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O Porto por uma lata.

por Nuno Resende, em 27.05.15

 Imagem via Notícias ao Minuto

 

Quem é ou mora no Porto há pelo menos 30 anos, como eu, assistiu às notáveis transformações da cidade. Desde uma Foz ainda longínqua, a uma marginal marítima abandonada e decadente, até à consagração da cidade (ainda suja e com problema sociais por resolver no Centro Histórico) enquanto Património da Humanidade, o percurso tem sido fulgurante.

Como em todas as cidades ou como, aliás, na história do país, o Porto ruma entre as marés das modas e dos devaneios político-partidários e entre questiúnculas de uns e outros (dos arremessos urbanísticos de Fernando Gomes, às mãos-pelos-pés do eng. Nuno Cardoso, passando pela longa «fantasia Rui Riesca») chegamos, hoje, ao Apogeu.

Se a História é cíclica, o Porto está em 2015 como estava em 1415, nas vésperas da conquista de Ceuta, quando investiu do bolso a abertura do mediterrâneo aos seus desejos expansionistas comerciais. Mas, volvidos 500 anos, o projecto é outro e o Porto não sai do sítio. Hoje vem cá a Europa.

E a Europa vem às mancheias. Não, não se deve à governação provinciana dos últimos 30 anos, com as suas arremetidas pequeninas a Lisboa, coladas à estratégia futeboleira, nem ao fraquinho investimento na promoção turística (ou da imagem que hoje se quer vender com um PONTO). Não. Deve-se a investimento externo, nomeadamente aos voos baratuchos (low-cost como a gíria bem falante lhes chama) que há pouco menos de 10 anos despejam na cidade por mês milhares de forasteiros.

Ora, naturalmente que o encanto da cidade, que muitos têm tentado estragar desde o ano da Capital Europeia da Cultura, em 2001, é motivo mais do que suficiente para este tipo de pontes aéreas. Mas eu e certamente muitos dos meus correligionários portuenses já percebemos que ao aumento exponencial do fluxo de turistas (aproveitado pelo actual executivo para justificar os bons anos de governação «independente») não se seguiu um correspondente incremento dos serviços: os transportes (STCP e Metro) estão de rastos; o trânsito é um caos (desde os anos 80 que não se assistia a estrangulamentos como os de hoje nas Pontes e nas vias supostamente rápidas) e, de repente, parece que uma fábrica do IKEA explodiu em plena baixa, tal é a repetição nauseabunda do mobiliário daquela empresa em todos os bares, hotéis e cafés que, de há 5 anos a esta parte, têm matado o comércio tradicional.

Tudo isto é abundantemente vendido como imagem de turismo, futuro e progresso pela actual edilidade. Mas o facto é que se vende gato por lebre. Depois da azia popularucha dos carros de corrida ou dos aviõezinhos, a que a cidade entregou o nome por alguns trocos, um festim cultural de duvidosa qualidade tem acometido a agenda do Porto. Há um ano repleto de encontros, sessões, inaugurações com nomes estrangeirados, parangonas - e…nenhum conteúdo - numa sucessão de eventos que se resume a recepções e copos d’água para classe média e média-alta beberem - desesperadas que são por festas e copos. Depois há o São João das Fontainhas e da Boavista revisitados no modo «carrinhos de choque e rodas gigantes» mas hoje com vestes intelectuais. E dizem que vem aí a «cidade líquida»….

Eu votei Rui Moreira. E considerei que a mudança se fazia na cidade das mudanças, pela alteração do paradigma Circo e Festa, pelo da promoção integral de uma cidade (perdoem-me a parvoíce da inocência) onde a liberdade e o brio eram fundamentais para preservar o nunca foi nem será a naçom parola – mas uma urbe consciente do seu papel histórico de lugar cívico. Enganei-me logo quando a cidade entregou a pouca dignidade que tinha aos representantes das Repúblicas «Populares» da China e de Angola.

Reflecti porém que tinha dado para outro peditório: dei o meu voto para a criação um Olimpo, com os seus Apolos a beberricar ambrósia e a tirar selfies para as redes sociais.

E o «povo» do Porto? O «povo» que beba Coca-Cola, que agora até traz a imagem de um certo «Porto»

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publicado às 16:10







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