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O fim dos machos

por Nuno Gonçalo Poças, em 14.09.17

É que hoje não se pode dizer nada sem fazer primeiro uma grande introdução só para explicar que não estamos a querer ofender os sentimentos de ninguém. Porque nós, não sei bem quando, passámos a ser uma sociedade que se ofende com tudo e que precisa constantemente de leis, regulamentos, portarias e recomendações governamentais que protejam os nossos sentimentos. Clint Eastwood já chamou a isto uma geração de mariquinhas, mas foi verbalmente espancado porque com isso ofendeu todos aqueles que, como bons mariquinhas, se ofenderam com a designação. Desengane-se quem pensar que isto é uma questão de sexualidade. Não. Há imensos homossexuais que não são mariquinhas. Ser mariquinhas não tem nada que ver com as opções sexuais. Tem que ver com a susceptibilidade, com a fragilidade de quem não devia ser frágil. Não se exige que uma mulher seja mariquinhas, por exemplo. Mas também não precisa de ser um hooligan musculado. Parece até que nos esquecemos que uma das vozes conservadoras mais esclarecidas destes tempos, Andrew Sullivan, é homossexual - que não é mariquinhas. Podia até falar de Orlando Cruz ou de Jason Collins, pugilista e basquetebolista, respectivamente, homossexuais. Não é uma questão de orientação sexual, é uma questão de virilidade, no caso dos homens. Ou de feminilidade, se for o caso. Olhem o caso da Ana Zanatti, uma lésbica feminina, que sabe que uma camisa de flanela não faz dela menos mulher, nem deixa de ser homossexual por ser mulher. É que ninguém larga a cama das pessoas, mas estamos a perder-nos algures. Não sei se já ficou claro que não há aqui homofobia ou outras fobias de cujo prefixo não me esteja agora a recordar - umas porque não me lembro mesmo, outras porque posso até desconhecê-las.
É que a masculinidade está em vias de extinção e agora parece que tudo o que não se sente feminino, não come quinoa ou não se dedica à ingestão de alfaces não arrancadas (para não magoar sentimentos vegetais), não é um homem aceitável. Ir aos touros só não é crime por mero acaso. Ir ao futebol, ao râguebi ou ao boxe também. Já nem há programas de homem. O único programa de homens aceitável parece que é uma sessão de depilação total, sauna, colheita de flores no campo, uma hora de 'running', outra de agachamentos e um delicioso repasto de sementes do bosque, bagas não sei do quê, uma manifestação contra o extermínio de mosquitos nas auto-estradas e um funeral de um frango à porta do supermercado.
Se calhar é tempo de fazer aqui uma nova nota sobre isto.
Não é que o homem deva ser um machista marialvão. Não. Isso é absurdo. É um desrespeito pelo outro, e o outro, para o efeito, é a mulher, que tem tanta ou mais dignidade que nós, seres de pêlos e cérebro mais lento. É um perfeito disparate que uma esmagadora maioria dos homens continue sem participar activamente nas tarefas domésticas. Ou que a única tarefa que sente como sua seja o grelhados, o petisco nos dias de bola e levar o lixo à rua. Ou que os homens continuem a ganhar mais que as mulheres. Ou, se quisermos esquecer coisas que se provam com estatística, que um homem ouça no trabalho coisas como "para que vais tu ao pediatra, se tens uma mulher?". Sinto-me até confortável para falar sobre isto: há anos que digo que, com a excepção da abertura de frascos muito apertados, as mulheres são muito melhores que nós. E acho que com isto consigo fazer todas as ressalvas possíveis para não ser insultado.
(É que agora é preciso não ser insultado.)
Mas quando é que estes loucos mediáticos, esta meia dúzia de gente que se faz ouvir como se de uma multidão se tratasse, começaram a fazer vingar esta mariquinhização dos homens? Ou esta hipersensibilidade que para aí vai, que atravessa sexos, raças, religiões. Já nem sei se isto é uma questão de sexos, mas é de certeza de sensibilidade. Mas desde quando é que somos flores?
No programa que gravou em Salvador, na Bahía, Anthony Bourdain, enquanto descascava um caranguejo com as mãos e os dentes, dizia que uma sociedade que é incapaz de descascar marisco não é capaz de nada, muito menos de se defender seja de quem for. É verdade. Agora é corajoso descascar uma gamba. Comer pezinhos de coentrada é clandestino. Passarinhos fritos só se for onde ninguém consiga ver.
Não é que não custe. Custa tanto ver uma matança de um porco. Custa mesmo. Custa tanto ver um tordo que ainda se mexe depois de levar uma chumbada na cabeça. Custa, sim. Como custa ver como se matam os coelhos, aquela cacetada na nuca, seca, fria. Mas, caramba, quem nunca teve prazer a comer farinheiras que se levante, que se recuse a comê-las, que encha a barriga de sementes de linhaça e, mais importante, que se cale para sempre e não incomode quem sabe que para comer é preciso matar. Acho que é isso que um maluquinho da natureza deve defender. Delicadeza sim, mariquinhas não.
Ah, mas e se começarem a matar pessoas, os outros também se devem calar? Não. Mas matar pessoas não é matar animais. Ninguém mata pessoas para comer - excepto os canibais que, vá lá saber-se como, não existem nesta sociedade ocidental enquanto comunidades aceitáveis. É que as pessoas não são animais.
Agora ia discorrer mais um bocado sobre isto e tentar explicar que as pessoas têm uma dignidade diferente da que têm os animais - que a têm na mesma, mas que é inferior. Talvez não valha a pena.
E aqui chegado, fica só a tristeza profunda de saber que isto agora é assim. A não ser que pegue no carro e saia do perímetro da Área Metropolitana, onde o mundo continua mais ou menos igual - mesmo nas coisas más que tem - mas, apesar de tudo, mais sereno. E menos frágil.

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publicado às 10:21


4 comentários

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De Sigmund Vienna a 14.09.2017 às 15:09

Só com um grande esforço de imaginação alguém ainda considera Andrew Sullivan um conservador.
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De naomedeemouvidos a 14.09.2017 às 15:38

Que coincidência, tu hoje a falar de homens e eu a falar de mulheres... Acho que podemos ser espancados os dois


Gostei muito deste post.
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De O Patriarca a 14.09.2017 às 18:32

Estava tudo bem até referir mitos do feminismo como a discrepância salarial, que comprovadamente não existe. De resto, é precisamente contra esta perda de masculinidade que lutamos na Távola Redonda, para que haja cada vez menos histórias como esta:

https://atavolaredonda.com/2017/09/14/quartos-mortos-1-casamento-a-desmoronar/

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