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Salvando o Salvador Sobral

por Nuno Castelo-Branco, em 16.05.17

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 Bem, já passada a febre dos entusiasmos nacionais, aqui fica o que me pareceu o último festival eurovisivo:


1. O habitual ruído infernal que nos últimos 15 ou 20 anos invadiu o certame. Para ver o Eurofestival, precisamos de ter uma caixinha de aspirinas à mão. 
2. Discochunga, rap-rap, hip-hop com trejeitos tiroleses, tekno-paranoia, metal suburbia, muito circo caprichosamente condimentado pelas habituais e bem estafadas Barbies masculinas e femininas. Tudo isto num espectáculo que parecia um concurso da Commonwealth, capitulando ao inglês a França, Espanha, todos os nórdicos e 90% dos membros do antigo Pacto de Varsóvia. Vendo bem os factos sob outro prisma, uma colossal derrota para o sr. Juncker.
3. Do que gostei "maijoumenos"? De pouca coisa, da canção belga, pessimamente cantada por uma rapariga que quase desmaiava de nervosismo, uma espécie de ersatz tardio de Enia. Da canção da Bulgária que tresandava a Dima Bilan, na linha do costume e da moda dos charts de sucesso durante 15 dias. Da italiana, surpreendente de alegria e de inteligente construção com um acessório macaco-humano que se tornava desnecessário. 
4. Amar pelos Dois, uma canção que no dia em que por cá venceu, me pareceu um disparate total. Fiquei naturalmente irritado, de imediato julguei-a mais um daqueles encartes de encomenda e "contrária, como foi, à vontade popular", algo bastante comum nesta Europa das oligarquias de esquerda e de direita. 

Porquê esta aversão? Porque os meus ouvidos entupidos estão habituados a compartilhar sensações com a vista e o que ali se viu não era nem sequer mediaticamente tragável. 

Não sabia porquê, mas o meu cunhado António Faria explicou e não fiquei lá muito convencido, pois pensava que se tratava de badalhoquice blasé a precisar de água e sabão. Enganei-me redondamente e fui obrigado a morder na língua, coisa dolorosamente frequente.

Umas semanas depois, no aniversário da minha mãe, sem dizer uma palavra ele ofereceu-me o CD promocional, com a canção vocalizada pelo Sobral* e a mesma composição apenas na versão instrumental, digamos, de karaoke. Adorei escutá-las, pois não vi a imagem de uns dias antes. Depois disso e até ao passado sabado, usei e abusei da prenda.

Não "aderi" à festa depois da vitória. 


A canção é simplesmente magnífica, faz-nos lembrar "qualquer coisa que já ouvimos antes"- o que a meu ver é óptimo -, não se sabe bem em que década, daí é intemporal, o aspecto que mais interessa. Aposto que o pataqueiro Andre Rieu não perderá a oportunidade de incluí-la num dos seus coloridos repertórios destinados a massas sonhadoras.

Amar pelos Dois será um sucesso e isto não ficará por 2017, arriscando-se muito a ombrear com o Waterloo, l'Amour est Bleu, Aprés Toi, Un banc, un arbre, une rue, Congratulations e sei lá eu o que mais. Tanto pior para os produtos salazaristas que por cá bem tentaram através de Simone d'Oliveira, Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Tonicha (quase todos eles relativamente saídos da fornada Ary) e outros como o grande Cid, as estrambólicas Doce-que-estavam-muito-à-frente-do-seu-tempo, etc. 


O Salvador acertou em cheio e até na imagem melhorou muito, foi perfeito em Kiev.

Que catarse colectiva foi aquela chuva de doze, douze, twelve e por aí fora. Arrisco-me a dizer que para os que "nunca viram e não vendo, sorrateiramente veem sempre" o Festival da Eurovisão, foi uma noite semelhante àquela em que a S.N. venceu o Eurobola.


* A minha gata Kika é uma apreciadora de boa música, "flipa" quando ponho a tocar a Flauta Mágica de Mozart ou qualquer coisa do Carlos Seixas. Experimentei o disco do Sobral e… veio a correr para a beira do leitor de CD. A canção foi aprovada. Posso ouvi-la à vontade, estou por ela autorizado. 

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publicado às 22:19


1 comentário

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De pito a 18.05.2017 às 18:55

Consola-me o seu espírito de humor.

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