalunha vai obter a autonomia fiscal que deseja, 
Ficam todos bem e espanholitos.

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