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A Lisboa do esquema vigente

por Nuno Castelo-Branco, em 30.08.17

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Há precisamente 43 anos, a 31 de Agosto de 1974, pela primeira vez vi a Lisboa que conhecia através de centos de imagens que os meus pais me mostraram sem que jamais cá tivessem estado. Identificava facilmente as zonas e logo passámos semanas a percorrê-las a pé, num turismo gostosamente forçado que recolhia a altas horas da noite ao refúgio na roulotte do primo Joaquim Dantas, estacionada no parque de Campismo de Monsanto, 5m2 à medida de 1m2 por pessoa do nosso agregado familiar.

Era ainda uma magnífica cidade, com áreas relativamente bem delimitadas pelo percurso da história de um país que contando com centenas de anos, nem por isso deixou de seguir, por vez tardiamente, os padrões aceites e vigentes no resto da Europa ocidental e central. Existia a cidade do Iluminismo, a de uma reconstrução admiravelmente conseguida. Sobreviviam poucos vestígios anteriores, tanto medievais como da Renascença que chegando aqui relativamente atrasada - e boa parte dela desapareceu em 1755 -, talvez em boa parte tenha coincidido com a união ibérica. Logo se seguiu a Lisboa burguesa num tímido imitar dos Boulevards da rectílinia e plana Paris, estendendo-se as novas ruas e bairros desde o início da Avenida até ao Campo Grande. A cidade republicana, essa limitava-se quase exclusivamente ao que a 2ª república em escassos anos, dado o volume que ainda ocupa, ergueu e expensas de proprietários obrigados a ceder posses, terrenos votados ao abandono e algum património do Estado. É mesmo aquela que grosso modo compreende a vasta área que vai da Praça do Chile aos Olivais, incluindo as artérias adjacentes à Avenida de Roma e todos os bairros ditos sociais que foram sendo ocupados por vários estratos relativamente afectos - ou naquele portuguesíssimo assim-assim - ao regime vigente.

Em 1974, poucos meses decorridos após o golpe de Estado, a cidade estava imunda, coberta de dizeres materialmente inócuos mas tremendamente violentos de morra! isto, morra! aquilo, alternando o forro de cartazes até aos terceiros andares, com os borrões de tinta passada à brocha que nem sequer pouparam monumentos. Uns tantos magníficos murais do MRPP, compunham o todo e sobressaíam, é mesmo verdade.

Lisboa ainda tinha e oferecia a oportunidade a quem quisesse vê-la para além dos passageiros estragos. Imponentes edifícios burgueses oitocentistas cobertos de ornamentos e arrebiques, grandes cafés de época, enormes teatros e aquela certa homogeneidade de áreas que contavam uma história, um certo tempo.

Tudo desapareceu, inclusivamente a fauna humana que então fervilhava e era espessa na Baixa, espessa nas Avenidas Novas, espessa nos locais onde facilmente eram catados turistas de ocasião. Foi a Lisboa que vi aos 15 anos de idade, uma cidade que se apercebia para além de um segundo do tempo da sua existência.

Dei-me esta noite ao voluntário trato de polé de assistir a uma espécie de debate televisivo em que se digladiaram todos os candidatos a presidir à edilidade da capital portuguesa. Um desastre que apenas confirmou as minhas suposições há muito tempo enraizadas após a passagem de décadas como pedestre e interessado não apenas no fachadismo, mas também voltando a minha curiosidade para a organização interior dos espaços que também desfiavam a história dos seus residentes, dependendo da ampulheta que marca o tempo e das condições propiciadas pelo mesmo.

Todos bem sabemos que os problemas da cidade já nos chegam após muitas décadas de depredações, quiçá podendo nós situar como marco a destruição calamitosa da Praça da Figueira e do Martim Moniz que lhe é contíguo. A partir daí, o camartelo tomou força e fúria e trepou pela Avenida acima, arrasando, mutilando e desfazendo belas realizações que um dia mereceram o Prémio Valmor, talvez o único prémio mundial que garante a futura demolição do galardoado. Para sempre desapareceram prédios de arrendamento, palacetes, igrejas e tantos, tantos outros exemplos daquilo que significava uma cidade relativamente europeia, pois a modéstia nacional não concentra a monumentalidade de capitais imperiais como Viena, Paris, Roma ou a Berlim também para sempre desaparecida com a terraplanagem final de 1945. Pouco se preservou e aquilo que sobra é adulterado, pladurizado, aluminizado e dotado de modernices brilhantes à luz led. Vingam os cabeçudos onde os arquitetos sem C teimam em deixar marca tão indelével e malcheirosa como o líquido aspergido pelo muito mais simpático e relevante cãozinho que fareja para logo alçar a perna. Desta forma vão vingando uns desgraçados monos aqui e ali e damo-nos, pobres coitados, a olhar para um das dezenas de Herons Castilho e exclamarmos ..."pelo menos salvou-se uma parte da fachada!" Muitos conhecem-no pelo Frankenstein da Rua Braamcamp.

