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Novo duelo a garrotazos?

por João Pinto Bastos, em 10.10.12

 Goya, Duelo a garrotazos, 1819

 

A convulsão política que se vem desdobrando na Catalunha arrisca-se seriamente a lançar Espanha numa senda autodestrutiva. A recente sondagem realizada pelo Centro de Estudios de Opinión indica uma ampla maioria de apoio a um referendo sobre a independência na Catalunha, o que, bem vistas as coisas, denota um sentimento de exasperação popular pronto a irromper. Os brados incessantes que trovejam em quase todos os rincões do firmamento político espanhol são um indício claro da desorientação reinante num país que, não obstante as duras e rutilantes lições da história, volta a agitar fantasmas passados. Ortega disse, certa vez, que o problema catalão reconduzia-se a um mero nacionalismo particularista, que, gerido com pinças, poderia ser perfeitamente controlado, contudo, a realidade política dos nossos dias convida-nos a um certo pessimismo, e a uma análise cum grano salis. O famigerado debate em torno do mirífico conceito das "Duas Espanhas", que mobilizou os sectores mais ilustres da intelectualidade espanhola, voltou à ordem do dia no debate político espanhol. Já não se trata da emergência dos "inimigos irreconciliáveis" de Pio Baroja ou do clamor pungente de Maragall aquando do famoso grito "Adéu, Espanya!", o problema, hoje, é bem mais periculoso e agudo. O ressurgimento dos nacionalismos periféricos, estribados amiúde no ponderoso argumento fiscal, são um indício inquietante da desagregação política e social que a crise vigente veio estimular. O consenso induzido pela Transição, corroborado na Constituição de 1978, encontra-se actualmente num impasse pouco prometedor. Há em toda esta disputa algo de irracional, de desarrazoado, uma espécie de revisitação dos medos ancestrais e da essência dos bloqueios seculares que, desde sempre, obstaram ao desenvolvimento equânime da pátria de Cervantes. Goya tinha razão no espírito que o imbuiu a pintar o famoso quadro "La Riña". Mais do que a representação dos costumes rurais do campesinato castelhano, este quadro é uma imagem clássica do divisionismo perene entre os espanhóis, que, periodicamente, brota e esmaga a razão e a lógica. Esperemos que desta vez o duelo seja meramente verbal. 

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publicado às 23:22


5 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 10.10.2012 às 23:35

Também me parece. Para cúmulo, os catalães andam demasiadamente convencidos da sua viabilidade como Estado independente. Talvez até poderiam sê-lo, mas a classe política local fez subir as expectativas,d espejando toneladas de promessas respeitantes aos famosos impostos cobrados na região. Quantos catalães existem? Aí está um problema não negligenciável, pois duvida-se muito da continuação da abastança num mercado reduzido. Não tenhamos ilusões. Se a secessão ocorrer, há uma grande probabilidade de conflitos com os seus novos "vizinhos", desde a partilha da água às redes de abastecimentos, controlo de fronteiras, etc. Não nos esqueçamos da ameaça de Madrid de jamais permitir o ingresso da Catalunha na UE. Imaginemos o que isso representará para os interesses económicos locais. 
A própria população do território não é tão homogénea como à primeira vista parecerá. Durante muitos anos, foram-se fixando muitos espanhóis de outras regiões, procurando trabalho da indústria e serviços locais. Como esta gente reagirá quando da secessão, essa é outra incógnita. Gente radical e repugnante - na minha opinião - como Rovira, até chegam ao ponto de colocar como exigência, a proibição de participação de "não catalães" no hipotético referendo! Mesmo residindo há décadas no território, com filhos nados e criados ali, não poderão votar? Isto denota um péssimo princípio, aliás corroborado por todo o discurso de um egoísmo e insensibilidade que roça o absurdo.




Pois bem, a Portugal interessa o diálogo com quem conhecemos há séculos. Interessa-nos a estabilidade, a livre circulação das rotas por onde nos chegam os abastecimentos, etc. Enfim, uma Espanha unida que mantenha o mapa tal como está.: Portugal, Espanha e R.U. para sempre em Gibraltar. 
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De VH a 11.10.2012 às 09:43

Mas... e a seguir à Catalunha vem o País Basco, depois a Galiza... um mapa a roçar os séculos XIII e XIV. Um valente caldo, este.
Já agora, Nuno, há aqui um triângulo que me parece curioso: nos dias de hoje Espanha reclama Gibraltar esquecendo-se do "prémio" que deram à Coroa Inglesa no séc. XVIII; já Portugal tem a questão de Olivença com Espanha... pois daqui, como se costuma dizer, nem bons ventos nem bons casamentos.
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De Nuno Castelo-Branco a 11.10.2012 às 17:54

Para nem sequer perdermos muito tempo com aqueles que por cá vibram com a perspectiva de destruição do país vizinho. Como "não estamos nada" dependentes, havia de ser um espectáculo verificarmos a não chegada de abastecimentos, as chantagens com as águas dos rios comuns, etc. 
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De WZD a 12.10.2012 às 02:19

"The devil you know..." ;)
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De VH a 12.10.2012 às 09:59

É uma outra vertente de patriotismo, Nuno: é que com a fragmentação espanhola Portugal passa a ser um dos maiores países da Península Ibérica, territorialmente falando.

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