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Pensar dentro do rectângulo

por Nuno Resende, em 30.05.16

Portugal-Administrativo_thumb2.jpg

 

De vez em quando vêm à baila jornalística uns não-assuntos que as redes sociais transformaram em causas. Há alguns meses atrás o caso Henrique Raposo vs. «alentejanos» completamente pífio (basta ler o livro atacado) e agora o súbito ataque ao cantor José Cid a propósito de um comentário por ele formulado num programa de televisão há 5 anos.
Não vamos sequer escalpelizar a indignação suspensa durante cinco anos, nem o teor das declarações que ouvidas no contexto são naturalmente infelizes mas de modo algum deselegantes dentro da conversa e no contexto do próprio programa. Não vale a pena, os comentadores encarregam-se disso. Mas o humor em Portugal sempre foi cru, cruel e crucificador, sem que alguém alguma vez se tenha realmente importado com isso.
O humor vulgar, aquele de barbearia, de táxi ou de café é mesquinho, implacável e francamente amoral. Desce aos lugares mais sórdidos da existência humana e quase nunca poupa quem quer que seja, reduzindo grandes e pequenos, honrados e menos honrados a matéria de cloaca.
Durante anos a fio tenho ouvido anedotas sobre alentejanos, impropérios sobre portuenses e lisboetas, observações lúbricas e pouco lisonjeadoras sobre tipos sociais, profissões e ofícios. E se recuarmos na genealogia da graçola xenófoba e chauvinista o país inteiro revolve-se em riso entre si e contra si.
Não é por nada que o Zé Povinho, indivíduo boçal e risonho que encena um gesto de insulto, se tornou o símbolo colectivo de Portugal.
Mas nesta história toda o mais absurdo não é indignarem-se com comentários imbecis - afinal as redes sociais são ao mesmo tempo palco e plateia. O mais absurdo é a forma como ainda se pensa o país segundo a bitola salazarista dos transmontanos, dos beirões, dos alentejanos, etcª.
Aquele mapa colorido das províncias que engalanava muitas salas de escola primária ainda faz as delícias desta gente.
Ao menos no Estado Novo ainda se cuidava de saber onde começavam e acabavam as províncias. Desconfio que hoje muitos transmontanos só o são por contágio. Nunca leram Torga, não sabem elencar os rios da região e estão a marimbar-se para a etnografia e a cultura popular que, aliás, foi sempre pouco gentil para os tipos de homens e mulheres que estavam para lá do Marão...

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publicado às 20:33







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