Pensei que iam falar da verdadeira razão da explosão incontrolável do muito necessário e bem-vindo turismo para este ensolarado Portugal, turistas esses empurrados por aquilo que os candidatos fazem de conta não perceber e têm em reserva mental, ou seja, a segurança. Não merecendo sequer a pena tecerem-se considerações a respeito das razões de uma tranquilidade durante passeios neste país que lhes é estrangeiro e que todos entendemos perfeitamente, politicamente tornou-se incorrecto mencionar ou identificar a causa desta súbita irrupção de forasteiros que antes preferiam o Egipto, o Próximo Oriente ou um dos países do Magrebe. Preferiam e suspeito intimamente ainda preferirem no recôndito dos seus cérebros à procura de aventuras exóticas. Portugal era uma fraca piada que poucos sequer tentavam conhecer através de fotografias, em suma, não interessava. 

Esperaria que pelo menos alguém ousasse falar da escandalosa depredação de património arquitectónico, miseravelmente substituído por construções horrendas, vulgares e sem qualquer interesse que num futuro bem próximo não concitarão a menor curiosidade ou estima. Não prestam nem sequer em qualidade estética que decorre de qualquer novidade. Copia-se em pequenino e mau a roçar o rasca, eis a situação.
Resolvidas as questões de instabilidade em certas áreas bem próximas da Europa, podemos ter a certeza deste turismo de massas desaparecer e oportunistamente deveremos desde já implorar a todas as alminhas do purgatório para que a criminosa violência por lá continue por muitos e bons anos. É o ponto a que chegámos.

A verdade é que o Esquema Vigente tornou-se tão retorcido, que a principal vereação da edilidade, a do urbanismo, tornou-se, alegadamente, numa ampla coutada de um conluio de certos fundos imobiliários adstritos a uma suspeitosa banca e em claro conúbio com as construtoras mais ou menos amigas. O resultado está à vista e podemos estar certos de que não sobejará pedra sobre pedra, cingindo-se a Lisboa que interessa a bem pouco das construções sobreviventes entre a Rotunda e o Tejo. A isto resumir-se-á a capital de Portugal.

O cúmulo da desfaçatez que me fez decidir a ir uma vez mais à secção de voto para depositar um X de alto a baixo? Ousaram mencionar a grande e muito necessária obra do Palácio "nacional" da Ajuda "não concluído desde há 200 anos". Ainda se gabam todos aqueles pobres tolinhos de olhinhos em alvo, como se de uma suprema e final conquista se tratasse. Bem vistos os factos, esta menção à Ajuda resume a total incapacidade e míngua mental de um bando de cinco paraquedistas da políticazinha.

 

É mesmo uma desgraça Ribeiro Telles não ter hoje 50 anos.

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publicado às 22:28


3 comentários

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De xico a 31.08.2017 às 00:21

Gosto muito de Lisboa e, ao contrário do Nuno, acho Lisboa muito mais monumental que Viena ou Berlim. Mas é uma questão de opinião. Os assassinos de Lisboa, no entanto, vêm de longe, e houve quem quisesse no passado, em nome da salubridade, demolir Alfama, que considero o melhor desenho urbanístico da cidade. Não partilho a opinião sobre o que ultimamente se tem feito em Lisboa. Muita coisa foi mal feita e muito há por fazer, mas hoje pode visitar-se com agrado a Mouraria onde se encontram recantos paradisíacos. O largo junto à casa da Severa é um exemplo e a recuperação do Intendente também. Conheço ainda pessoas que torcem o nariz se as convido a visitarem o Intendente, e ainda me lembro do que não me passaria pela cabeça por ali passear com mulher e filhas. É claro que aquela aberração do centro comercial é isso mesmo: uma aberração da gestão de Abecassis. Mas partilho da sua opinião sobre as obras no palácio da Ajuda. Com tanto património a cair, com salas fechadas nos museus por falta de funcionários, acabar uma obra que nunca deveria ter sido começada só para termos mais salas de que os lisboetas não sentem falta, brada aos céus.
Lisboa tem um problema grave que não foi mencionado, julgo eu, naquele debate: o decréscimo de população que se vai acentuar assustadoramente nas próximas décadas sem que seja possível reverter, mesmo nas previsões mais optimistas. Disso ninguém fala!

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