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As perigosas escapadelas de França

por John Wolf, em 26.01.14

As medidas de austeridade impostas pela Alemanha aos países da periferia da União Europeia, serviram para exaltar os ânimos e apontar as baterias a Berlim e em particular à figura "odiada" de Merkel, mas devemos prestar atenção ao que se passa em França. É no país do Iluminismo de Rousseau e Montaigne que as distorções ideológicas começam a ganhar uma preocupante configuração. François Hollande, uma espécie de uber-socialista, demonstrou de um modo inequívoco os limites de processos de decisão política com fins punitivos. A tributação persecutória das fortunas dos ricos arrasa não apenas o modelo de mercado livre, mas condiciona as aspirações igualitárias de qualquer projecto socialista. Os efeitos sentidos são tiros saídos pela culatra, penalizando os alvos, mas também quem tem o dedo no gatilho preparado para disparar mais alguns cartuchos correctivos. Concomitantemente, e em dissonânica com interpretações moralistas de devaneios de outras paragens e de outros tempos (refiro-me a Clinton e ao caso Lewinsky), o affaire Hollande serve também para fazer desmoronar um acervo, quebrar tabus. Neste caso, quase que invertendo a ordem de valores e o sentido de Estado, Hollande apresenta-se como a dama ofendida e não o oposto. Esta revolução do foro íntimo, tornada pública nas últimas semanas, serviu também para soltar o animal contido em si. A viragem ideológica de Hollande em favor dos mercados e do liberalismo emite um sinal claro de desespero político, a declaração do "vale tudo", e, nessa medida, a França terá sido libertada para dar expressão a grande parte do seu espectro ideológico. O que se passa com a direita, ou extrema-direita, representa, de um modo claro e preocupante, a necessidade que a França tem em assumir um estatuto maior, o que contrasta com indicadores que revelam falta de saúde económica. Em suma, enquanto as atenções estavam viradas aos afazeres germânicos, a França foi dando expressão a um Europa decalcada de outros tempos, perigosa. O mix entre assuntos de Estado, traições passionais, economias débeis e ideologia, pode resultar num fenómeno muito mais fracturante do que possamos imaginar. Não me refiro ao comportamento excêntrico de uma Hungria ou aos resultados parcelares da direita austríaca; refiro-me a um dos bastiões da democracia comunitária, um dos parceiros que acordou o entendimento com a Alemanha, precisamente para integrar as externalidades de uma Europa devastada pela segunda grande guerra. Neste caso, embora a situação seja por enquanto doméstica, serve de prenúncio de males maiores que podem afligir a Europa. Até ao momento o cavalo de batalha tem estado no campo económico e financeiro, mas quando os argumentos se tornam intensamente ideológicos, a coisa muda de figura, mesmo que as figuras políticas sejam as mesmas de sempre. Esse é o bottomline; não podermos confiar na tabela. Os que pareciam ser socialistas, afinal são outra coisa. Os que são de direita, porventura descairão para as extremas, e os que estão ao centro em coligações, podem, de um modo conveniente, servir-se à vontade desse imenso buffet, dessa extensa mesa de opções políticas e ideológicas.

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publicado às 19:20







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