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Memórias de um burro II

por Felipe de Araujo Ribeiro, em 01.03.14

 

O projecto de esperança em que consistiu a independência do Sudão do Sul, depois da secessão do Sudão em 2011, tornou-se um falhanço completo passado pouco mais de dois anos.

 

Algumas cidades estão completamente destruídas e desertificadas, as casas saqueadas e incendiadas. Assim está por exemplo Malakal, cidade tomada pelos rebeldes, e onde me encontro neste momento. Ao atravessar os escombros daquilo que era até há pouco mais de dois meses uma das maiores cidades do país, deparo-me com centenas, talvez milhares de soldados das forças rebeldes a reforçar as suas linhas, preparando-se para resistir a uma ofensiva do exército leal ao governo que decerto irá chegar nos próximos dias.

 

Na estrada que liga o que resta do aeroporto à base onde está montado o nosso campo, podem ver-se dezenas de cadáveres em decomposição, rodeados por cães e abutres que os devoram.

 

Há dias, aquando da ofensiva rebelde que em apenas duas horas levou à tomada da cidade, milhares de refugiados forçam a saída de um lado da base da ONU em Malakal, enquanto que ao mesmo tempo, do outro lado do campo, outros milhares forçam em pânico a entrada. São os que saem os homens e as mulheres da facção dos rebeldes; os que entram encontram-se do lado do regime. Há uma divisão étnica bem vincada, mas são também milhares as crianças de um lado e de outro.

 

É impressionante a imagem da debandada de uma multidão em pânico, em simultâneo para fora e para dentro do campo, e ilustrativa do cenário de caos e confusão que tomou conta do país.

 

 

Até há cerca de um mês, as igrejas constituíam um dos poucos locais de segurança onde a população poderia refugiar-se, muito por culpa do respeito que o povo Sul-Sudanês reservava à Igreja pelo seu importante papel de apoio e conciliação durante os anos de guerra e transição. Há dias, dezenas de religiosas que buscavam refúgio numa igreja foram violentamente estupradas e de seguida assassinadas à queima-roupa, algumas das quais idosas com mais de 70 anos de idade. Repetem-se os casos de saque e destruição de igrejas em vários pontos do país, tendo até os mais resistentes dos religiosos sido forçados a fugir para salvar a vida.

 

A violência chegou até aos próprios campos de refugiados, improvisados nas bases da ONU, onde são frequentes, senão diários, os casos de agressões e mortes. Contam-se já mais de um milhão de deslocados ou refugiados, e mais de sete milhões em situação de risco grave ou emergência, sem condições de segurança e higiene ou acesso a comida e medicamentos.

 

As negociações para a paz não avançam; encontram-se aliás quase em ruptura no seguimento do falhanço na implementação do acordo de cessar-fogo. A esperança vai-se extinguindo rapidamente e o ódio e desejo de vingança estão cada vez mais presentes no discurso de todos, independentemente da origem étnica. O conflito, ao que tudo indica, está para durar.

 

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publicado às 08:03







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